A nova geração das mães não é tão nova assim.

A nova geração das mães não é tão nova assim. Se você colocou a universidade, a carreira, o regime e até o marido na frente da maternidade e depois teve que correr atrás do prejuízo, bem-vinda ao blog das novas mães maduras.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Pânico

Veja neste domingo no Fantástico, um fenômeno assustador conhecido como síndrome da morte súbita infantil, uma das principais causas de óbito de crianças com menos de um ano.

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Quando estava grávida comprei o jogo completo de roupa de cama, ou melhor, roupa de berço da Laura. Um bom jogo deve ter lençol, edredon, fronha de travesseiro, fronha de protetores de grades, cortinado e rolinhos. Tudo enfeitado, bordado, com laços e frescurinhas do gênero. Minha peça preferida eram os tais rolinhos, achei-os fofos, muito decorativos. Alessandra não conteve o riso ao perceber que eu não sabia para que serviam

- Não é só para enfeitar não, sua burra. Os rolinhos são para segurar o bebê no berço evitando que ele vire de bruços, o que é superperigoso! Um bebê pode morrer sufocado se ficar de bruços ou de barriga para cima! Se ele vomitar, engasga com o próprio vômito e morre. Por isso, deve ficar de lado, amparado pelos rolinhos, entendeu? Assim, o líquido escorre pela boca de lado e não há risco de sufocamento. Acho que era isso que minha pediatra dizia...

- É mesmo! Eu me lembro que Vívian ficava presa nessas coisinhas. Como é perigoso ser bebê. Ao se engasgar você não consegue se sentar sozinho nem chamar alguém para bater nas suas costas. É um bichinho muito frágil, o ser humano. Melhor nascer cavalo. Sabia que um potro se levanta assim que nasce? Sai andando e vai mamar na hora! Muito mais prático.

- Pena que você vai ter um bebê. Se estivesse grávida de um potro, ao invés de berço você montava um estábulo no seu apartamento. Prático, né?

Se a saúde da Laura já me preocupava quando ela estava toda protegida dentro da minha barriga, imagine só a neurose que se instalou no meu cérebro depois que ela nasceu. Todas as fragilidade do bebê humano me enchiam de preocupação. Por isso, manter Laura sempre virada de lado no berço depois das mamadas e dos tais 10 minutos para arrotar se tornou uma obcessão para mim e meu marido. Vivíamos temendo que, de uma hora para a outra, o bebê nos fosse tomado como um presente que nunca havíamos realmente merecido, que fora entregue em nossa porta por engano. Para mim, Laura era minha única chance de ser mãe, jamais haveria outra. Aos 40 anos eu não me animaria a passar por uma nova gravidez e ter outro filho. Adorei cada segundo da gestação, amei cada pequena experiência da maternidade, mesmo a mais enlouquedora. Mas eu estava plena, satisfeita. Não desejava viver tudo aquilo uma segunda vez.

O problema é a "síndrome do pânico do filho único". É ela que nos faz pensar: e se algo acontecer à minha menina? Ficaríamos um casal sem filhos! O ser humano é assim, sempre querendo garantias. As pessoas pensam que ter mais de uma criança é uma espécie de apólice de seguro. Se um dos investimentos (leia-se filho) fracassar (leia-se morrer), você tem a segurança de contar com um ou mais investimentos ainda vivos para perpetuarem sua felicidade. É por isso que, até hoje, muitas pessoas me perguntam quando terei o segundo filho e se espantam terrivelmente quando digo que o aumento da prole não está nos meus planos. Elas me perguntavam horrorizadas: "E se acontecer alguma coisa com a sua filha? Deus te livre, claro, mas aí você não vai mais ter filho nenhum. É muito arrisado ter filho único !" Minha amiga Vânia sofria a mesma pressão de amigos e familiares para ter mais bebês e não ficar só no filho único. Ficou tão preocupada que foi se aconselhar com a psicóloga e ouviu a melhor resposta do mundo: "Todo filho é único."

