A nova geração das mães não é tão nova assim.

A nova geração das mães não é tão nova assim. Se você colocou a universidade, a carreira, o regime e até o marido na frente da maternidade e depois teve que correr atrás do prejuízo, bem-vinda ao blog das novas mães maduras.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Gabriel

- Laura! Laura! Laura!

Eu gritava o nome dela sem parar, não conseguia pensar em nada mais para dizer. Mas não era preciso dizer mais nada. Quem ouvisse o tom da minha voz, quem sentisse a vibração de pavor e desespero entenderia imediatamente que alguma coisa terrível havia acontecido. Não levou mais que alguns segundos para minha irmã Cláudia e seu namorado Jones entrarem no quarto, igualmente aos berros, com o mesmo tom de pavor em suas vozes:

- O que aconteceu?
Eu não respondia, apenas continuava a berrar o nome da minha filha. Havia arrancado-a do berço e a sacudia erguida, olhando bem em seus olhos estatelados, fixando-me no seu rostinho roxo, buscando alguma reação qualquer. Nada. Senti Cláudia puxando Laura dos meus braços e não consegui reagir. Por falta de alguma idéia melhor ou por puro desespero mesmo, ela apenas repetiu o que eu havia feito: gritou e sacudiu Laura. Mais uma vez ela não demonstrava nada, nem mexia os olhos, nem chorava, nada. Puxei Laura dos braços dela mas logo a menina foi novamente puxada, desta vez pelo namorado de minha irmã, ele mesmo transtornado querendo fazer alguma coisa. No andar de baixo, minha mãe gritava.

- O que foi? Oque aconteceu com a Laura? Fala, gente!

Ela demorou um pouco a subir. Mais tarde disse que as pernas simplesmente se recusavam a vencer os degraus. Minha mãe me confessou que tinha medo de subir e ver por sí própria o que acontecera, temia ser mais forte do que ela poderia suportar. Mas afinal subiu e juntou-se a nós naquele pesadelo. Por alguns instantes lá estávamos nós, quatro adultos rodopiando com um bebê de colo em colo, aos gritos, sabendo que cada segundo que passava era precioso. Da casa dos fundos, Alessandra berrava, perguntando o que acontecera. Ela também temia subir e ao mesmo tempo precisava ficar lá embaixo e acalmar Vívian abalada por todo aquele pandemônio. Pela janela chegaram as vozes dos vizinhos repetindo a mesma pergunta: o que aconteceu com Laura?

No meio daquele furacão, todos os berros tornaram-se subtamente abafados. Meus ouvidos pareciam entupidos com quando estamos voando bem alto de avião. Meus braços penderam ao lado do corpo e deixei que eles continuassem a sacudir minha filha numa louca tentativa de salvamento.

"Eu vou perder esse bebê" pensei. "Minha filha vai morrer agora, aqui na minha frente, se eu não fizer a coisa certa".

Foi quando me lembrei daquela matéria, no jornal de sábado à tarde, sobre a mulher que ligou para o bombeiro. Desci as escadas aos pulos e liguei 190.

- Polícia, boa noite.

Droga, tinha que ter ligado para o corpo de bombeiros. Qual era o número mesmo?

- Meu nome é Márcia, eu queria falar com um bombeiro, tenho um bebê de dois mese com parada respiratória.

Minha voz soou tão calma que temi que a atendente nem fosse acreditar em mim. Mas ela passou a ligação imediatamente. Quando ouvi a voz do bombeiro, já não foi tão fácil manter a calma e comecei a soar estridente e desequilibrada. Ótimo. Ele teria certeza de que aquilo não era um trote.

- Minha filha não está respirando! Encontrei ela no berço roxa, ela vomitou...

Enquanto eu falava, já corria para dentro do quarto de novo onde a balbúrdia continuava. O bombeiro percebeu a agitação:

- Quantas pessoas estão aí?
- Minha mãe, minha irmã e o...
- Quem está segurando o bebê?
- O quê? Não estou ouvindo!

