A nova geração das mães não é tão nova assim.

A nova geração das mães não é tão nova assim. Se você colocou a universidade, a carreira, o regime e até o marido na frente da maternidade e depois teve que correr atrás do prejuízo, bem-vinda ao blog das novas mães maduras.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Amamentando

Se você me visse dia 13 de setembro de 2008 as 9 horas na enfermaria do Odilon Behrens, de banho tomado, chapinha no cabelo e maquiagem, imaginaria que eu estava pronta para ir ao shopping e não que eu passara a tarde anterior na sala de parto. Bom, isso se as pessoas costumassem ir ao shopping de pijaminha rosa com florezinhas, claro.

Quando acordei às 6 da manhã e me disseram que os bebês só eram entregues às 10 horas, pensei em me esquivar pelos corredores, roubar um uniforme de enfermeira e invadir o berçário. Não suportaria esperar tanto tempo para rever Laura! Quem será o psicopata que inventa estas regras nos hospitais? Acabei optando pelo plano B: tomar um bom banho e me aprontar o melhor possível para ela. Queria que meu bebê me achasse a mamãe mais linda do mundo. Ou pelo menos diminuir a péssima impressão que devo ter deixado do dia anterior, descabelada e sem batom. Imaginei a noite dela no berçário, cercada de bebês desconhecidos, todos se vangloriando de como suas mamãezinhas eram lindas e jovens. E Laura tentando se explicar:

“Bom, é que mamãe está com 40 anos até é bem conservada para alguém que já pesou 110 quilos, tomou inibidores de apetite e fumou uns dois mil cigarros...!”

Já passava das 10 horas quando a enfermeira apareceu empurrando um carrinho cheio de cestas de plástico transparente onde estavam os bebês. Um de olhinhos arregalados dizendo, “quarto errado, esta não é a mamãe”. Outro com um olhar de desprezo: “nunca vi mais gorda. Além disso, minha mãe está num quarto particular”. Em outra cesta, uma menina chorava a plenos pulmões enquanto sua coleguinha ao lado dormia placidamente, um exemplo de bebê zen. Eram uns seis bebês mas não tive nenhuma dificuldade em reconhecer a minha. Eu a reconheceria mesmo num caminhão cegonha carregado com 257 bebês.

“Enfermeira, a minha filha é aquela alí, ó. Pode me dar.”

Ela ignorou-me completamente e foi conferir as anotações na prancheta. Depois, contrariada, entregou-me a cestinha que eu havia indicado e colocou-a em um suporte móvel, montando um tipo de berço.

“Como foi a noite dela, enfermeira?”

“Eu só entrego os bebês” respondeu empurrando o carrinho de pimpolhos para o corredor.

Olhei para Laura. Estávamos sozinhas pela primeira vez. Na noite em que cheguei, havia uma outra mãe que recebera alta bem cedo e agora teria o quarto só para mim por um tempo. Era exatamente como eu queria que fosse o meu primeiro encontro com Laura, só nós duas.

“Oi, tudo bem? Sou eu, mamãe. É engrado dizer isto. Quando me chamam de mamãe olho ao redor para ver se sua avó está chegando, há, há, há...”

Diante do meu riso sem graça, Laura fez um ar de tédio profundo. Pelo visto eu não a estava impressionando muito. Ou talvez fosse aquele mamacão quente do hospital que ela usava na primeira manhã ensolarada da sua vidinha.

“Estou esperando você há tanto tempo... Ô, filhinha do meu coração! Guti, guti, guti. Dã, dã, dã! Bilu? Bilu, bilu?”

O beicinho dela se curvou para baixo. Meu Deus, ela vai chorar. Tirei-a do cesto. Como era pequena, parecia menor que ontem. Abracei aquela coisinha fofa, delicada, que tinha cheirinho de carro zero. Seu rostinho era o mais lindo, seu cabelinho, o mais sedoso... Ah, me desculpem. É impossível não ser melosa para descrever a cena da primeira vez em que carrego minha bebezinha, né? Tenham um pouco de paciência. Enfim, estava eu neste idílio quando outra enfermeira entrou. Esta parecia ter 16 anos, com o tipo de magreza anoréxica que sempre sonhei para mim e era muito simpática. Pertencia à legião das enfermeiras anjo e se tornaria a enfermeira mais importante da minha vida.

