Eu ouvia minha filha chorando. A voz dela cada vez mais forte. Se minhas pernas não estivessem anestesiadas e minha barriga aberta, juro que teria me levantado só para dar uma olhadinha nela. Não era justo, todos a viam menos eu. Senti meu marido beijando minha testa quando finalmente o pediatra colocou Laura ao alcance dos meus olhos. O rostinho dela estava muito branco, enrugado, espremido no lençol verde e coberto de gosma branca. Nunca vira nada mais lindo em minha vida! Cabelos pretos, olhos inchados e a boquinha vermelha gritando. O pediatra a colocou sobre meu peito e ela se calou.
“Doutora, ela parou de chorar! Por que ela parou de chorar? O que tem de errado?”
“Calma, Márcia, ela reconheceu o seu cheiro, as batidas do seu coração.”
Toquei aquele rostinho. Ela era macia. Tambores começaram a tocar uma dança africana nos meus ouvidos. Percebi que era meu coração que tinha subido e bombeava dentro do meu cérebro.
Ela é de verdade! Está viva! E é toda minha, pensei. Queria chorar de novo para aliviar um pouco toda aquela emoção, mas não conseguia. Aquilo tudo era muito maior que as lágrimas, muito maior que o riso. Não havia expressões humanas que pudessem alcançar aquele sentimento.
De repente, ela foi levada para observação e eu também teria de ficar até a anestesia passar. Estava exausta, como se tivesse corrido uma maratona e, ao mesmo tempo, estava tão cheia de energia que poderia encher sozinha um caminhão de entulho.
Fui levada para a tal sala de observação, o que é um nome totalmente impróprio para um lugar onde não fica ninguém realmente observando você. Tentei dormir mas não conseguia. Sozinha ali, me sentia uma caixa de presente. Eu fora aberta, tiraram a boneca de dentro de mim e eu, a caixa, fui colocada na área de serviço junto com as outras caixas nas macas ao meu lado. Demorou tanto que cheguei a pensar que tinham se esquecido de mim.
Quando a anestesia finalmente passou fui para a enfermaria. Não podia pagar um quarto particular então, teria que enfrentar aquela noite sozinha. Uma enfermeira trouxe Laura e ela estava ainda mais linda, sem a gosma e com o macacão branco do hospital. Elberth entrou e, naquele exato instante, pude ter uma ideia do tipo de pai que ele seria. Parecia que, a qualquer momento, ele se jogaria no chão e, fazendo reverências com os braços, num ritual de adoração, diria algo tipo:
“Oh! Grande Laura! Serei seu escravo por toda a eternidade! Uga! Uga!”
Em seguida chegaram minha sogra, minha mãe, meu pai, minhas irmãs Cláudia e Alessandra com minha sobrinha Vívian trazendo um vasinho de violetas. Todos em volta da cama, embevecidos, aquele ambiente familiar, de carinho, quente. O calor da cena foi abruptamente cortado por uma voz monocórdica.
“Por gentileza, vocês terão que sair agora, tá? Na enfermaria não se permite visita neste horário.”
Na hora me lembei do que tenho mais medo em hospital. Enfermeiras. Não tem meio termo, ou são anjos ou demônios. A capeta da enfermeira acabou com nosso momento família e, quando dei por mim, estava sozinha com minha filha na cama. Mas isto também só durou um segundo pois outra enfermeira entrou com um jeito dessas moças que trabalham em padaria, acostumadas a carregar cestos de pães quentinhos ou de recém nascidos.
“Dá tchau para a mamãe” ela disse para Laura.
“Para onde você vai levá-la?"
“Para o berçário, uai.”
“Espere! Se eu quiser posso ficar com ela a noite toda?”
“Pode! Mas eu não faria isto se fosse você.”
“Por que?”
“Esta vai ser sua última noite de sono por muitos anos. Depois, todas as noites serão tomando conta dela.”
“Toma ela aqui, pode levar.”
Por um momento me senti estranha, abandonando meu bebê. Como seria o tal berçário? Meu Deus! Me lembrei de mais uma história de terror da minha mãe! Ela dizia que as enfermeiras dopavam as crianças recém nascidas para que elas parassem de chorar e assim as enfermeiras diabo podiam tirar um cochilo. Será que fariam isto com minha filhinha? Tentei me levantar mas um cabinho balançou sob a coberta me dando sensações estranhas. O que é isto? Droga, estou com o dreno. Para sair daqui vou ter que carregar um saquinho de xixi. Não, é muita humilhação.
Fechei os olhos e tentei relaxar. Afinal, era minha última chance de dormir bem. Todo mundo sempre me falava isto durante a gravidez. “Aproveite para dormir tudo o que você puder por que, depois, serão noites e noites em claro.” Como se fosse possível acumular horas de sono para usar depois.
Então, vamos dormir. O que será que a Laura está fazendo lá embaixo? Meu Deus, eu pari! Eu sou mãe! O Elberth é pai! Que alegria, que emoção. Parece uma coisa brega de novela mexicana mas estou num carrossel de emoções! É isto! Um carrossel de emoções girando, girando... Pare! Socorro! Eu quero descer da droga de carrossel de emoções! Por favor, Nossa Senhora, faça minha cabeça parar de pensar. Eu aqui sozinha, ninguém para conversar comigo, para me abraçar, eu acabei de parir, porra!
Finalmente chorei. Porque aquela tristeza toda? Coloquei as duas mãos na barriga. Ela não estava mais ali. Estava sozinha. Dormi.
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