Nesse momento, o bombeiro mudou o tom de voz. Parecia o capitão Nascimento do Tropa de Elite berrando ordens no meu ouvido com toda a fúria:

- Escute aqui, minha senhora. Mande todo mundo aí calar a boca, ouviu? Agora!
- Calem a boca, gente!
- Agora a senhora só vai ouvir o que eu falar, entendido?
- Sim senhor.
- Está com o bebê nos braços? Então pegue o bebê agora! A senhora vai virar o bebê de bruços, segurar no peitinho dela com a mão aberta e incliná-la um pouco para a frente. Agora, bata firme, mas devagar, nas costinhas.
- Bati.
- Vire a menina. Voltou a respirar?
- Não está se mexendo, não adiantou nada, ai meu Deus...
- Calma! Faça o que eu mandar! Deite o bebê de lado na cama e enfie o dedo na boquinha, retirando algum resto do vômito ou alguma gosma.

Ao me ver colocando Laura de lado na cama, segurando o telefone com o ombro, minha mãe parece ter entendido imediatamente o que precisava ser feito. Colocou o dedo na boca de Laura limpando a passagem.

- Agora deite ela de costas, bem retinha e sopre, de leve, na boca. Cubra a boca e o nariz do bebê para soprar.

Foi só o que precisou. Um sopro. Pela primeira vez, Laura reagiu tossindo. Explodimos todos em gritos e lágrimas.

- Ela respirou! Obrigada, obrigada!

Eu ria, chorava, soluçava. Não sabia se falava com Laura, com o bombeiro, com minha família ou com Deus. Por um momento ninguém ouviu nada direito, todos falavam, puxavam Laura novamente de colo em colo, beijavam seu rostinho sujo. Cláudia gritava pela janela para Alessandra e para os vizinhos que ela voltara a respirar. Lá de baixo, minha irmã estava com a voz ainda atormentada, gritando que estava pronta para levar Laura para o hospital. Ela insistia para que decessemos imediatamente. E eu quase me esqueci que o bombeiro ainda estava na linha.
- Alô? Deus lhe pague, o senhor salvou minha filha...
- Minha senhora, a ambulância do SAMU vai demorar um pouco a chegar aí, fiquem calmos...
- Minha irmã vai me levar de carro ao hospital.
- É melhor a senhora ficar e esperar. Sua filha ainda deve ser examinada. Por quanto tempo ela ficou sem respirar?
- Ela está bem agora. Não está?
- Um médico precisa avaliar.
Fiquei novamente impaciente e nervosa.

- Em quanto tempo a ambulância chega aqui?
- Eles ainda estão no centro da cidade...
- Então agradeço, mas vou de carro.
- Minha senhora, eu não posso recomendar isso! Muitas coisas podem acontecer, sua filha pode passar mal de novo, o carro pode estragar... Esperem a ambulância! Se não fizer isso, a senhora vai estar se responsabilizando pelo que acontecer! - ele agora estava nervoso também
- Eu me responsabilizo. Obrigada por tudo de qualquer forma. - disse com o máximo de carinho que podia imprimir na minha voz apressada e desliguei o telefone.

Quando desliguei, Cláudia já estava com Laura num braço e minha bolsa no outro. Mamãe e o namorado da minha irmã pareciam sobreviventes de um bombardeio aéreo, confusos e cansados. Alessandra já nos esperava com o carro ligado. Todo o esforço que eu havia feito para agir de forma sensata esgotara por completo minhas forças. Meu corpo formigava e nem sequer tentei carregar Laura dentro do carro. Não tinha certeza de que meus braços suportariam mantê-la em segurança. Mas perguntava o tempo todo se ela ainda estava respirando. Na porta da emergência do hospital recuperei-me um pouco da inércia e entrei correndo com Laura meio desmaiada nos meus braços. Haviam poucas pessoas na sala de espera e eu já me imaginava tendo que chegar ao balcão e implorar atendimento de emergência. Qual não foi minha surpresa quando a enfermeira atrás do balcão saiu correndo para abrir a porta da ala de atendimento sem pestanejar.

