A nova geração das mães não é tão nova assim.

A nova geração das mães não é tão nova assim. Se você colocou a universidade, a carreira, o regime e até o marido na frente da maternidade e depois teve que correr atrás do prejuízo, bem-vinda ao blog das novas mães maduras.

domingo, 14 de novembro de 2010

Ninguém segura esse bebê

Acordei confusa e assustada. Eram 15 horas e o sol batia na cortina. O que estava acontecendo? Por que eu estava dormindo no meio da tarde? Ouvi de novo o som que me acordara, um choro de bebê. Ah, é mesmo! Vivia me esquecendo que era mãe. Eu acordava com a lembrança da vida que vivi por 40 anos e, de repente, estava naquele universo paralelo onde eu tinha virado outra pessoa. O chorinho era meigo, só mesmo querendo me chamar para alguma necessidade do momento tipo trocar fralda ou um leitinho. Senti aquela mistura de amor e cansaço e me dirigi ao quarto ao lado.
Lá estavam as perninhas chutando o ar. Olhei para a pessoinha lá dentro mas ela não pareceu impressionada com meu visual de recém acordada. Afinal, para ela eu era apenas a sua serva, não se importava se estava descabelada ou não, pensei rindo. Estiquei-me para pegá-la e foi então que aconteceu a primeira vez. Ela escapou das minhas mãos caindo de novo no berço. Nada dramático, uma queda pequena e inofensiva. Não entendi direito porque aconteceu, senti uma dor agura nos pulsos e uma fraqueza, quase como se minhas mãos tivessem desaparecido. Mas tudo só durou uns segundos, então não dei importância ao fato.

Não me lembro quando aconteceu a segunda ou a terceira vez, só sei que a coisa foi se tornando uma rotina. Eu estava tão absorvida por toda a reviravolta da maternidade que não fui me dando conta de que havia me acostumado a uma dor constante nos pulsos, que às vezes ficava aguda e não me permitia segurar Laura com firmeza. Apesar da preguiça que isto me causava, resolvi consultar um ortopedista. Explico: não acredito em médicos no geral. O problema é que consultei-os demais, fui a muitas emergências e esse contato muito próximo com médicos faz mal à saúde. Quando você fica perto demais, eles perdem aquela aura de deuses milagrosos e a gente acaba descobrindo que eles são apenas seres humanos. E cada engano que cometem custa a você muitos reais em exames, muitas horas em salas de espera, altas contas na farmácia e dores que continuam por anos. Tudo bem, admito, eu sofro de enxaqueca e, como todo ser humano que sofre de dor crônica, perdi minha fé na medicina ortodoxa há umas quarenta tomografias atrás.

Chamei Cláudia para me acompanhar ao médico pois precisava de alguém para segurar Laura durante a consulta. Era sempre incrível sair com um bebê pelas ruas. É como se você fosse uma celebridade, as pessoas param, querem ver o bebê de perto, gente que nunca te viu olha para você e seu pimpolho com adoração. Faltam tirar fotos e pedir autógrafo. Nessa fase você ainda pode aproveitar um pouco daquele tratamento especial que recebia quando estava grávida. As pessoas se preocupam onde você vai se sentar para ficar confortável carregando seu bebê.

No consultório, o médico, que tinha uns 100 anos de idade, nem sequer se levantou para examinar minhas mãos.

- Ah, você está amamentando, não é? Pronto, já sei qual é o seu problema. Essa dor nos pulso é um inchaço do túnel do carpo causado pelos hormônios da amamentação. Bom, também por causa a amamentação, não podemos dar um remédio forte, você vai ter que fazer o seguinte: compre talas que deixem suas mãos imóveis e... Bom, depois que parar de amamentar, a dor deve passar. A não ser que o inchaço não suma. Aí vai continuar doendo até desinchar. Pode levar meses, ou anos... pode não passar...

