A nova geração das mães não é tão nova assim.

A nova geração das mães não é tão nova assim. Se você colocou a universidade, a carreira, o regime e até o marido na frente da maternidade e depois teve que correr atrás do prejuízo, bem-vinda ao blog das novas mães maduras.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Crendices e mandingas

O sonho da minha mãe era ter um filho homem. Naquele tempo não havia ultrassom e o jeito era ficar torcendo para o bebê ser do sexo esperado ou confiar nas premonições de alguma tia metida a paranormal. No caso da minha mãe, a torcida não deu em nada, ou melhor, deu em 4 meninas. Hoje, neste admirável mundo novo, o ultrassom 3D é capaz de mostrar até as feições do feto. Mas, por mais que a ciência avance, o mistério da criação será sempre alvo de todo o tipo de premonição, simpatia e crendices.

Se cair um garfo, vai ser menino. Se sua barriga está redonda e não pontuda, menina na certa. Se o tatatataravó tinha olhos azuis, começam as apostas se o bebê vai “puxar” o antepassado. Se a grávida tem vontade de comer jaca, melhor encontrar uma rápido para o bebê não nascer com a cara amarela e cheia de espetinhos. Se você tem azia é porque o bebê é cabeludo. Essa deve valer para comunistas que comem criancinhas pois para dar azia a criança tem que estar no seu estômago, não no útero.

Com certeza a mais bizarra é a recomendação de que a grávida pode encher a cara de cerveja preta para ter bastante leite. As vacas iriam adorar este tratamento, ficando doidonas pela fazenda, trocando as patas e dando mugidos bêbados. Já os Alcoólicos Anônimos podem não aprovar.

E a tal canja de galinha gorda para mulheres recém-paridas? Como se a gente já não estivesse gorda o suficiente depois de uma gravidez. Agora, o resguardo é sério, é bom você e seu marido respeitarem. Não que você esteja louca de tesão depois da maratona parto, pontos para todo lado, amamentação e noites insones. Na verdade, o resguardo é uma benção.

Algumas pessoas olham sua barriga e dizem que está baixa demais, vai nascer já, já. Cinco minutos depois alguém comenta que está alta demais ou está para a esquerda demais ou pontuda demais. Você começa a pirar: “será que tem algo errado?”

REGRA 8 – Informe-se.

Busque informações sérias para se preparar para as mudanças que você vai passar neste período. Só acesse na internet sites recomendados. E existe uma infinidade de livros, matérias de jornal, livretos, folhetos. Mas, cuidado! Se você for do signo de virgem pode não resistir à tentação de juntar tanto material que seria preciso os 22 meses de gestação de um elefante para ler tudo. Só de Pais & Filhos eu tinha o suficiente para montar uma banca de revista.

Todo final de semana me deitava semi-nua na área do apartamento (sabe como é, sol nos seios prepara para a amamentação, sei lá se é científico mas eu fazia) e lia horas e horas até ficar mais sabida ou mais morena, o que acontecesse primeiro. Meu marido ficava fulo da vida.

“Ah, não! Outra vez tomando sol pelada?”

“Eu estou de calcinha.”

“Os vizinhos devem estar adorando ver como os seus seios cresceram. E essa barriga no sol? Você vai cozinhar a nossa filha.”

É verdade que ela nasceu moreninha mesmo, mas já disse que o apelido do meu marido é “negão”? Então, a culpa não pode ser só minha.

O lado bom de se informar é se preparar para as mudanças no nosso organismo e não se assustar à toa. Por exemplo, grávidas têm prisão de ventre. Só que eu já tinha antes de engravidar então meu caso se tornou algo como prisão de segurança máxima para intestinos. A parte divertida é que as grávida não podem ficar sem ir ao banheiro mas também não podem tomar lactopurga. Nem adiantava virem com suco de laranja, mamão ou granola para o meu lado. Meu caso exigia artilharia pesada, chame o Roto Rooter!