“Bom dia, mamãe!”

Olhei ao redor confusa. Com quem ela está falando? Ah, esqueci de novo. A “mãe” sou eu.

“E aí?” continuou a enfermeirinha. “O bebezinho já mamou?”

“Bem, não. Eu... É que... Acho que eu estou meio sem saber como...”

Eu disse desde o primeiro momento que esta coisa de ser mãe nunca havia sido um sonho meu. Na verdade, diversos aspectos da maternidade me causavam verdadeira repulsa. Engordar, ter varizes, hemorróidas, não pintar cabelo, soltar gases, cair os peitos, inchar os pés, perder as roupas, andar como uma pata, não passar na roleta e, principalmente, fazer lavagem intestinal e ficar com a perereca raspada e arreganhada diante de toda a equipe médica na hora do parto. Era reality show demais para a minha cabeça.

Entre as esquisitices que eu mais temia, estava a amamentação. A ideia de que eu produziria leite era uma coisa meio bovina, um lado animal que eu não sabia se queria conhecer. Agora, vou contar uma coisa que, com certeza, vai fazer você me desprezar. Mas como jurei contar a verdade e nada mais que a verdade, lá vai. Eu sentia nojo de ver uma mulher dando de marmar. Pronto, falei. Para mim, parecia que eu trocaria minha inteligência e integridade para ter o status de vaca premiada de exposição agropecuária. Ouvia mães orgulhosas dizendo “Eu tinha muito leite! Meu menino mamava até entornar. E meus peitos ainda vazavam”. Argh! Imaginava uma competição de mães enchendo baldes de leite. Se aquela enfermeirinha tão gentil imaginasse isto, chamaria a psiquiatria do hospital. Mas ela foi muito compreensiva.

“Calma, mãe. A primeira vez é difícil mesmo. Eu vou te ajudar.”

A enfermeira menina colocou minha Laura na posição certa. Nos ajeitou de tal forma que, de repente, aconteceu! Nas primeira tentativas, Laura não agarrava o bico direito, tudo parecia fora do lugar e doloroso. Mas quando nos encaixamos, foi como mágica! A sensação do leite sendo sugado... Ah! Agora eu sabia porque as vacas tem aquele olhar tranquilo, sem estres... Amamentar é uma delícia! Só as vacas são felizes.

Eu mal respirava de medo de cortar o fluxo da coisa. Era como aprender a andar de bicicleta, você tenta várias vezes sem sucesso e, de uma hora para a outra, sai pedalando. Aí, você grita: “Veja, estou andando de bicicleta!” e, na mesma hora, se esborracha no chão. Cada vez que eu prestava atenção demais, Laura perdia o bico do peito. Então, o negócio era deixar rolar...

Cada vez mais eu me sentia outra pessoa, como se ser mãe fosse também representar um papel numa brincadeira de casinha. Eu não me parecia mais comigo mesma. Eu vi mulheres amamentando na TV, eu vi minhas irmãs amamentando, mas nunca achei que faria isto, que interpretaria este papel. Amamentar me deu uma sensação muito poderosa. Eu era quase Deus! Pense bem: era capaz de fabricar minha própria gente e ainda produzia comida do nada. Ajoelhem-se, simples mortais.

Ali, sentada na enfermaria, Laura em meus braços, minúscula e frágil como uma bonequinha, sugando meu peito com vontade, os olhinhos arregalados se movendo de um lado para o outro, bem ali naquele instante eu vivi o momento perfeito. Aquele momento que você escolheria para congelar a cena mais maravilhosa da sua vida. É verdade que meu cabelo precisava de uma boa tinta e minha barriga continuava enorme, mas fora isto, era uma cena perfeita.

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