Ótimo! Gastei táxi e uma consulta para falar com um dinoussauro da ortopedia que sofria de esclerose múltipla! Olha só que idéia mais estapafúrdia, que amamentar tinha causado aquela dor terrível nos meus pulsos. Isso que dá marcar consulta com qualquer um. Se você liga para uma clínica e o médico tem consulta para o mesmo dia, só pode ser porque ele não deve ser grande coisa mesmo. Não tem nem lista de espera de pacientes! Médico bom é aquele que você liga e ele só tem horário vago para daqui a sete meses. Mesmo assim, você chega às 15h para a consulta de 15:45h e só é atendida às 19:20h. Isso sim é médico de verdade. Aqueles que você tem que tirar o dia inteiro de folga no serviço para ficar sentada na sala de espera folheando revistas de 1987 num consultório lotado de pacientes resignados. Afinal, sem resignação, como é que suportaríamos o comportamento compulsivo das secretárias que insistem em marcar consultas de 15 em 15 minutos mesmo sabendo que o chefe delas leva pelos menos uma hora e meia para atender cada paciente?

Decidida a encontrar um médico de verdade, marquei outra consulta. E depois mais outra e mais outra. No quarto ortopedista, tive que me render. Todos eles foram idênticos em seus diagnósticos. Havia uma estranha e rara ligação entre amamentar e ter os pulsos inchados e dolorosamente sensíveis a ponto de mal suportar o peso do bebê por muito tempo. Todos me mandaram ficar com os pulsos imobilizados em talas para melhorar a dor mas isso não funcionou. Deveria ser porque eu só conseguia imobilizar os pulsos durante uns 10 minutos, aí tinha que trocar as fraldas da Laura, então tirava as talas. Colocava as talas e, 20 minutos depois, tirava para amamentar. Colocava-as de novo e tirava logo depois para embalar Laura que começara a chorar. Colocava as talas quando Laura adormecia e tirava 10 minutos depois quando me lembrava de toda a roupinha para lavar, comida para fazer, louça para lavar, chão sujo para varrer, telefone para atender, novas fraldas para trocar e assim por diante. Acho que as talas acabaram me provocando mais dor de tanto esforço para colocá-las e tirá-las minutos depois.

A dor começou a minar minhas poucas energias. Os pulsos passaram a doer constantemente, quer eu ficasse parada ou não. Quando me deitava para dormir, ao invés de alívio, eles doíam ainda mais. Não conseguia entender porque isto estava acontecendo. As semanas foram passando e comecei a ter crises de choro a todo momento. Elberth estava transtornado e eu tinha medo que, na próxima vez que meus pulsos falhassem, Laura caísse no chão e se machucasse. Comecei a sonhar que isso acontecia, que ela se machucava por culpa da minhas mãos fracas, e acordava com o rosto molhado de lágrimas. Tudo me irritava. A dor era constante e quando Laura chorava no berço sentia a raiva crescendo em mim. De um lado, raiva por que aquilo me impedia de cuidar dela direito. Por outro lado, sentia também raiva porque, de alguma forma, fora ela quem causara aquela dor. Não ela própria, mas a necessidade que ela tinha do meu leite. Esse sentimento me enchia de vergonha e não tinha coragem de contar a ninguém meus pensamentos. À minha volta, as pessoas já estavam cansadas das minhas reclamações e pareciam me recriminar por meu mau humor num momento tão abençoado como este de receber uma criança perfeita e saudável. Parecia que eu era ingrata e não merecia tal benção. Resolvi então aceitar a sugestão da cirurgia.

- Doutor, mas o senhor vai operar as duas mãos ao mesmo tempo? Como é que eu vou cuidar da minha filha? Não tenho empregada nem ninguém da família que possa ficar comigo para me ajudar...

- Não se preocupe! A recuperação é de um dia para o outro. Você opera hoje e no dia seguinte já está cuidando de tudo normalmente.

Você acreditou nisso? Não? Bem, você é uma pessoa sensata e inteligente. Não posso dizer o mesmo a meu respeito. Eu acreditei e operei as duas mãos no mesmo dia achando mesmo que, no dia seguinte, eu estaria executando minhas tarefas normalmente. Quando me deitei na maca na sala de cirurgia, eu devia ter adivinhado ali mesmo que aquilo não tinha a menor chance de dar certo. A maca tinha duas talas laterais onde meus braços foram furiosamente amarrados. Pensei que a enfermeira estivesse cometendo um erro.

- Moça, espere aí, isso está muito apertado, está cortando a minha circulação!

- Calma, é assim mesmo. O doutor vai cortar os seus dois pulsos, temos que evitar muita perda de sangue.

Meu Deus, no que foi que eu me meti! Agora estou amarrada aqui com os braços abertos, cruscificada nesta maca! Nem se eu quisesse fugir, não vou conseguiria. Espere aí! Quem é que está mexendo no meu pé? Eu vou operar os pulsos, o que esse cara está fazendo aí em baixo mexendo no meu pé?