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- Seguindo com nossa entrevista, por que a SMSI é conhecida também como morte no berço, doutor?

- Então, é que o óbito acontece quando a criança estar dormindo. Por isso, colocar o bebê para dormir de costas se mostrou a posição mais eficiente para a redução da incidência da Síndrome. Aliás, é importantíssimo que as mães que estão nos assintindo agora, prestem muita atenção: nunca deixe o bebê dormir de lado, sempre de bruços ou de costas, em um colchão firme. Use apenas lençol e cobertores leve. Nunca use confortos, rolos ou travesseiros" disse o pediatra entrevistado.

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Como minha ginecologista me orientara durante a gravidez, eu evitava os notíciários para não ficar deprimida, mas às vezes me esquecia do conselho. Numa tarde de sábado, uma notícia me chamou a atenção durante o jornal da tarde: uma mulher encontrara seu bebê sem respirar e, o que salvou sua vida foi um telefonema para o corpo de bombeiros. A criança já estava até roxa, mas com a orientação de um bombeiro, ela conseguiu salvá-la. Fiquei tão emocionada que comecei a chorar na hora e não prestei atenção em mais nada. Percebi que eles reproduziam por escrito a gravação do telefonema, onde o bombeiro dava todas as instruções do salvamento, mas eu só conseguia soluçar de alívio enquanto as minhas lágrimas desciam ao ver no final da matéria, o bombeiro, todo feliz, segurando o bebê salvo por ele nos braços. Se ao menos eu tivesse prestado atenção no que a repórter havia falado durante a reportagem talvez tivesse tido a surpresa em descobrir que tudo o que eu e minhas irmãs acreditávamos como sendo a posição correta para o sono do bebê era na verdade um grande e fatal equívoco! Alessandra não estava enganada, havia realmente sido orientada a colocar o bebê de lado. Assim é a ciência, cada dia avançando mais e descobrindo novas verdades que salvam vidas. No caso, uma verdade que eu quase descobri tarde demais.
Às vezes, eu passava alguns dias na casa de minha mãe. Era uma chance de aproveitar um pouco a ajuda da minha mãezinha e minhas irmãs Cláudia e Alessandra. Dava uma sensação mais tranquila estar numa casa com mais gente. Havia Vívian sempre com alguma amiguinha, o namorado da Cláudia, papai aparecia por algumas horas e Simone também passava por lá domingo à tarde. Considerando que cada um carregasse Laura por 15 minutos que fosse, eu ganhava um descanso de mais de uma hora. Um luxo! Outro bônus era as tias considerarem uma diversão dar o banho, o que diminuía consideravelmente meu trabalho. Além disso, Laurinha também parecia se distrair com o cenário diferente, não apenas da própria casa da avó, mas pelo fato do bairro de minha mãe ser situado na civilização e não no faroeste selvagem onde fica meu apartamento. Eu podia passear com o bebê pelas redondezas e desfrutar da sofisticação de ter uma padaria na esquina e uma praça há apenas 3 quarteirões! Os dias eram sempre animados, mas as noites eram mais solitárias. Ao contrário da minha casa, onde ficava à sós com Laura durante todo o dia mas à noite contava com o apoio de Elberth; na casa de mamãe, quando escurecia minhas irmãs saíam para seus programas com namorados ou amigas. Mamãe é noveleira profissional e tem o dever cívico de não perder nem um capítulo de todas as novelas. Papai voltava para casa dele e era o momento em que eu voltava a me virar sozinha de novo.