- Por aqui! Pode trazer o bebê!

Ela me levou direto para uma maca, sem perguntas. Um médico surgiu como que num passe de mágica e começou a auscutar o coração de Laura. Parecia que eu estava naquele seriado americano, Plantão Médico. Depois de alguns exames, o médico decidiu colocá-la num respirador por um tempo mas apenas por garantia. Ela estava bem. Eu e minhas irmãs ficamos ao lado dela na cama, exaustas como se tivéssemos corrido uma maratona. Laurinha parecia bastante tranquila, como se nada tivesse acontecido.
- Você vai contar para o Elberth? - quis saber Alessandra.
- Acho melhor ligar para ele amanhã - respondi.
- Só vai servir para ele não dormir - concordou Cláudia - Foi uma sorte você já estar saindo do banho.
- Eu estava me vestindo mas depois iria usar o fio dental, escovar os dentes, passar creme no rosto... Eu não estava indo para o quarto naquela hora. Na verdade, aconteceu uma coisa muito estranha. Vocês vão pensar que eu sou louca.
- Nós já pensamos isso, Márcia - ironizou Alessandra - Não vai fazer muita diferença.
- Não, é sério. Eu ouvi uma voz no banheiro, susurrando no meu ouvido. Foi por isso que eu saí correndo até o quarto!
- Uma voz... No banheiro? - Alessandra disse rindo - Seu fantasma estava com dor de barriga?
- Primeiro era um fantasma cozinheiro, agora é fantasma do banheiro! - completou Cláudia rindo também.
Revirei os olhos. Há muitos anos eu estava na cozinha lavando a louça quando vi, pelo canto do olho, um vulto passando e, em seguida, ouvi um susurro em meu ouvido. O episódio rendeu muitos gritos de minha parte e muitas gargalhadas de minha mãe e minhas irmãs. Tive que aguentar observações do tipo: "Por isso você está engordando. Tem um encosto cozinheiro na sua vida!" ou "O que ele sussurrou no seu ouvido? Que acabou o pudim?" Na época eu não consegui entender o sussurro, mas fiquei me sentindo muito especial, um tipo de Chico Xavier. Mas como minhas incurssões paranormais acabaram por aí, achei melhor aceitar que tudo não havia passado de imaginação mesmo.
Mas agora era mesmo diferente. Eu havia sido avisada, não tinha dúvidas quanto a isso. Era real, não importava o que os outros dissessem. Algumas coisas simplesmente não podem ser explicadas e uma delas é a força da ligação entre mãe e filho. Quanto mais a criança cresce, mas nos esquecemos que um dia, nós duas dividimos o mesmo corpo; o dela dentro do meu era meu corpo também. O ar que eu respirava era o ar que ela respirava. A água, a comida, um remédio, uma dor... Todos os meus sentimentos foram sentidos por ela e os dela faziam parte de mim de alguma forma.
Finalmente, a primeira, e espero que última, grande aventura de Laura chegava ao fim. Chegamos do hospital totalmente estropiadas, Laurinha dormindo profundamente em meus braços. Mesmo tendo decidido não ligar para meu marido, nesse momento senti uma vontade enorme de contar para ele, como se toda a lembrança daquela noite me pesasse demais para carregá-la sozinha. Só ele poderia carregá-la comigo, só ele poderia imaginar completamente o terror de ter acreditado, mesmo que por apenas alguns minutos, que eu a tinha perdido. Não existia palavras para aquele tipo de sentimento e minha cabeça estava cansada demais para procurar palavras de qualquer forma. Pensei em dormir, mas só a idéia me gelou os ossos. E se acontecesse de novo? Se ela sufocasse outra vez e eu estivesse dormindo? E se não houvesse sussurros em meus ouvidos? Cambaleei um pouco com o peso do bebê no colo, mas logo