Não me lembro da primeira vez na vida em que fiquei estressada. Acho que eu deveria ter uns 4 ou 5 anos. Afinal, do jeito como sou boa em ficar estressada hoje em dia, eu devo ter treinado para isto a vida inteira. Eu era apenas uma adolescente quando percebi que minha rotina escolar estava acabando comigo. Hoje sinto vontade de rir quando pensou em quantos neurônios matei fritando meus miolos de preocupação com a prova de física. Posso dizer com total segurança que, mais de duas décadas depois, em nenhum único momento da minha existência, jamais precisei de uma fórmula de física. Mas, por causa da minha mania de ser perfeita em tudo, morria de estress com a proximidade dos exames. Então, resolvi fazer yoga. Aprender a relaxar, go with the flow. É isso aí, paz e amor! A professora nos fez deitar em colchonetes no chão, fechar nossos olhos e, enquanto ouvíamos uma música suave, ela começou a falar numa voz monocórdica, bem lentamente:
- Inspire... Expire... Sinta todo o seu corpo relaxado, flutuando no espaço. Primeiro, relaxe os dedos dos pés. Isto, bem devagar, suavemente... Seus dedos dos pés estão completamente relaxados. Sinta esta paz subindo... Agora, além dos dedos, todo o pé está relaxado!
Enquanto ela falava tudo isto com uma calma irritante, minha mente começava a se contorcer.
“Vamos lá, vamos relaxar! Dedões dos pés, eu os ordeno: relaxem agora! Já! Por que vocês não estão me obedecendo? Puta que pariu, essa professora ainda está no pé! Quanto tempo será que ela vai levar para chegar no pescoço? Calma, Márcia! Relaxe! Agora! Vamos logo, dona, manda todos os pedaços do corpo relaxarem de uma só vez. Eu não tenho paciência para isto. Por que não me matriculei na aeróbica? Depois de 40 minutos pulando, aposto que os dedos dos pés já estariam mais que relaxados.”
A aula de yoga foi uma das coisas mais estressantes que experimentei porque eu não consigo relaxar assim, de uma hora para a outra. Eu não vim com um botão de LIGA e DESLIGA de fábrica. Mas é exatamente isto o que todo mundo espera que você seja capaz de fazer depois de ter um bebê.
A coisa funciona assim: o bebê acorda 3h da manhã e você aciona o botão LIGA e começa a funcionar tão bem quanto uma batedeira Walita novinha. Troca as fraldas, amamenta, acalenta, tudo o que for preciso. No dia seguinte, o bebê resolve tirar uma soneca às 10:45h da manhã. O que você faz? Aperta o botão de DESLIGA e vai dormir também, recarregando suas baterias para quando precisar ser ligada de novo. Não importa se às 10:45h da manhã você estiver planejando um banho ou já sentindo nascer o apetite para o almoço. Não importa que se esteja em plena luz do dia e o rádio da vizinha esteja ligado num funk na maior altura. Não poderá ter o menor problema o barulho dos tratores que estão fazendo a terraplanagem para um novo edifício na rua ao lado e nem o fato da janela do seu quarto ficar de frente para a rua onde sobe o ônibus esgoelando seu motor velho. Basta clicar no botão DESLIGA. Assim, quando o bebê começar a chorar de novo, você vai estar fresca, renovada, pronta para bater um bolo em três velocidades diferentes.
Minhas horas se dividiam entre os momentos de felicidade de estar com Laura e os momentos de medo de não aproveitar as chances de dormir. Todo mundo sabia que eu teria problemas neste setor; dormir bem e muitas horas sempre foi uma coisa fundamental para mim. Mas, sinceramente, eu achei que isto iria mudar. Que me tornar mãe me tornaria também uma pessoa diferente, melhor, boa. Não é bem assim que a coisa acontece. Na primeira página de um livro sobre a maternidade que minha irmã Alessandra me emprestou, o autor fala exatamente isto: pai e mãe não são seres que só passaram a existir no dia em que o bebê nasceu. Eles já existiam antes e continuam sendo os mesmos seres humanos que eram antes da gravidez. Levam suas personalidades, qualidades, defeitos e vícios; levam tudo isto para suas novas vidas de pais e mães. Então, eu ainda continuava sentindo que dormir era uma das coisas mais importantes para ser feliz. Só que, depois de ter um filho, não importa a idade em que ele esteja, o fato é que você nunca mais vai dormir. Você tem que aceitar isto bem no começo. Mas eu não aceitei.
Minha vida passou a ser cronometrada pelas horas em que eu conseguiria apertar o botão DESLIGA.
18h
- Elberth, ela dormiu!
- Que bom...
-Que bom para você. Eu não consigo dormir agora. O que eu faço? Estou tão cansada...
- Ué, você falou que não consegue dormir agora mas está cansada? Deita que você dorme.
18:35h
- Elberth, não consegui dormir. É muito cedo. Será que ela vai acordar que horas? Acho que vou tomar uma chuveirada. E se ela acordar no meio do meu banho? Não, melhor esperar, ela já vai acordar.
19:50h
- Elberth, ela não acordou até agora! Mas a última mamada tinha que ser às 20h. E eu não tomei meu banho, droga.
21:10h
- Acho que eu vou dormir agora, a Laura não acordou, não deve estar com fome e eu tô morta de cansaço.
21:47h
- Buáááá!
- Ai, Jesus! Que susto! O que é isto? Ah, é a Laura! Nossa, estava dormindo tão pesado... Já vou filhinha.
0:40h
- Pronto! Fralda trocada duas vezes, barriguinha cheia, arroto... OK, vamos dormir. Nossa, tô com uma fome! Amamentar é o bicho cara. Vou comer uns biscoitinhos vendo TV.
1:05h
- Tô ferrada! Me distraí com o filme! Droga, vou correr para a cama e dormir que logo logo a Laura acorda de novo.
1:57h
- Não aguento mais rolar na cama. Gente, eu tenho que dormir logo, tenho que relaxar se não, como terei forçar para cuidar da Laura?
2:40h
- Buáááá!
- Não! Não pode ser! Mas eu acabei de dormir! Meu corpo está todo tremendo, não vou ter forças para levantar! O meu Deus, o que é que eu vou fazer?
4:05h
- (choro).
- Mamãe, você está chorando?
- A mamãe está cansada, filhinha.
- Mamãe, está com raiva de mim?
Olhei para ela, aquele rostinho de anjo com apenas 2 meses de vida sugando meu seio, os olhinhos vivos grudados nos meus.
- Não, meu amor. Você não fez nada errado. Eu estou com raiva de mim mesma.
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