A nova geração das mães não é tão nova assim.

A nova geração das mães não é tão nova assim. Se você colocou a universidade, a carreira, o regime e até o marido na frente da maternidade e depois teve que correr atrás do prejuízo, bem-vinda ao blog das novas mães maduras.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Socorro! O bebê chegou! Salve-se quem puder!

- Amor, cuidado com a velocidade! O guarda vai acabar multando a gente.

- Estou indo muito rápido?

- Multa por velocidade abaixo da permitida. Acho que estamos a uns 10 quilômetros por hora. Ou talvez nosso carro esteja até parado...”

O motorista atrás de nós buzinou ruidosamente.

- Passe por cima! - respondeu meu marido. - Estou levando minha filhinha de 3 dias de vida para casa. Eu não vou correr de jeito nenhum, seu maluco. Essa é a carga mais preciosa da minha vida...

Ele continuou a esbravejar com o motorista que, na verdade, já havia nos ultrapassado desde o primeiro berro. Olhei para a cesta de babados que trazia em meus braços. Afogada naquele mar de panos estava minha bonequinha que eu carregava como se fosse de cristal. Não podia criticar Elberth por seu excesso de zelo já que eu mesma havia exagerado na hora de vestir Laura. Com medo de um resfriado, de "pegar friagem" ou sei lá o quê, encapotei a menina como se ela fosse fazer uma viagem ao Alasca. Eu sei que os bebês na verdade não sentem mais frio que os adultos, apenas perdem temperatura mais rapidamente. O pediatra da minha irmã dizia que o melhor método para saber o que vestir no bebê é olhar para a roupinha dele e se perguntar: eu vestiria isto em mim mesmo? Usando esta técnica, eu deveria me perguntar: eu vestiria este macacãozinho de plush rosa com pequeninas florezinhas estampadas, me envolveria nesta manta cheia de babados e laços, tudo isto debaixo deste sol de meio dia? Resposta: sim! Afinal, o macacão era lindo de morrer e havia o lado emocional, pois pertencera à minha amada sobrinha Vívian! Isto valeria qualquer sacrifício. Além do mais, eu me sentia mais segura encapotando Laura. Ela era tão pequena, tão frágil... Na verdade, a manta era pouco para mim. Meu plano original era embrulhá-la com plástico bolha antes de sair do hospital, assim ficaria mais segura contra qualquer impacto. O mundo aqui fora parecia tão cheio de perigos e até o berçário da maternidade não me parecera muito melhor que a favela da Rocinha. Naquela manhã, fui ao berçário toda satisfeita pegar minha filha. Entreguei uma espécie de recibo vale-bebê para a enfermeira e ela me trouxe Laura em estado deplorável. Seus olhos estava inchados e ela tinha manchinhas, como pequenos hematomas pelo rosto.

- Mas o que foi que aconteceu? - perguntei perplexa – Ela brigou com os outros bebês do berçário?

-É uma pequena irritação na pele. Não se preocupe, é assim mesmo.

Não acreditei em uma só palavra. Minha filha se envolvera numa briga de socos, eu tinha certeza. Mais um motivo para sair correndo daquele hospital. Já havia enfrentado enfermarias antes, dias solitários e noites insones, com cortes muito piores que o da cesariana. Mas com a emoção do bebê, estar sozinha era enlouquecedor. Mal sabia eu que aquilo não era nem a metade da solidão que me esperava nos meus primeiros dias de maternidade.

Quando entramos com Laura no apartamento pela primeira vez, Bianca, prima do meu marido, registrou o momento histórico com a câmera fotográfica. Aquela casa nunca mais seria a mesma depois da chegada de sua nova moradora. Cada cômodo daquele apartamento seria transformado de acordo com as necessidades e vontades daquela pessoa de quarenta e poucos centímetros. Ela não pesava nem 4 quilos, mas iria governar aquele reino com mãozinhas de ferro. O quarto de Laura estava finalmente arrumado, gentileza das tias do Elberth, Heloísa e Cláudia. Até o cheiro do quarto parecia mágico.

Bianca saiu do apartamento por alguns instantes e ficamos sós pela primeira vez. Eu, meu marido e minha filha. Nossa família. Colocamos Laura no berço todo decorado em branco e lilás, o cortinado maravilhoso caindo sobre os protetores bordados com desenho de uma menininha também de vestido lilás. Eu e Elberth mal podíamos falar. A emoção era forte demais. Ela estava ali! Depois de tantos momentos de sonho, de insegurança, de expectativa, finalmente tudo se tornou real. A alegria foi crescendo em meu coração até se transformar em pânico total! Meu Deus, a menina está aqui, e agora? O que é que eu vou fazer? Gente! Aqueles médicos me deram alta? Como é que pode? Eles acham que eu sou capaz de criar esta criança sozinha? Eu não tenho nenhuma especialização no assunto, sei lá, deveria ter feito uma pós graduação, um MBA... Não me lembro de nada do que eu já li naquelas centenas de revistas Pais & Filhos. Socorro!