- Oi, Márcia! Eu sou o seu anestesista. Bom, o doutor amarrou seus dois braços, então, só me sobrou o seu pé, he, he, he! Vou tentar pegar a veia aqui mesmo.

Nesse momento, senti uma das dores mais inesquecíveis da minha vida. E olha que eu entendo de dor em mesas de cirurgia. É que, além desse inchaço raro nos pusos, eu também fui um caso raríssimo de paciente que acordou antes de uma cirurgia terminar, com a médica fechando meu abdomem. Parece que tenho talento para viver momentos raros de dor intensa. E essa dor foi bem intensa. Imagine seu pé gelado, duro com o frio do ar-condicionado, levando uma fincada de agulha de anestesia. A agulha não é como essas de injeção comum, é muito mais grossa. Tentei manter minha imagem de mulher adulta, mas não foi possível. Gritei e comecie a chorar.
- Calma, é assim mesmo. No pé dói muito mais. E o seu pé está gelado, isso não ajuda em nada. Olha aí, perdi a veia. Sinto muito mais vou ter que te espetar de novo.
Ele espetou mais uma vez, mais duas vezes, mais três vezes. Eu não gritava mais, tinha ficado catatônica. O próprio anestesista já estava nervoso. Mas, ao invés de mostrar simpatia pelo meu sofrimento, ele ficou irritado, como que envergonhado de não conseguir pegar a veia, e expodiu:
- Olha, vou tentar só mais uma vez! Se não conseguir, o jeito vai ser pegar a veia no seu pescoço...
Onde é que esses médicos fazem treinamento? Num campo de concentração nazista? Graças a Jesus Cristo, ele acertou a veia na última dolorosa picada. O soro entrou queimando e eu comecei a ansiar pela anestesia. Como sempre, minha memória fica confusa e só me lembro de algumas partes, o ortopedista chegando, acariciando meu ombro, dizendo para eu ficar tranquila. Queria ver se ele ficaria tranquilo ali, pelado naquela sala congelante, cruscificado naquela maca, com o anestesista Menguele torturando seu pé com agulhas. Pelo menos todo aquele sofrimento acabaria com minha dor nos pulsos. Era o que eu pensava... Acordei sendo colocada na cama da enfermaria, com a infeliz da agulha fincada no pé gelado.
- Por favor, enfermeira, dá para tirar essa agulha do meu pé? Está me matando de dor.
- Os médicos não gostam que se tire a agulha. Pode ser preciso aplicar algum remédio e aí, teríamos que achar outra veia...
- Só que agora meus braços não estão mais no torniquete, podem aplicar a medicação no braço mesmo.
- Ah, mas dá um trabalho achar a veia...
Será que isso é uma pegadinha? Tem câmera escondida neste quarto? Como assim, a enfermeira estava com preguiça de ter que achar outra veia? A profissão dela não é essa mesmo? Isso só pode ser piada. Elberth entrou no quarto todo animado.
- O doutor disse que você já vai ter alta...
- Eu quero que tire a porra dessa agulha do meu pé agora!
Sem dizer palavra, meu marido deu meia volta e foi procurar a enfermeira. Ele sabe quando eu estou num estado de espírito em que o diálogo não faz parte das opções disponíveis. Em segundos ele voltou.
- Ela disse que se tirar, perde a veia e se precisar aplicar um remédio...
- Chame esse médico filho da puta aqui agora se não eu quebro tudo nessa bosta de quarto. Minhas mãos estão enfaixadas, mas eu juro que arranco essa merda de agulha e enfio ela no cú da enfermeira.
E por aí vai. Meu repertório de palavrões é mesmo respeitável, você ficaria encantada de ouvir. A outra paciente da enfermaria sentou-se na cama assustada, olhando em volta parecendo avaliar como fugiria dali viva. Minha mãe entrou no quarto e tudo começou a piorar ainda mais.
- Minha filha, você tem que ficar calma...
