“Há quanto tempo o seu bebê não se mexe?”
“Tem uns três dias. Mas isto é normal, não é doutor? Quer dizer, agora ela está grande que não tem mais espaço para ficar se revirando dentro da minha barriga, não é?”
“Humm...”
A última coisa que você quer ouvir de um médico durante um exame é “humm...” pronunciado no mesmo tom de voz que ele usaria para dizer: puta merda. Minha respiração parou. É verdade que a bebê andava quieta ultimamente, muito diferente do seu comportamento usual. A primeira vez que ela se mexeu na minha barriga foi como uma onda tão suave que fiquei na dúvida se era minha imaginação. À medida que foi crescendo, não havia mais dúvidas: Laura se mexia, pulava corda, subia escadas e praticava karatê, tudo dentro da minha barriga e, de preferência, à noite. Numa destas noites, enquanto Laura transplantava meu rim direito para o lado esquerdo, reclamei com meu marido que ela não me deixava dormir. Confuso de sono, ele ergueu a cabeça e gritou para minha barriga:
“Laura, vá para o seu quarto dormir agora!”
Coitado. Dê descontos para todas as maluquices do seu marido a partir do 7º mês. Mas ele terá que dar vários descontos para você também.
No final da gravidez você tem dificuldades até para respirar. O bebê ocupa todos os espaços aos quais tem direito e os que não tem direito também, como um pezinho entre suas costelas, por exemplo. Por isto, quando o bebê fica mais quieto, é um alívio. Mas quando Laura ficou imóvel, o terror tomou conta de mim. O médico (ou o cara que faz o ultrassom é só um técnico? Nunca soube direito) que me examinava começou a bater forte com o aparelho na minha barriga lambuzada de gel. Ergui a cabeça um pouco assustada e indignada. A atitude dele não parecia muito científica, ele batia e tornava a deslizar o aparelho pela minha barriga, olhando preocupado o monitor. Gelei quando entendi que ele estava batendo para ver se o bebê reagia.
“Então, está tudo bem com o bebê, não é?”
“Quando foi que sua bolsa estourou?”
“Bolsa?”
“Seu bebê não está se mexendo e não tem mais líquido suficiente para para respirar por mais tempo e...”
“O QUÊ?!”
“A senhora não sentiu a perda do líquido? Talvez tenha sido no banho... O bebê tem que ser retirado rápido.”
“O QUÊ?!”
“Olha, pegue o resultado e vá na sua médica agora.”
“Devo ficar preocupada?”
“Nãããooo...”
Você também não quer ouvir um médico dizer “Nãããooo...” no mesmo tom que ele diria: fudeu. Fui direto para o consultório da amiga da Dra. Suzana, que estava doente, e esperei que a secretária mostrasse o resultado do exame para ela. Após alguns minutos, a secretária retorna.
“A doutora disse que o parto será hoje.”
“Que parto?”
“O seu, ué!”
“Como assim? Eu não estou pronta! O quarto não está arrumado, não fiz depilação, não comprei a camisola nova, não fiz a malinha da recém nascida, não fiz as unha...”
“Você pode não estar pronta, mas o seu bebê está” disse ela simpática. Desejei esbofeteá-la.
Minha irmã ao meu lado estava extasiada. Lógico, não era ela quem teria a barriga cortada de um lado ao outro. Eu, por outro lado, estava à beira do histerismo, uma mistura de felicidade insuportável com um terror esfuziante. Liguei para meu marido.
“Oi amor, que tal termos o bebê agora?”
“Essa é boa. O que a médica disse?”
“Vou repetir: a-go-ra!”
“Mas o quarto, a malinha...”
“Eu sei que não estamos prontos mas parece que agora outra pessoa vai decidir nossas vidas: o bebê.”
