Dia 23 de setembro de 2008 eu me tornei mãe. Não, este não foi o dia em que minha filha nasceu, ela veio ao mundo 11 dias antes. Mas apenas no dia 23 de setembro eu realmente virei mãe.
A gente imagina que a maior emoção da maternidade será o momento em que você sentir o bebê sair de dentro do seu corpo ou quando ouvir a voz do seu filho pela primeira vez na sala de parto. Pensa que nada vai traduzir tão plenamente este sentimento quanto a primeira vez em que a criança sugar o seu leite. Realmente, estas emoções são arrebatadoras. Eu só havia experimentado algo semelhante no parque do Beto Carrero, no brinquedo onde você fica preso numa cadeirinha que sobe numa altura semelhante a um prédio e, de repente, despenca no ar. Você sente seus braços e pernas voando e o cérebro escorrendo pelos ouvidos. Se quiser ter uma idéia da emoção de se ter um filho, jogue-se de um prédio de 12 andares. É uma sensação bem parecida.
Mas, de todas as emoções, a que realmente me colocou frente a frente com a responsabilidade do meu novo papel, foi o que senti ao assistir minha filha sofrer. Parece uma coisa óbvia: a menos que a pessoa seja a reencarnação de Hitler, ninguém gostaria mesmo de ver outro ser humano sofrer. Mas ver a seu filhotinho gritar de dor, é simplesmente de enlouquecer!
Durante minhas pesquisas pelas centenas de revistas Pais & Filhos que li na gravidez, eu me inteirei sobre a temível cólica. Não eram apenas artigos de médicos, mas dezenas de cartas de mães desesperadas buscando uma solução. Posso dizer que, depois do parto normal, a tal cólica me assombrava tanto quanto um daqueles monstros de filme de terror. A história é sempre assim: à luz do dia, os personagens jovens e belos estão jogando bola e nadando na piscina. Mas à noite, justo na hora em que o casalzinho do filme resolve tirar um sarro, a mocinha já com os peitos de fora toda sensual, quem aparece? Jason: o psicopata morto-vivo do filme “Sexta-Feira 13”! O rosto coberto pela máscara, ele vai friamente fazendo picadinho dos namorados com seu machado, espirrando sangue por toda a tela. A cólica faz igualzinho.
Eu presenciei as dores de minha sobrinha Vivian. Uma vez, Alessandra a deixou comigo, mamãe e Elberth e foi dar uma espairecida com o marido. Enquanto o sol brilhava lá fora, estava tudo bem. Vivian brincava e fazia gracinhas. Mas foi só escurecer e, pimba! Lá veio Jason, a Cólica Maligna, espalhando terror e gritos pela casa. A bebezinha parecia possuída pelo demônio, retorcendo e chorando aos berros. Nós três nos revezávamos tentando acalmá-la, mas nada fazia efeito. Em dado momento percebi que Elberth desaparecera. Encontrei-o sentado na calçada, a cabeça entre as mãos.
- Márcia, está decidido. Eu concordo com você, também não quero mais ter filhos. Não! É terrível demais!
Se eu já tinha ficado apavorada ao presenciar o tormento da minha sobrinha, imagine o que senti com minha própria filha! Quando Jason veio atrás da minha menininha com seu machado, eu descobri o verdadeiro significado da palavra terror.