Calma, Márcia, calma... Respire fundo, isso mesmo. Não deixe transparecer o pânico no seu rosto. Você consegue, eu sei que sim! Você enfrentou tantas coisas no seu emprego, sobreviveu aos chefes mais tiranos e psicopatas, tirou carteira de motorista em Minas Gerais na segunda tentativa (coisa quase impossível para uma mulher) e já andou de banana boat em Guarapari. Pior: caiu da banana boat, aos 38 anos, em alto mar e a galera considerou deixar você lá para morrer porque ninguém conseguia colocar “a dona gorda” de volta na banana. Então, isto não pode ser mais difícil que subir na banana, é só um bebê. Além do mais, eu não estou sozinha, meu marido está bem aqui, ao meu lado...

- Eu tenho que sair - ele disse de repente.

- Aonde você vai!?

- Só vou no supermercado buscar...

- Você vai me deixar aqui sozinha com ela?

- A Bianca fica com você.

- A Bianca tem um piercing no umbigo e uma fada tatuada nas costas. Ela não sabe cuidar de bebês, Elberth.

- Agora você é mãe, Márcia.

Aquelas palavras me invadiram. Agora, eu era mãe. Sim, ninguém estava acima de mim, eu criava minha própria gente e produzia alimento do nada... acho que já disse isto. Comecei a me sentir incrivelmente forte e poderosa. A natureza era sábia, e se ela achou que eu podia ser mãe, então ninguém seria uma mãe melhor que eu. Eu vou dar o banho sozinha, como aprendi no hospital com a enfermeira anjo magrinha. Comecei a repassar mentalmente os passos do banho do bebê, como segurar, como virar, enxugar a cabeça primeiro... ah! Claro! E o nojento do umbigo preto e gosmento. Eu mesma iria cuidar daquela coisa, era só jogar álcool absoluto e secar bem. Em 4 ou 5 dias tenho certeza de que aquele trem cairia, como disse a médica. (Infelizmente o tal umbigo nojento, que parecia um pedaço da múmia de Tutan Camom, levou mais de 10 dias para cair. E para piorar, ficou mais uns 10 dias em cima da televisão enquanto minha sogra decidia sobre o melhor lugar para fazer o “enterro” do umgibo nojento. No final, foi enterrado perto de uma roseira onde está enterrado também o umbigo do meu marido. Cruzes!)

Quando Bianca chegou eu já estava possuída pelo espírito da mãe parideira, da mãe terra ou mãe natureza, sei lá. Eu simplesmente me senti a mãe da própria vida. Não precisava mais de conselhos ou de ler qualquer coisa para me orientar. Seguiria meus instintos e eles me conduziriam sempre para a melhor decisão em relação ao meu filhote. Nem me sentei ou tomei um café. Arregacei as mangas e preparei tudo para o primeiro banho em casa. O arsenal necessário para esta atividade deixaria a Hebe Camargo surpresa, nem a maquiagem dela deve envolver tantos potinhos, algodões, creminhos, pomadinhas, cotonetezinhos, quanto o banho de um recém nascido. Joguei na banheirinha um termômetro em forma de patinho que uma amiga do trabalho me deu. Medi a temperatura da água, preparei a toalha com a fralda por dentro e mergulhei o bebê.
Bianca me ajudou em tudo o que pedi e ficou impressionada em como eu estava representando bem meu papel de mãe. Esta surpresa ainda iria ficar estampada no rosto de muitas pessoas. Nos meus primeiros dias de maternidade, ninguém acreditava em como eu estava pronta, como era eficiente e cheia de energia em todas as tarefas. Destemida mesmo! Minha sogra me elogiou sobre como eu tivera coragem em dar o banho sozinha desde o primeiro dia de vida do neném. Minha mãe ficou boquiaberta ao me ver amamentar com tanta tranquilidade. Minhas irmãs todas disseram que eu era uma mãe muito melhor do que elas tinham imaginado que eu seria. Pensaram que eu ira ser totalmente descontrolada e desequilibrada. Que eu iria me estressar totalmente com tanto trabalho e tão poucas horas de sono. Que eu iria ficar agressiva e psicótica ao ter o meu mundinho virado de cabeça para baixo e estavam todas muito felizes em ver como estavam enganados.

Eu mesma estava surpresa comigo. Meu Deus, como eu era boa! Nada me importava, nem ficar sem comer ou sem dormir. A cada segundo da minha vida, meu único pensamento era ela. Na hora em que abria os olhos, o rosto dela vinha em minha mente. Quando tentava dormir, a imagem dela também era a última coisa na qual pensava. Laura era tudo. E eu era... Eu era feliz. Tão feliz e tão orgulhosa de ser mãe, que nem sequer imaginava o quanto estava perto de me quebrar toda em mil pedacinhos.

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