Mas naquele sábado, minhas irmãs não saíram de casa, só que cada um ficou no seu canto, vendo sua televisão. Eu estava com o corpo todo moído da nova rotina pauleira de cuidar do bebê. Laura dormia surpreendentemente tarde, e eu já estava um bagaço quando ela finalmente caía no sono. Dei a última vez o peito antes de fazê-la dormir e entrei para o quarto, fechando a porta. Estava realmente exausta aquele dia e como não estava em minha casa, não havia o relógio do forno microondas para eu calcular corretamente os famosos 10 minutos para o arroto. Não estou dizendo que foi por isso que tudo aconteceu. Talvez eu tivesse me confundido e imaginei que já haviam passado 10 minutos mas na verdade mantive Laura erguida por menos tempo que o necessário. Talvez ainda, eu apenas estivesse cansada demais para esperar os 10 minutos e tenha simplesmente deixado o cuidado de lado. Nesse caso, a culpa então seria minha. Acho que não vou saber o porquê, só sei que eu a amamentei em meu peito, a segurei erguida por um tempo e depois a deitei no berço de lado, bem presa entre os rolinhos para não conseguir virar de costas. O comun é colocar dois rolinhos, mas para mantê-la realmente imóveis, comprei um par extra e a prendia totalmente com quatro rolinhos. Ela não tinha a menor chance de se virar. O que eu não sabia era que, prendendo-a assim, eu estava na verdade, cuidando para que ela não tivesse a menor chance de sobreviver. A única coisa que poderia salvá-la, seria se virar de costas, mas presa entre os rolinhos seria preciso um milagre para um bebê de dois meses se virar.
Eram quase 22 horas. Alessandra e Vívian estavam na casa dos fundos. Minha mãe assistia sua novela no andar de baixo e Cláudia e o namorado estavam fechados no quarto vendo um filme. Tudo muito quieto, era a minha chance de tomar um banho bem demorado, que lavasse meu suor e meu cançaso juntos. Como eu estava precisando daquilo! Então decidi fazer tudo em câmera lenta, deslizar lânguidamente o sabonete pelo corpo, enxaguar, ensaboar-me novamente, só para garantir que ia ficar bem cheirosa e relaxada. Deixei a água quente cair no pescoço. Estava tão gostoso ali, aquele momento só meu, onde eu não cuidava de mais ninguém a não ser de mim mesma. Foi tanto prazer que decidi que merecia o serviço completo! Não me lambuzava de creme desde que Laura nascera. Meus banhos eram sempre rápidos, com o ouvido em pé para ouvir o chamado da minha menina. Apurei os ouvidos e entreabri a porta do banheiro. Só o ruído das televisões ligadas ao fundo. Ótimo, tranquilidade para me bezuntar de creme bem devagarinho... Quando comecei a vestir minha calcinha, senti um calor no ouvido esquerdo e ele cochichou baixinho:
- Laura!
Virei-me bruscamente. Não havia ninguém no banheiro. Senti aquela onda gelada de susto pelo corpo. Dei um leve sorriso idiota pela reação ridícula e terminei de me vestir meio às pressas, querendo sair logo do banheiro assombrado. Eu terminava de colocar a blusa quando ele sussurrou mais forte:
- Laura!
Dessa vez eu não estava enganada. Tinha ouvido com clareza. Fiquei paralizada, respirando forte, com medo de me virar. Mesmo sem quere ouvir mais nada, fiquei em total silêncio, bem quieta, e apurei o ouvido, buscando mais algum som que confirmasse que eu não estava louca. Foi aí que ouvi outra coisa. Um gemido, mas não foi sussurado no meu ouvido. Era um som abafado, como que vindo de outro cômodo. "Meu Deus, Laura!" Agora era eu! Até hoje não sei se eu disse isso em voz alta ou apenas na minha cabeça, só sei que me virei, abri a porta do banheiro e corri para o quarto, ascendendo a luz apressadamente. Da porta só dava para ver o berço encoberto pelo protetor, não era possível ver Laura, mas eu gritei assim mesmo:
- Laura!
Não tinha medo de acordá-la por que eu já sabia que havia alguma coisa errada. Eu fora avisada. Aqueles poucos passos entre a porta e o berço demoraram uma eternidade. "Eu sei o que eu vou ver. Eu sei o que eu vou ver." E vi.
Ela estava deitada de costas, os rolinhos afastados. Havia vômido em todo o seu rosto e a pele estava arroxeada. Ela estava com os olhos arregalados mas sem movimento, fixados no teto e não se mexia. Quando gritei de novo já sabia que ela não estava respirando.

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