Eu adorava sonhar que minha filha seria perfeita e que nada de errado aconteceria conosco. Assim, fantasiei também que ela seria uma das pouquíssimas crianças sorteadas para não sofrer de cólica. Sim, existem estes bebês. Não, minha filha não foi um deles. Na primeira crise de cólica dela, eu ainda tentei me enganar. Pensei que fosse outra coisa. Podia ser que ela fosse médium e estivesse vendo espíritos inferiores e por isto berrava tanto. Eu preferia qualquer coisa àquilo. Liguei para o pediatra e narrei os sintomas. O médico não teve dúvidas:
- É cólica mesmo, já estava na hora. Fique tranquila que isso é uma coisa natural, acredita-se que é causado pelo desenvolvimento do intestino. Ele começa a crescer e o movimento provoca essas dores. Sim, os outros órgão também crescem mas só o intestino dói. Você não acredita? Bom, ou é isso ou acho que pode ser algum chá que você deu... Ah, ela não toma chá? Bom, podem ser os gases também. (Nota da autora: percebeu que nem os próprios médicos têm idéia do que causa a cólica?) Olha, Márcia, você tem que dar umas gotinhas de Luftal para ela. Coloque uma bolsa de água quente na barriguinha dela, mas não muito quente, viu? Enrole-a numa fralda, a menina não, enrole a bolsa. Faça massagens bem suaves. Tente colocar ela de bruços apoiada no seu próprio antebraço e passeie com ela pelo quarto. Sua sogra mandou dar chá de macela? Então, dá o tal chá de macela, querida! Eu sou totalmente a favor dessas receitinhas da vovó, se não fizer bem, mal não faz. Onde você vai arranjar macela? Sei, lá! Olha, simplesmente, acalente a menina, caminhe pelo quarto, embalando-a suavemente, cantarole baixinho, não deixe o desespero dela tomar conta de você. Se a mamãe fica nervosa, a cólica do bebê piora. (Ótimo! Agora ia ser minha culpa se piorasse!) Se não melhorar, amanhã você me liga. (Amanhã? Mas o que eu faço durante as próximas 12 horas?) Todo bebê tem cólica, viu? É assim mesmo.
E foi. Eu estava sozinha em casa e Laura gritava se retorcendo em meus braços. Fiz tudo o que o médico me indicou e mais uma coisa que ele não indicou: rezei. Rezei com todo o fervor segurando o terço que pertencera à minha tia Aparecida. Tica Cida sempre fora muito religiosa e eu tinha esperanças de que, com ajuda do bom nome que ela devia ter no céu, minhas preces fossem colocadas na pilha de preces urgentes e recebessem um tratamento especial ou coisa assim. Mas tenho certeza de que o pessoal lá em cima estava vendo que eu não sabia rezar o terço de verdade, quer dizer, só sei o básico - a conta maior é um Pai Nosso e depois veem onze contas menores que são as Ave Marias. Porque tantas Ave Marias para só um Pai Nosso? Lógico, o negócio era apelar para Maria já que era ela quem trabalhava mais.
- Maria, mãe de Jesus. E aí, tudo bem? Eu sei que demorei a falar com a senhora de novo, que tinha prometido rezar mais e tal. Me desculpe, tá? Eu ando ocupada, como a senhora pode ver. Bom, vou direto ao assunto. É, adivinhou, eu vim pedir uma coisa, mas não é para mim, é para a minha filha. E não vou pedir de graça, não, depois eu pago em Ave Marias, Salve Rainhas... Desculpe, Salve Rainha eu não prometo porque não sei de cor, é muito grande. Por favor, Mamãe do Céu, ajude minha filha. Isso não é justo,veja o estado dela. Por favor, passe a dor dela para mim, que sou grande e gorda, eu dou conta disso. Mas ela não, Nossa Senhora. Ela só tem 48 centímetros! Por favor, por favor, por favor...
Nunca soube quem chorou mais esta noite, eu ou Laura. Mas não precisava me preocupar em contar as lágrimas do primeiro dia de cólica porque inúmeras outras seriam derramadas pelo mesmo motivo durante dias ininterruptos. Parecia uma das pragas do Egito enviadas como um teste de Deus. Quando o relógio batia 17 horas, eu começava a suar e a rezar. Nesta hora, o bebê ainda dormia no berço e o monstro da cólica ainda não havia acordado mas eu sabia que ele iria voltar. De joelhos sozinha na sala eu rezava e pedia à Maria que não permitisse que aquilo continuasse, que ela não merecia sentir tanta dor e que eu estava sozinha, não havia ninguém para me ajudar a enfrentar aquilo. Mas, exatamente como em todo filme “Sexta-Feria13”, Jason nunca morre e a cólica sempre aparecia ao anoitecer. Seu corpinho de apenas 3 quilos e 100 gramas suportava uma dor que derrubaria um homem adulto. Apesar de retorcer as entranhas do recém nascido durante horas, a cólica é considerada (pasmem!) normal. Todo bebê tem e ninguém faz nada! De que adianta o foguete capaz de ir à lua? Para que serve a tecnologia da clonagem? Que valor tem o mais moderno computador com tecnologia de ponta? Eu trocaria tudo isto por um xarope, um comprimido, uma erva, qualquer coisa que parasse a dor das cólicas dos bebês.