Gente, pode bater na minha cara, me cuspir todinha, mas não me peça para ficar calma no momento em que eu estiver babando e espumando pela boca como um pitbull. Em situações normais da vida, isso já seria suicídio. Mas ali, depois de semanas de dor, sentimentos de culpa e raiva, uma cirurgia e, para completar, aquela agulha enfiada no meu pé, eu só pensava em uma coisa: matar alguém! Nem me lembro do que falei só sei que pulei da cama e comecei a tentar tirar a agulha, as mãos enfaixadas. A agulha não saiu mas parece ter se movido e o pé começou a sangrar. Elberth e mamãe não conseguiam me conter, eu experimentava uma fúria descontrolada e logo havia rebuliço no corredor. As enfermeiras estavam putas da vida com aquela mulherzinha histérica dando trabalho depois de uma simples cirurgia nos pulsos. Tinha gente morrendo de verdade e eu alí dando uma de diva. Na época não pensei, mas esse talvez tenha sido o primeiro sinal de que eu iria pirar. Muito em breve, eu iria ficar ainda pior, mas naquele dia nem sonhava que ainda seria capaz de atitudes mais desequilibradas que aquela.
Não sei se foi para se livrar de mim, mas finalmente as enfermeiras aplicaram um suposto calmante na veia (sim, através da infame agulha espetada no pé, retirada em seguida) e me deixaram sair imediatamente, sem nem averiguar os efeitos do remédio. Foi a alta mais rápida do meu histórico hospitalar. Cheguei em casa fula da vida! Calmante o caralho, acho que eles aplicaram foi Red Bull na minha veia porque eu cheguei pronta para arrancar a orelha do Mike Tyson. Minha irmã estava com Laura em casa mas eu nem queria ver minha filha. Mais uma vez a raiva se insinuava em minha mente dizendo que tudo aquilo acontecera por causa dela. Fui para o quarto com a desculpa de que precisava descansar e chorei de remorso afundando o rosto no travesseiro para ninguém ouvir meus soluços.
Acordei depois sentindo dores nos pulsos e no pé. Mas a dor pior era no coração. Remorso. Corri para o berço para ver minha menininha. Ela dormia com aquela carinha mais fofa, aquele cabelinho preto na cabecinha morena, emanando o seu perfume de carro zero km. Só vê-la não bastava, queria segurá-la nos braços, embalar, pedir desculpas. Estiquei os braços mas as faixas não permitiam que eu a pegasse. Fiquei lá, dependurada na grade do berço com as lágrimas caindo no cobertorzinho dela, me sentindo a mais miserável das mães. Temia pelo dia seguinte quando ficaria sozinha com Laura. Será que minhas mãos iriam funcionar tão bem quanto o médico prometera?
No dia seguinte, tirei as ataduras. Os cortes nos pulsos pareciam uma tentativa de suicídio mal feita. A dor continuava intensa mas não havia o que fazer. Estava sozinha de novo, para cuidar de Laura da melhor forma que eu pudesse. Pelo menos agora eu estava em convalescença, à medida que os pulsos fossem cicatrizando, ficariam fortes de novo e a dor pararia. Então, toda aquela loucura na minha cabeça passaria e ficaria tudo bem. Iria ficar tudo bem.
Só que não ficou nada bem. A dor continuou como seu eu não tivesse feito nada. Na verdade, por algum tempo acho que ficou pior. Depois diminuiu mas não parou por completo e os pulsos falhavam de vez em quando. Os meses foram passando e me acostumei a sentir a dor, às vezes menos, às vezes mais. Quando parei de amamentar, tive a esperança de que sumisse, mas isso não aconteceu também. Aquele velho médico dinossauro tinha razão, pode ser que não passe nunca. Até hoje eu não sei se será assim; já fazem dois anos e os pulsos ainda doem todos os dias. Falharam várias vezes segurando Laura, mas o anjo da guarda dela sempre ajudou na aterrisagem e, no final das contas, ela nunca se machucou seriamente por isto, como acontecia nos meus pesadelos. Como eu disse antes, nada muito dramático. Muitas mães enfrentam coisas piores, eu sei. Não sou grande coisa como pessoa, não sou aquele modelo de mãe coragem e tudo mais. Não tenho desculpas pela fraqueza nos meus pulsos nem pela fraqueza no meu caráter. Eu não queria ser uma pessoa complicada. Só queria segurar meu bebê.

Um comentário:

  1. Gostei da sinceridade do seu relato. As mulheres mães realmente ficam sozinhas em suas dores no sentido de serem muito julgadas quando são sinceras. Ser mãe significa achar tudo lindo e sofrer calada. É um tabu falar do lado humano da maternidade com suas dores e dramas.

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