A nova geração das mães não é tão nova assim.

A nova geração das mães não é tão nova assim. Se você colocou a universidade, a carreira, o regime e até o marido na frente da maternidade e depois teve que correr atrás do prejuízo, bem-vinda ao blog das novas mães maduras.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Calma, tudo isto é normal.

Eu nunca fui especial. Minha irmã Cláudia foi a primeira a nascer e continuou sendo a primeira em tudo. A pioneira em inventar brincadeiras, a primeira a ter um namorado, a aprender violão e a única a ser loura de olhos verdes. Simone era a mais meiga, mais ponderada, fazia musculação e comia salada por puro prazer, coisas que considero anormal. Alessandra era a caçulinha, a que ganhava todas as batatas fritas no almoço e, apesar desta dieta suicida, meus amigos se referiam a ela como “a sereia”.

Mas o que o que eu poderia dizer de mim mesma? Não há nenhuma característica principal em mim, a não ser o meu temperamento irascível. Na escola eu não era a pior aluna mas também não tirava 10. No serviço eu não era candidata à demissão mas também não era candidata à gerência. Filha do meio, estudante do meio, meio legal, meio chata. Invariavelmente, a pessoas me dizem “Conheço alguém igualzinha a você!”. Ou eu sou realmente sem graça ou deve haver uma centena de clones meus andando por aí.

De repente, tudo isto mudou! Finalmente eu era a atriz principal do filme, ganhadora do Oscar, desfilando no tapete vermelho de vestido Dolce e Gabbana enquanto flashes brilham por todos os lados. Eu não era mais a coadjuvante, meu nome aparecia em letreiros luminosos. Eu era a grávida! Por onde andava era recebida de modo especial. Fila? Nada disso, você tem prioridade. Buffet? Siva-se primeiro, querida. Com certeza uma das coisas mais inacreditáveis que já aconteceu em minha vida foi ver pessoas se levantarem no ônibus para eu me sentar. Eu já enfrentei empurrões e os truques mais baixos de estranhos na luta por um assento no ônibus. Mas, durante a gravidez, bastava entrar no transporte coletivo para oferecerem-me um lugar. Eu era a Paris Hilton do Nova Granada, a Lady Di do lotação 8205.

Carregar um bebê no ventre é carregar uma promessa. As pessoas não veem você, elas veem o sonho de um futuro melhor. Alguém que está sendo preparado bem ali naquela barriga e poderá fazer a diferença no mundo. Ou talvez esteja gravado na memória do nosso DNA, proteger os filhotes dos mastodontes e tiranossauros rex. Não sei os motivos, só sei que grávidas são seres especiais tratadas por todos como princesas encantadas. Aproveite pois, assim que o bebê nascer, você cairá de Cinderela à Gata Borralheira mais rápido que um raio.

Com a mesma rapidez, você também muda da sensação de ser especial para se sentir um ser de outro planeta. É que a gravidez provoca situações que você nunca imaginou viver. Um dia, no trabalho, fui desligar a máquina de xerox. Bastava se esgueirar no espaço entre a máquina e a parede para puxar a tomada. Assim que fiz o movimento, uma coisa me prensou contra a parede e eu fiquei esperneando como uma tartaruga entalada. Demorei para perceber que a “coisa” que me prendeu na parede era minha própria barriga.

Outro comportamento extraterrestre é que não conseguir parar de fazer xixi. Levantava a noite inteira para fazer mais um xixizinho e volta e meia o bebê dava um chute na minha bexiga, só para lembra-me de quem mandava ali.

E as meias Kendall? O modelo “cor de pele” deve ser da cor da pele do ET porque nunca vi terráqueas naquela tonalidade. As meias são super-resistentes e dificílimas de esticar. E você tem de vesti-las deitada, lutando para alcançar seu pé levantado no ar e entre você e seu pé tem um bebê de dois quilos. No final você está tão suada que tem de tirar as meias e tomar um banho.

Mesmo com a ajuda das meias, no final da gravidez era impossível evitar que meus tornozelos e pés ficassem inchados e assados como dois panetones. Meu marido, também conhecido como “tudo de bom”, colocava garrafas de refrigerante pet com água na geladeira. À noite, ele enchia um balde com litros de água gelada para eu mergulhar minhas pernas.

A cada mudança eu pensava: será que isto é normal? Ai, ai... Eu e meu eterno sonho de ser normal. Mais que isto, queria tirar nota 100 em maternidade. Eu planejava ser a mãe perfeita, a melhor do mundo, eu não iria errar nunca. Seria um modelo de virtude, sabedoria e paciência. Aliás, minha filha também seria superdotada, superbonita e superquieta. Iria falar, andar e aprender coisas antes de todos os outros bebês e as mamães no parquinho morreriam de inveja ou de tédio diante de tanta perfeição.