Mal sabia eu o quanto de verdade havia nestas palavras. De uma hora para a outra, estava sentada na maca da sala de parto. De repente, as enfermeiras saíram para buscar alguma coisa e me vi sozinha. Coloquei a mão na barriga e só então me dei conta: dentro de alguns minutos, nós duas seríamos separadas. Eu era o ar que ela respirava, sentia cada movimento de seu corpinho. A tranquilidade de estar sempre com ela, suprindo todas as suas necessidades, aquecendo-a, embalando-a, tudo isto seria cortado em instantes. Dentro de mim, ela estava protegida. O que aconteceria quando estivesse do lado de fora?
Me senti sozinha e com medo. Será que eu seria capaz de ser uma boa mãe? Meu Deus, de onde foi que eu tirei esta idéia louca? E se eu fosse uma mãe totalmente neurótica? Que bobagem me preocupar com isto, é lógico que serei uma mãe neurótica. Mas e se eu não tiver dinheiro o suficiente para o curso de inglês, o balé e a casa da Barbie?
Fechei os olhos e tentei normalizar minha respiração. Acariciei a barriga de novo e, pela primeira vez na vida, conversei com Nossa Senhora.
“Maria, mãe de Jesus, mãe das mães. Eu sei que nunca te procurei antes, sabe como é, o comum é falar com seu filho ou direto com o todo poderoso, eles dois são mais famosos e tal. É uma droga como os homens sempre pegam os melhores empregos... Enfim, Maria, a senhora que pariu Jesus sem a ajuda dos médicos ou anestesia, me ampare nesta hora. Ave Maria, cheia de graça. O senhor esteja convosco. Bendita sois vós entre as mulheres e bendito o fruto do vosso ventre: Jesus. Santa Maria, mãe de Jesus, rogai por nós pecadores, agora e na hora de nossa morte. Amém.”
Senti duas mãos segurando meus ombros e abri os olhos assustada, esperando ver talvez um anjo enviado por Maria. Foi mais ou menos assim. A dra. Suzana me segurava pelos ombros e depois me abraçou enquanto o anestesista aplicava a rack. Não posso mentir, é estranho, quase dor, mas se o médico segura você da forma certa, é o melhor possível.
“Dra. Suzana, achei que você não viria, está tão doente...”
“Acha que eu ia perder o seu parto?”
Quando o Elberth entrou, já haviam começado a cortar minha barriga. Nem tenho idéia da cena que ele viu, mas disfarçou bem, mantendo uma cara de paisagem até se aproximar de mim.
“Você está bem?”
“É esquisito, não sinto dor, mas sinto elas mexendo em mim.”
Ele começou a filmar e me arrependi de não ter feito uma maquiagem. Aliás, toda vez que assisto a esta filmagem tenho vontade de me bater. Amiga, depois dos 40 anos, você não tira nem uma foto sem uma boa maquiagem. Agora imagine eu lá deitada, paralisada da cintura para baixo, com um camisolão de hospital infame, aquela touca idiota no cabelo e ainda por cima, sem maquiagem.
Quando chegou a hora de retirar o bebê, tive uma revelação chocante! Sabe aquelas cenas no cinema onde o médico retira o bebê docemente e o ergue para a mamãe? Bom, misture isto com alguns elementos do filme “O Massacre da Serra Elétrica” e aí sim você terá um quadro mais real da cesariana. Não tem esta de retirar docemente o bebê do útero, ele é arrancado mesmo, na marra. Não podia ver nada mas sentia as duas médicas me balançando, como se tivessem agarrado a bebê pela cabeça e fosse sacudindo a coitada de um lado para o outro até desagarrar. Elberth olhava por cima da cortina de lençol.
“Ah! Tá nascendo. Ela é linda!”
Deitada de onde estava, toda anestesiada, aquela montanha de lençol verde em cima de mim, eu não podia participar de nada. Foi quando ouvi a vozinha dela pela primeira vez. Ela chorou e eu explodi em lágrimas junto. Meu peito parecia que ia estourar com as batidas do meu coração, doía e aliviava ao mesmo tempo. Tudo isso e eu ainda nem tinha visto o rostinho dela ainda.
“Feliz aniversário, Laura” disse dra. Suzana.
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