- Você vai furar as orelhas dela? Coitadinha!
Minha sogra não foi a única a se horrorizar com minha decisão. Na verdade quase todos na família do meu marido acharam minha escolha muito indígena e pouco civilizada. É isso o que um bebê faz, une todos em torno de uma missão: decidir a melhor forma de se criar o novo integrante.
Minha sogra é aquela mãezona que faz tudo pelos filhos. Criou praticamente sozinha seus três meninos, trabalhando muito duro. Acostumou-se a esta dureza a ponto de não conseguir ficar à toa no sofá vendo TV. Ela vinha me visitar nas primeiras semanas mas não era para ficar só curtindo a neta. Mal entrava e já dava uma olhada ao redor para ver o que tinha de sujo ou bagunçado que ela pudesse arrumar. Não precisava procurar muito, minha casa era um campo minado de fraldas, babetes e restos de biscoito por todos os lados. Depois de brincar um pouco com Laura, ela ia direto para a cozinha, arregaçava as mangas e cozinhava ou lavava a louça para, em seguida, enfrentar o tanque cheio de roupinhas minúsculas. Eu achava um sacrilégio lavar as roupas de Laura na máquina junto com as nossas, como se nossa sujeira fosse letal. O esforço para esterelizar qualquer objeto que tivesse contato com ela consumia horas de trabalho. Ferver bicos, colherzinha de remédio, chuquinhas, passar álcool na banheira, colocar fraldas e babetes para quarar ao sol... Nem mesmo se eu tivesse capturado um alienígena não teria tido mais cuidado para que o nosso meio ambiente hostil não o contaminasse com germes assassinos. Acho que Conceição, minha sogra, me considerava meio paranóica. Ela tinha seus próprios métodos e crenças.
- Márcia, dê um chazinho para ela dormir melhor e não ter cólica.
- Olha, Conceição, eu não vou dar chá porque o meu leite tem tudo o que ela precisa.
- Eu dava chá para os meus meninos... E essa icterícia? Tem um jeito de melhorar, mas você não deve acreditar nessas coisas.
- Que isso, Conceição, pode dizer.
- Ela tem que tomar banho com chá de picão.
- Banho de picão?
Ta bom, eu admito: lavei minha bebezinha com o tal chá de picão. Já estava desesperada pois chovia o dia todo e sem o sol a icterícia só piorava. Não sei se foi isso que a curou, não estou receitando para ninguém. Mas dou um conselho: se você se aventurar, coe o chá de picão antes de jogá-lo na banheirinha. Eu enchi Laura de pedaços de folha e terra antes de perceber a burrice que fizera.
Dessa vez, a minha sogra venceu. Mas furei as orelhas de Laura, contra tudo e contra todos. Tenho certeza que fiz a coisa certa já que uma mulher moderna não vive sem brincos. Esta história de que furar a orelha quando ainda se é bebê dói menos do que depois de crescida, sinceramente não tem fundamentos científicos. Tenho certeza de que, se pudesse, Laura teria dito que doeu pra caramba porque ela gritou muito! E eu me senti um monstro, uma mãe desalmada que paga uma enfermeira para torturar a própria filha.
Aliás, a gente ouve um monte de teorias sobre o que os bebês pensam e sentem. Como é que os médicos podem saber? Algum bebê de 2 meses já fez contato telepático com eles para comprovar essas teorias? Laura soluçava sem parar e a única coisa que os médicos diziam é:
- Não se preocupe. O soluço do bebê não é incômodo para ele. Se fosse, ele chorava. Deixe-o soluçar que uma hora vai parar.
O conselho da minha sogra para estes casos era o famoso pedaço de papel colado com cuspe na testa do neném. Fiquei fã dessa técnica. Nunca parou o soluço dela mas eu me sentia extremamente aliviada. “Minha filha, eu fiz a minha parte! Cuspi no papel e colei na sua testa. O resto é com você.” Mais tarde tentei a tática do susto, mas quando meu marido me flagrou gritando “BUUUU!” com toda força na cara do bebê quase pediu o divórcio, então parei com isto.
Eu não queria ninguém da família decidindo como eu deveria criar minha filha. Afinal, eu era a mãe. Eu sabia melhor que qualquer um o que fazer. Mas toda vez que acontecia algo diferente, a primeira coisa que eu fazia era perguntar para aos outros o que eu deveria fazer. O bebê estava quente, ou então estava frio demais. Não mamou, ou mamou demais. Não dormiu, vomitou, apareceram manchinhas no corpo, o cocô ficou esverdeado ou o vomito ficou esverdeado, o branco do olho esquerdo estava mais branco... Argh! Os bebês não seguem padrões, não veem com manual, não obedecem às regras sociais. Como é que eu poderia saber o que fazer?
Às vezes tinha a impressão que Laura era um terrorista iraquiano segurando uma bomba. Eu sabia que ela tinha uma exigência a fazer, mas como eu não falo iraquiano, tinha 10 segundos para descobrir seu desejo ou ela explodiria a bomba. Olhava seu rostinho tão expressivo, seus olhos tão brilhantes e então ela abria um pouquinho a boca. É agora, ela vai falar, tenho certeza! Está fazendo uma cara inteligente, ela tem alguma coisa para me contar. Nesse momento ela dava um arroto.
Sou uma pessoa de palavras. É o que faço melhor, falar. Bom, não sei se faço isso bem mas pelo menos eu gosto de falar, eu falo desbragadamente. Quando voltei da licença maternidade perguntei aos meus colegas como foram os seis meses sem minha presença. “Aqui ficou uma paz...” respondeu um deles.
Dá para entender que essa coisa de ficar tentando adivinhar o que Laura sentia, o que queria, onde estava coçando ou doendo me deixava extremamente ansiosa. Faltava algo em mim, um instinto animal talvez, aquilo que guia a mamãe cadela, a mamãe égua e a mamãe pombinha – uma certeza do que é preciso fazer para seu filhote sobreviver e crescer fortinho. De onde veio tanta insegurança? Não foi uma coisa que aconteceu de uma hora para a outra. Eu sempre me senti deslocada, como se estivesse com a roupa do avesso numa reunião de negócios. Não confiava em mim mesma. Isso não mudou com a maternidade e acho que as pessoas percebiam que eu estava sempre precisando de orientação. E depois que elas me davam os conselhos, eu queria fazer diferente para não me sentir uma mãe tão incapaz. Pensava em todas as coisas que eu via na minha mãe, na minha sogra ou nas minhas irmãs que eu criticava e decidia que jamais, jamais faria igual.
Existe uma frase famosa que diz: “Ser mãe é padecer no paraíso”. Mas eu inventei minha própria frase:
“Ser mãe é repetir cada uma das atitudes que você criticou nas outras mães e jurou nunca fazer.”
Você jurou não dar bico? É provável que seu bebê use a chupeta até os 8 anos. Você riu de uma mãe tendo que segurar uma criança que grita e se debate no corredor do supermercado? Não se espante quando se descobrir rolando com seu pimpolho no chão do Carrefour. E pode ter certeza que, enquanto você passa essa vergonha, há pelo menos meia dúzia de jovens mulheres à sua volta, olhando-a com desprezo e jurando jamais ser tão ridícula quanto você está sendo. Muita calma nessa hora. Fique fria e aguarde o momento da sua vingança. Elas se tornarão mães também um dia e receberão de Deus sua lição de humildade bem ali, perto da seção de congelados, onde o chão é mais frio. Já rolei por lá também. Não recomendo.
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