
- Você até agora não falou de mim no seu blog? Não é possível!
Minha irmã Simone procurava o próprio nome nas páginas do meu blog sentada na mesa do computador no quarto de Cláudia, que brincava com minha filhinha em sua cama. Fiquei rindo, vendo a cena: uma lendo sobre minha maternidade virtual no computador e a outra brincando com o produto real. Era uma dessas gostosas tardes de domingo em que as quatro irmãs se encontram para contar sobre a semana, rir, chorar, lembrar do passado. Quando crianças (e principalmente na adolescência), a gente brigava muito. Discussões, berros, tapas e muitas palavras duras regadas por lágrimas. Bastava uma divergência para que duas irmãs ficassem dias sem se falar. Não gostávamos de nos misturar, cada uma tinha sua turma, suas músicas, seus próprios programas. Hoje, o meu programa favorito é encontrar estas três mulheres, ouvir suas brincadeiras e queixas. Ver a emoção nos olhos de cada uma quando elas olham para minha filha.
Até o momento, este é o único benefício que encontrei em envelhecer: superar aquela babaquice que todo mundo tem aos 14 anos de achar que nossos pais são idiotas, que as irmãs são cretinas e que toda aquela família é um grande equívoco. Pode ter certeza, você nasceu exatamente dentro da família na qual deveria ter nascido, só para entender que o defeito que você mais detesta em cada um, muitas vezes é exatamente o seu pior defeito. É uma chance que Deus lhe dá de conseguir perdoar o e superar seus próprios erros.
É para isto que servem os irmãos; nos desafiar e fazer-nos entender que a maturidade é o que nos leva a se dar bem com os outros. De amiguinho das brincadeiras, o irmão passa a rival pelo amor dos pais, inimigo na defesa pelo território do quarto, companheiro em viagens de férias, desconhecido no período dos primeiros empregos, importante nas festas de casamentos e velórios, presente nas suas crises e vai ficando cada vez mais próximo até se tornar seu melhor amigo.
Simone ficou comigo por uns três dias logo quando Laura nasceu. Ela arrumou as roupinhas e decorações finais no quarto. Fiquei impressionada com o senso de organização dela quando veio me mostrar a divisão das roupas na cômoda:
- Coloquei na gaveta de cima as roupas menores, que ela usará primeiro. Aproveite bem pois elas se perdem rápido. Macacõezinhos aqui, body manga longa no meio, manga curta atrás e roupas leve à esquerda. Na última gaveta, as roupas maiores...
Pensei quanto ela cobraria para organizar o meu guarda roupas. O trocador estava impecável, cada potinho em seu lugar. Quando olho para tudo bagunçado e jogado hoje, dois anos depois, sinto vontade de rir, ou de chorar, sei lá. Havia algo de deliciosamente novo em todos aqueles pequenos objetos rosas, com lacinhos, rendinhas, enfeites de bichinho, tudo novo como o meu bebê. Tudo fica sempre bem arrumado enquanto o neném não consegue se sentar sozinho ou mexer as mãozinhas direito. Anote isto: no dia em que seu bebê aprender a andar, jogue fora revistas de decoração. Esqueça isto. Acabou, entendeu? Ou você arruma a casa ou cria um filho, escolha.
Mas com Simone lá, arrumando tudo, minha vida ainda parecia me pertencer. Eu cheguei ao requinte de fazer escova nos cabelos! Quando ela teve de ir embora, entrei em pânico! O que eu faria sozinha? O medo congelou minhas entranhas e por pouco não me joguei no colo dela implorando: “Não me deixe! Eu não posso fazer isto sozinha, socorro!”. Ela parecia saber tudo, nada que o bebê fizesse a assustava.
Quando amamentava Laura, nos primeiros dias, havia momentos em que ela parecia perder o bico e ficava virando a cabecinha de um lado para o outro, procurando sofregamente seu seio com a boca. Neste momento, Simone segurava a cabecinha dela com firmeza e vupt, colocava a boquinha de Laura direto no meu peito de novo. Admito que eu ficava um pouco apreensiva, pois eu manuseava Laura como se ela fosse uma taça de cristal Bacart. Simone não tinha frescuras. As orelhas estavam sujas? Meleca no narizinho? Ela empunhava um cotonete e não parava enquanto não estivesse tudo limpinho. Laura esperneava e chorava alto enquanto Simone usava um cotonete atrás do outro.