Se eu pudesse imaginar o quanto todos estes devaneios estariam longe da minha realidade agora... Mas enquanto eu não sabia disso, passava horas sonhando com a normalidade. Queria o bebê no peso ideal, que eu engordasse o mínimo, fosse 100% saudável, me tornasse a melhor vaca leiteira do berçário e todas as coisas idiotas que a gente sonha só para se sentir fracassada depois.

REGRA 10 – Normal é o que for melhor para você e para o bebê.

Eu li em algum lugar que o normal era engordar em torno de 9 quilos no máximo. O problema é que eu já me encontrava 7 quilos acima do ideal antes de engravidar o que me deixava uma folga de apenas 2 quilos. Eu até me saí bem nos primeiros sete meses. Até que um dia, recebi um telefonema do meu marido... Bom, este telefonema é complicado, depois falaremos disto, mas o fato é que fiquei tão deprimida que passei a fazer a única coisa que me acalmava: comer chocolate. Engordei nos últimos dois meses quase o que engordei nos sete primeiros, uma beleza! Mas afinal, ninguém engravida para emagrecer, então entenda que isto é normal.

Eu achava que bastaria acalentar a criança em meu peito e ela docemente sugaria o mamilo de onde jorraria o leite da vida, tudo isto enquanto tocava ao fundo a Cantata 140 de Bach. Nem sei porque fantasiava sobre isto pois é claro que já tinha ouvido mais uma história de terror da minha mãe, que teve seu bico do seio quase arrancado pela minha irmã e, louca de dor, jogou o bebê na cama. Minhas duas outras irmãs, apesar de adorarem amamentar, também cumpriram sua missão de espalhar o medo entre as virgens com histórias sobre como seus filhos bebiam leite com sangue pois os mamilos ficavam em carne viva. Legal, né?

Meus mamilos sempre foram do tipo tímido, sabe, meio escondidos. Não eram como estes mamilos atrevidos que tentam furar blusas. Então comecei uma verdadeira cruzada para tornar meus mamilos prontos para a hora da amamentação, fazendo topless na área do apartamento, usando blusa sem sutiã e esfregando violentamente bucha vegetal nos pobres coitados. Enquanto eles não começaram a sangrar não fiquei satisfeita. Dra. Suzana ficou horrorizada quando soube. “Eu disse para passar a bucha não arrancar a pele.”

No final das contas, é assim: amamentar é um aprendizado, para você e para o bebê também. Tem truques sobre como segurar o mamilo, posicionar o recém nascido do jeito certo, isto tudo se aprende. Ao tentar amamentar a primeira vez, evite platéias que deixem você ansiosa. Saiba que vai doer, vai sangrar e vai ser uma das coisas mais maravilhosas da sua vida. E pode não acontecer também. Minha amiga Vânia tentou de todo jeito mas não conseguiu amamentar e sentia um certo preconceito das pessoas em relação a ela. Mas não amamentar também é normal.

Com certeza, a maior meta de todas é o parto normal. Eu não vou mentir, queria uma cesariana, me parecia muito mais civilizado. Mas com a Dra. Suzana é assim: os verdadeiros ginecologistas só fazem parto normal.

“Mas doutora, e se eu precisar de uma cesariana?”

“Márcia, a tentativa deve ser sempre pelo parto através da vagina. Mas se o melhor para você e seu bebê for uma cesariana, mesmo assim será um parto normal. Será uma cesariana normal.”

Mesmo com todo o apoio da Dra. Suzana, eu tinha muito medo do parto. Tenho certeza que, pela minha médica, a gente podia muito bem estender uma toalha no Parque Municipal e parir de cócoras ao som dos pássaros. Dra. Suzana gosta das coisas o mais natural possível. Mas eu tinha medo de ter que passar por uma situação que fosse maior que as minhas forças. E, sabe, não dá pra desistir no meio do parto. Então, respirei fundo e conversei com Deus:

“Deus, olha só, eu quero ser a melhor mãe do mundo. Então, vou tomar a decisão certa, que é o parto normal porque foi como o Senhor criou a humanidade. Longe de mim criticar sua criação, mas sabe que eu sou mais sensível, eu sinto mais dor que os outros mortais, o Senhor me criou assim, né? Então, eu estou morrendo de medo mas que seja feita a sua vontade, farei o parto normal se o Senhor achar que eu posso suportar essa coisa toda, eu me curvo, amém.”

Deus é sábio. Laura nasceu de cesariana. Normal.

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