Comecei a acordar com medo. Já abria os olhos pela manhã pensando que passaria mais um entardecer sozinha com Laura chorando e eu sem poder fazer nada. Olhava para aquela fofurinha e não sabia como iria conseguir atravessar aquilo. Percebi que não tinha planejado bem essa coisa de ser mãe. Na minha infância, quando aparecia uma barata, eu e minhas irmãs imediatamente gritávamos: “Mãããe! Mata essa barata aqui, manhê!”. Pronto, só o que eu tinha que fazer era gritar. Mas e agora? Quando Laura encontrasse a barata, quem iria matá-la? Eu? Ora, bolas, eu queria a minha mãe!
No quarto dia, quando já começava a andar nervosa pelo apartamento, sabendo que a cólica começaria em minutos, ouvi a campainha tocando. Quando olhei pela janela e vi minha mãe sorrindo no portão, meus olhos encheram-se de lágrimas! Ela tinha vindo junto com Vívian de ônibus e isto era um verdadeiro sacrifício. Nossas casas ficam em pontos opostos da cidade e a linha de ônibus do meu bairro oferece um atendimento sub-humano, isto é, se o ônibus passar. Mas ela enfrentou tudo isto para estar comigo, porque eu havia contado tudo a ela pelo telefone. Quando Laura começou a chorar, mamãe se revezou comigo no inútil trabalho de balançar e colocar a bolsa de água quente. Estar ali junto com ela, no quarto com a luz suave do abajur, ouvir minha mãe falando calmamente com minha filha, aquilo tornou tudo muito melhor. Vívian, meio apreensiva, olhava toda aquela cena da porta, sem coragem de entrar no quarto, e me lembrei que há mais de dez anos, tinha sido ela em meus braços chorando e sofrendo. E ela sobrevivera! Tudo aquilo tinha passado e na verdade, Vívian sequer se lembrava daquela dor. Para ela, aquele pesadelo jamais havia acontecido, só aconteceu para nós, os adultos.
Por isto, foi na cólica que eu me tornei mais mãe. Naqueles momentos horríveis, em que Laura gritava e se retorcia, a boquinha procurando meu seio em busca de um conforto que meu leite não trazia, foi assim, com meu coração sangrando que eu finalmente entendi. Então, é isso que é ser mãe! Não era a alegria de acalentar um bebê fofinho. Qualquer pessoa pode sentir isto segurando qualquer bebê. Mas era aquela dor, aquela vontade de poder falar direto com Deus e exigir uma explicação. Aquela dor só pode ser sentida por um coração de mãe.
No dia seguinte, depois da visita mágica da minha mãe, achei que a cólica não viria mais, Mas ela veio e no outro dia também. Ao sétimo dia, conversei com Maria mais uma vez. Mas não pedi nada, só agradeci por ter uma filha tão saudável, sem nenhuma doença grave. Como mulher, a Mãe de Jesus entenderia mais estas coisas.
- Nossa Senhora, depois de presenciar a cólica da Laura, eu virei uma mãe de verdade, não é?
- Você é quem pensa, Márcia...
- Como assim?
- Minha filha, a cada dia que passa, Laura fará você experimentar uma emoção ainda mais intensa, mais desafiadora... E depois de cada experiência você vai achar que, finalmente, aquela situação é que transformou você em uma mãe de verdade.
- E quando eu finalmente serei uma boa mãe, minha Nossa Senhora?
- ...
- Ah! Vocês divindades são todos misteriosos!
- Calma minha filha! A provação já está acabando. Sua filha terá cólicas por apenas 7 dias então, amanhã elas já terão terminado.
- Jura? Graças a Deus! Desculpe, quero dizer gaças à Senhora. Eu já não aguentava mais. Não entendo por que ela tinha que passar por esta provação.
- Filha, a provação foi para você!
- O quê?!
- Foi para que você aprendesse uma coisa que toda mãe precisa saber: nem todo sofrimento pelo qual o seu filho passará na vida você poderá evitar. Alguns sofrimentos precisam ser vividos e às vezes, tudo o que a mãe pode fazer é ficar ao lado do filho, apoiá-lo e dar a ele todo o seu amor. Mesmo que doa muito, às vezes é tudo o que uma mãe pode fazer.
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