- Comigo não tem essa de choro, não! Tem que limpar. Deixa a criança chorar que chorar um pouco não mata ninguém.
Quando ela dava banho em Laura, ela a virava de um lado para o outro com tamanha habilidade que parecia um experiente açougueiro desossando um frango.
- Você está com uma cara de assustada... O que foi? É o jeito que eu seguro o bebê que te preocupa?
- Não... Imagina...
Com Simone aprendi que se você ama a criança, então tem que estar pronto para limpar, escovar dentes, fazer engolir o xarope, segurar para dar vacina, segurar para colocar termômetro, ajudar cocô duro a sair (isso mesmo, com o dedo se preciso), limpar vômito e o que mais vier pela frente.
Ser mãe é o emprego mais desafiador, difícil exaustivo da sua vida. É o mais recompensador também, mas nem sempre eu me lembrava disso. Eu era preguiçosa e não sabia que trabalhar da hora em que eu levantava de manhã até o momento em que fechasse meus olhos à noite seria muito mais do que eu conseguiria fazer. Ou seria mais do que eu queria fazer?
O que eu esperava? Que fosse fácil? Que eu tivesse um talento nato para a maternidade? Eu era um grande desapontamento. O fato é que, comparada à Simone, eu me sentia muito abaixo dos padrões mínimos para obter a licença de mãe. Tinha momentos em que eu achava até a minha cadela vira lata Pipoca melhor com seus seis filhotinhos que eu com uma única filha. Bom, é verdade que o sétimo filhotinho, que nasceu com as patinhas atrofiadas, Pipoca jogou para fora da caixa onde ela ficava aninhada com sua prole para que ele morresse de fome. Mas entenda, ela só tinha seis tetas, alguém tinha mesmo de morrer. Fora este pequeno detalhe, ela foi uma excelente mãe.
Simone era o meu ideal, uma mãe abnegada. Por isto, quando ela leu meu blog, começou a rir.
- Imagine só se eu fosse contar a minha experiência! Vítor mamou até 2 anos e nem pegou chupeta. Seria mais ou menos assim: 22h, Vitor me acorda chorando. Meia noite e trinta, Vítor me acorda chorando. 2 da manhã, Vítor chorando! Ah! E o meu marido não ajudava como o Elberth ajuda. Márcia, a Laura não dá trabalho nenhum! Ela é supersaudável. Lembra da minha amiga Magda? A filha dela, mal nasceu já foi levada para uma cirurgia no coração! Isso sim é problema. Agora, a Laura... ela é um anjo!
Meu Deus! É isto! Não há nada de errado com Laura, sou eu! Mas Simone não foi uma mãe de 40, ela era mais nova. Será que é este o motivo? A gente recebe um pote cheio de paciência quando nasce e, na minha idade o pote já está pela metade. Eu estou gasta. Quanta energia ainda será me resta? Por que eu comi tanto chocolate, bebi tantas cervejas, fumei tantos cigarros e passei tantas noitadas acordada até tarde? Se eu tivesse comido mais cenouras e frequentado a academia mais que 3 semanas, com certeza estaria em melhor forma. Afinal, cuidar de um bebê é tarefa para cinco Arnold Schwarzeneggers. Mas não, eu achei que minha juventude duraria para sempre, não me cuidei e agora estava um bagaço. Toda manhã eu acordava com o peso de uma caçamba de entulho em cima de mim e tinha que me arrastar por baixo dela para chegar até o berço onde Laura berrava exigindo o serviço de quarto.
O que mais me assustava era a falta de alegria. E a vergonha e o medo de que as pessoas percebessem a verdade. Eu não queria sentir aquilo e não sabia por que me sentia assim.
- Márcia, sua filha quase não chora, não fica doente, acorda pouco à noite... Como você pode não estar totalmente feliz? Ela é um anjo!
Era exatamente isto. Ela era um anjo. Eu era o demônio.
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