A nova geração das mães não é tão nova assim.

A nova geração das mães não é tão nova assim. Se você colocou a universidade, a carreira, o regime e até o marido na frente da maternidade e depois teve que correr atrás do prejuízo, bem-vinda ao blog das novas mães maduras.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

No trabalho

“Se até os 30 anos você não conquistar um cargo de gerência, uma casa própria e um carro zero km, pode desistir porque não consegue mais.”

Olhei assustada para minha colega de trabalho, perguntando:

“De onde você tirou isto?”

“É o que as pessoas dizem, né?”

Um calafrio percorreu a minha espinha. Senti que estava condenada. Não sou gerente, não quitei meu apartamento e meu carro é um Fiat Uno 1996 caindo aos pedaços. Na época ele foi um excelente negócio. Carro de mulher, única dona e, para sorte minha, a tal antiga proprietária tinha morrido logo depois de comprá-lo, por isto estava tão conservado! Até dei a ele o apelido de “Precioso”. Hoje em dia a gente quase precisa colar a porta com esparadrapo. Enfim, se um dos quesitos para avaliar o meu sucesso levar em conta meu automóvel, estou ferrada.

Nem sei porque estou me preocupando com isso. “As pessoas dizem” que só é possível se alcançar o sucesso até os 30, então meu prazo se esgotou há 10 anos. Sou uma fracassada. Nem preciso me levantar mais da cama. Se o mercado de trabalho só se interessa por pessoas até 30 anos, o que uma mulher de 40 anos com um bebê no colo pode esperar?

“Boa tarde, Dona Márcia. Faça o favor de desocupar a sua mesa pois quem vai se sentar aí agora é o Rogério. Além de ser homem, ele tem apenas 25 anos, se dedica totalmente à empresa durante o dia e, à noite, faz MBA em Marketing enquanto a senhora troca fraldas. Por gentileza, deite-se aqui neste caixão e aguarde que já começaremos o funeral em memória da sua vida profissional.”

Eu já fui um Rogério. Minha vida era a minha carreira. Há dois anos, isto mudou. Antes eu podia me entregar de corpo e alma, chegava cedo e era uma das últimas a deixar o escritório. A casa era apenas um lugar para dormir. Minha dedicação fazia com que chefes sempre me solicitassem para grupos de trabalho, participar de cursos especializados e eventos mais importantes. Mesmo em uma empresa tão grande quanto a que trabalho, logo meu nome se tornou conhecido e comecei a sonhar que eu poderia estar chegando perto de conquistar meu lugar ao sol, quem sabe uma subgerência?

O tempo foi passando e a promoção não veio. De repente, eu estava com quase 40 anos e ainda por cima grávida! Como iria ficar a minha carreira? Não sabia se teria o mesmo tempo para me dedicar ao trabalho como antes. Não apenas tempo, mas energia física e mental para manter o nível de profissionalismo que sempre esteve em 1º lugar na minha vida. Quer saber a resposta? Não. Pode se descabelar, a resposta é não. Você não vai ter o mesmo tempo nem a mesma energia de antes.

Quando comecei a temer isto, fiquei sem saber como contar ao meu gerente que estava grávida. Afinal, ele era um homem eficiente e muito exigente. Diante deste medo, tomei a única decisão madura: fingi que não estava grávida. Resolvi não contar nada para ele. Sempre fui gorda, ele poderia pensar que minha barriga crescendo era mais um dos meus ataques a confeitarias, já famosos até no recinto de trabalho. O plano teria dado certo se uma coisa não fosse maior que minha barriga: a minha língua!

Fui contando cada hora para um grupinho, tudo no maior sigilo, até que chegou no ouvido do gerente. Ele foi supergentil comigo mas acho que ficou um pouco decepcionado por ser o último a saber e eu me senti uma idiota.

REGRA 7 – Sua vida profissional não acabou mas também não será mais a mesma. Quanto mais rápido entender isto, mais rápido vai se adaptar.

Os primeiros dois ou três anos de um ser humano são cruciais. Pense que você acabou de chegar neste planeta, não anda, não fala, nem sequer se senta sozinho. Caramba, seu bebê exige dedicação, então dê esta dedicação! Você ainda vai ter tempo para voltar a viver para o trabalho mas nunca mais poderá ser 100%. Você fechou um contrato com Deus. Aceitou receber uma criança para amar, orientar, alimentar, ensinar tudo a este bebê e aprender ainda mais com ele. Então, dedique-se, este é com certeza o trabalho mais importante que você vai ter na vida. Mesmo que, por causa dele, você nunca seja a gerente, passe o resto dos seus anos pagando o financiamento da casa própria e passeando num Fiat Uno 1996.

Alguma coisa me diz que, quando você morrer, ao encontrar São Pedro na porta do céu e ele olhar sua ficha (para decidir se você entra ou desce para o inferno) você não vai ouvir ele perguntando:

“Vejamos... Como foi que você se saiu na preparação dos relatórios de vendas dos produtos mais rentáveis da empresa?”

Mas posso imaginar São Pedro perguntando:

“Como você cuidou da pequena alma que Deus lhe confiou?”

Nenhum comentário:

Postar um comentário