endireitei o corpo e subi as escadas para o quarto enquanto minhas irmãs explicavam à mamãe as orientações do médico, que aliás me pareciam muito pueris para um caso de quase morte. Só coisas tipo ficar atenta, deixar o quarto ventilado, erguer a cabeceira do berço e, cúmulo dos cúmulos - deitar minha filha de costas. Isso ia contra tudo o que eu acreditara durante anos e, mesmo naquela noite, voltei a deitar Laura de lado. Afinal, quando eu a socorrera no berço, ela estava de costas, os rolinhos pareciam ter sido afastados, e isso me deixou ainda mais confusa, como se ela tivesse engasgado por causa disso. Uma pediatra me disse uma vez que, provavelmente, fora isso que a salvara, o fato de ela estar de costas quando vomitou. Mas como arredou os rolinhos, isso era uma coisa que talvez apenas o fantasma do banheiro poderia esclarecer. Dias depois, assistindo uma reportagem no Fantástico, foi que finalmente tive que me render à realidade: os bebês devem dormir de costas!
Finalmente cheguei ao topo da escada e coloquei Laura no berço. Senti que cairia no chão a qualquer momento, desmaiada de cansaço. Cláudia entrou logo em seguida.
- Jones deu a idéia da gente se revezar. Você dorme primeiro enquanto eu e ele vigiamos. Depois é a sua vez e, ao amanhecer, será o turno da mamãe.
- Do que você está falando?
Ela sorriu:
- Ele não acha seguro. Cada hora um vigia a Laura, até o dia raiar. Foi idéia dele, deve ser de algum filme da guerra no Vietnam que ele viu, sabe? Um soldado fica de guarda para os outros dormirem.
Sorri também. Se tivesse um pouquinho mais de força talvez tivesse até dado uma risada.
- Ok, mas mantenha ela no carrinho, assim ela pode dormir inclinada como o médico falou. Leve os rolinhos para mantê-la bem quieta.
Senti um calor no peito e meus olhos se encheram de lágrimas. Como era bom ter uma família ao meu lado. Meus temores passaram. Achei que seria difícil me separar de Lalá naquele momento, mas o cansaço era maior que tudo. Sentia que minha filha estaria bem com a minha família. Entreguei Laura à minha irmã, apaguei a luz e me deitei. Meu último pensamento foi que eu não conseguiria dormir depois daquilo tudo. Acho que levei uns dez segundos para começar a roncar.
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- Podemos sempre saber o nome do nosso Espírito protetor ou anjo guardião?
- Por que razão quereis saber sobre nomes que não existem para vós? Credes então que não haverá entre os Espíritos aqueles que conheceis?
- De que modo invocá-lo se não o conhecemos?
- Dai-lhe o nome que quiserdes, o de um Espírito superior pelo qual tendes simpatia ou veneração. Vosso Espírito protetor virá a ess apelo, porque todos os bons Espíritos são irmãos e se assistem entre si.
"O Livro dos Espíritos" - Alan Kardec
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Senti minha irmã tocando meu obro.
- Sua vez, Marcí. Ela está ótima, dormiu o tempo todo como um anjo. Vá lavar o rosto para ficar bem desperta, ok?
Estava ainda um pouco zonza de sono, mesmo depois da água gelada nos olhos. Liguei a televisão bem baixinho e virei o carrinho de bebê ao contrário para a luz não incomodar Laura. Minha irmã tinha razão, não importava que ela tivesse atravessado um inferno aquela noite, agora estava dormindo como um anjo. Como um anjo... Essas últimas palavras ficaram ecoando na minha cabeça por um tempo. De repente, o nome dele veio à minha mente assim, do nada.
- Gabriel!

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