"Então é isso, não é? Mais uma encarnação. E pelo visto, minha missão desta vez será superar a vidinha medíocre desse casal que me tomou por filha. Um apartamento classe média baixa. A decoração de meu quartinho é... simpática porém um tanto simplória. Lilás? Qual é? Só para fingir que são modernos fugindo do óbvio rosa. Vejamos o pai. Sem dúvida é um batalhador. Um bom homem mas completamente bobo. Olha só a cara dele olhando para mim! O pobre mortal deve pensar que eu sou uma Deusa ou coisa assim. Tudo bem, serei boazinha com ele, afinal já está dominado. Agora, essa mulher... Ela é nervosa, com certeza. Será que ela nunca penteia esses cabelos nem veste outra coisa que não seja essa camisola azul? Entretanto, é útil, produz leite e troca fraldas com destreza! Estarei bem instalada, por enquanto. Mas se essa tal de mamãe pensa que vai mandar em mim, está muito enganada. Eu vou mostrar a ela que eu não sou de brincadeira. "
Eu não era a única a perceber isso. Alessandra vivia dizendo que a Vívian, quando bebê, era uma "mala velha" sempre aberta num sorriso. Depois, dizia com um suspiro: "Já a Laurinha..." De outra feita, estava descendo a rua da casa da minha mãe com Lalá nos braços quando ouvi uma voz saindo do salão de beleza: "Olha lá o bebê que não ri! Eu te falei, é filha da irmã da Alessandra". Porque será que ela não ria como os outros bebês? Tenho certeza de que estava achando um tédio ficar presa em meus braços, sem poder se levantar e ir aonde bem quisesse. Havia momentos em que eu não sabia o que fazer, como entretê-la. Tudo o que eu tentava parecia aborrecê-la ainda mais. Podia fazer quantos bilus bilus quisesse, ela não esboçava o menor sorriso. Era só o que me faltava! Além de ter me casado com um homem que jamais rira de uma única piada minha, que não achava a menor graça em mim, agora vinha aquela menina com um ar blasé, como se na verdade eu é quem fosse a criança bobona fazendo gracinha que ela precisava suportar. Já imaginava minha vida no futuro, eu fazendo meus teatros e contando minhas peraltices do dia enquanto Elberth e Laura suspiravam entediados, dando olhares significativos uma para o outro. Bastaria eu virar as costas e eles começariam a conversar entre si:
- Nossa pai, está difícil aguentar a falação da mamãe hoje, heim?
- Tenha paciência filha. Ela está piorando com a idade, imagina-se ainda mais engraçada, coitadinha... Shhh! Ela vem aí de novo! Faça um esforço e dê só uma risadinha para ela hoje, Laura?
Nessa hora ela provavelmente reviraria os olhos pensando o que havia feito para merecer aquela situação patética. Prevendo isso, eu já tentava diverti-la desde os primeiros meses. Vamos lá, muita gente me acha engraçada, não vai ser alguém que nasceu ontem que iria chegar e me desestruturar assim! Eu tinha uma reputação a zelar. Então, usava todo o meu arsenal: caretas, vozes diferentes, perucas e... nada! Eu já estava ficando sem repertório.
- Como assim, não ri? Ela é só um bebê.
- Digite "bebês rindo" no Youtube para você ver. Aparecem centenas de filminhos caseiros de bebês rindo. É muito diferente dessa menina. Tem criança muito menor que dá gargalhada! Gar-ga-lha-da! Mas ela não parece estar achando a menor graça em ser nossa filha. Alías - abaixei o tom de voz - para ser sincera, às vezes eu acho que ela está me julgando, sabe? Me analisando e concluíndo que não sou grande coisa como mãe, sei lá.
- Querida, você tomou seus remédios hoje?