Nunca acreditei em coisas muito naturais, só me sinto segura mesmo com comprimidos de tarja preta ou injeção na veia. Esse negócio de florais de Bach é coisa de hiponga. Mas lá estava eu, sem nenhuma outra opção além de um chá de ervas chamado Folículo Sene. A médica recomendou 3 a 4 folhinhas, então coloquei logo umas 10 na xícara. Não conheci a dor do parto mas com certeza eu tive um gostinho do sofrimento quando o tal chá fez efeito. Me retorci de cólicas!

Reduzi o número de folhinhas mas mesmo assim era diarréia todo dia, até no horário do serviço. Para não matar as mulheres da empresa asfixiadas, resolvi queimar incensos no banheiro. Um dia, estou queimando meu incensozinho dentro do reservado quando entram duas colegas.

“Sente este cheiro.”

“É esquisito, parece erva aromática mas tem uma coisa ruim misturada.”

“Eu disse para você que tem uma mulher fumando maconha aqui.”

“Shhh! Olha a fumacinha saindo debaixo daquela porta alí, ó.”

Ouvi risadas abafadas enquanto elas saiam do banheiro. Dei um tempo antes de sair também mas as duas estavam do lado de fora para flagar a meliante. Ao me reconhecerem e vendo minha barrigona, afastaram-se horrorizadas. Deixei por isto mesmo. Preferi a fama de grávida maconheira à de cagona.

Também fiz um curso preparatório no hospital Mater Dei. Médicos falaram sobre amamentação, primeiros cuidados com o recém nascido e os exames mais modernos. Foi legal encontrar um bando de grávidas, todas ansiosas como eu e algumas quarentonas também. Vi muitas mulheres sozinhas e me senti feliz por ter meu marido ao meu lado. Aliás, ele estava tão grávido quanto eu, todo ansioso e comendo mais. Até arriscando sua masculinidade em conversas como “O quarto vai ser rosa ou lilás? Não, rosa é muito cliché, melhor o lilás”. Desconfio que ele teve enjoos no meu lugar pois eu mesma nunca tive nenhum.

Mas voltemos às palestras. Teve um médico do qual eu me lembro bem:

“Agora a moda é ficar falando para vocês grávidas fazerem o parto humanizado. Mas o que é isso? Se não é parto de cadela, de vaca, se é de ser humano então é parto humanizado. Dizem que o natural é sem anestesia. Se você quer, tudo bem, mas tomar anestesia não quer dizer que seu parto vai ser menos humano ou menos natural. A anestesia ajudará você a vivenciar melhor a emoção, a alegria da chegada do bebê. Engraçado é que ninguém fala em cirurgia ortopédica natural, né? Quer cortar o joelho sem anestesia? “

Apoiado! Eu quero a anestesia. Quero a dose máxima. E uma taça de champanhe, afinal é uma celebração. E um lexotan também, pois é muita emoção. Mas acho que a dra. Suzana não vai concordar com esta parte.

Sai do curso me sentindo pronta. Esta é uma ótima sensação já que a gente passa todo o tempo carregando incertezas na barriga junto com o bebê. Traz uma sensação de alívio. É fato que, quanto tudo acontece de verdade, descobre que não sabe nada, nenhum curso prepara você para a realidade de ter o seu bebê nos braços. Mas é uma ilusão bem reconfortante na hora. Porque, ser mãe, é exatamente isso, fazer uma coisa para a qual ninguém nunca está pronta mas quando você percebe, já está fazendo. Ou seja, é como a vida mesmo.

Imagino se, além desse curso, não deveria haver outro, de como ser paciente, amável, disciplinada, determinada mesmo depois de 8 horas de trabalho mais 3 horas de trânsito. Um teste para saber se você é equilibrada o suficiente para ter o direito de ser mãe. Não. Talvez seja melhor que não exista este teste. Com certeza eu não passaria.

Um comentário:

  1. Márcia, tô adorando acompanhar o seu blog! Você escreve bem demais! Sei que elogio de parente num conta, mas ah, tô sendo sincera. Beijocas. Ana.

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