Quando o assunto era Laura, Elberth jamais me levava a sério. Mas eu estava levando aquilo muito a sério e comecei a ler um livro que ensinava a desenvolver a mente de bebês. Então, se ela estava com tédio, quem sabe eu poderia finalmente fazê-la se divertir? Aprendi algumas coisas úteis como, por exemplo, que o bebê deve ser estimulado através da exposição de coisas interessantes à sua frente. É assim que um bebê aprende, com os sentidos visão, olfato, paladar, audição e tato. Não gaste seu latim, o bebê apenas apreende as coisas que é capaz de sentir em seu próprio rítimo. Pode-se fazer um móbile com coisas caseiras como pedaços de papel alumínio, papel colorido de presente ou mesmo pedaços de algodão, e amarrá-los no berço com um barbante de um lado ao outro das grades. Assim, você pode fazer sempre móbiles diferentes para estimular o bebê sem precisar gastar dinheiro comprando um novo por semana.
Outra lição boa do livro foi sobre a forma de mostrar um brinquedo a bebês com menos de 5 ou 4 meses. Não se deve balançar o brinquedo rapidamente (como todo mundo faz) na frente do coitado. Tudo o que o bebê verá será um borrão na frente dele, enquanto você fica lá, se achando o máximo, balançando rapidamente o boneco na cara da criança. O bebê se interessará muito mais se você mover o brinquedo bem devagarinho ao alcance de seus olhos. Outras formas de se distrair um recém nascido é com cores diferentes em lençóis e almofadas, texturas variadas de objetos e sons. Música, muita música! E nada superior à Mozart, certo? É vivaz, é brincalhão, é alto astral! Então, colocava sempre o CD "Mozart para bebês" da minha irmã Alessandra, com peças do grande compositor tocadas por um pianinho infantil. "Agora quero só ver se essa menina não vai me achar a mãe mais sofisticada do mundo! Ela não pode reclamar! Tem muita criança por aí ouvindo funk! Já pensou? Bonde do Tigrão, tô ficando atoladinha e coisas ainda mais subterrâneas. Mas ela tem a honra de ter uma mãe que assistiu ao filme Amadeus 6 vezes, então, dá-lhe Mozart!"
Mas nem isso suavizava a criaturinha. Laura estava decidida a mostrar sua personalidade forte com poucos meses de existência. Assim, quando eu estava na maior expectativa para ouvir os primeiros rudimentos de sua fala, quando esperava ser brindada com os fofíssimos "gugus dadás", ela começou a rosnar. Primeiro, achei que era impressão minha mas logo ficou claro: quando não estava satisfeita com alguma coisa, lá vinha o rosnado. Como ficávamos sozinhas o dia todo e eu mal podia esperar para meu marido voltar do trabalho e contar a novidade.
- Elberth, advinha só: sua filha rosna. Nada de gungunar, ela está rosnando! O que significa que, em breve, estará mordendo. Pode comprar uma coleira amanhã cedo porque eu não quero ela sendo capturada pela carrocinha.
- Eu joguei pedra na cruz... Meu amor, você está cansada, eu sei, sozinha o dia todo com a Lalá...
- Ah, você não acredita, né? Tanto faz, ela rosna, eu ouvi muito bem. E pensar que nós havíamos ficado tão preocupados com a possibilidade de ter nossa filha trocada na maternidade... Agora, olha só! O bebê foi trocado mesmo só que não foi na maternidade, foi num pet shop!
Minha filha foi brava desde o início. Rosnou e mordeu. Não sorria nunca até uns 6 meses de idade, brava como o diabo. E se era contrariada, sai de baixo! "A quem será que ela puxou, essa oncinha pintada, heim?" meu marido sempre me perguntava, olhando minhas sardas no rosto. A madrinha de Laura, minha irmã Cláudia, se encantava com os rosnados e com a cara de mini gangster da minha bebêzinha.
"Prefiro muito mais ela assim do que esses bebês bobos que riem à toa. Ela tem personalidade! Ela não é um bebê, é uma BEBÊZILLA!"
Sempre que Laura dava seus rosnadinhos atrás das grades do berço, eu ia correndo atender suas ordens, pensando na graciosidade daquele apelido. Ela era bem assim, a mistura certa entre a fofura do bebê e o mau humor do Godzilla.
Nenhum comentário:
Postar um comentário