A nova geração das mães não é tão nova assim.

A nova geração das mães não é tão nova assim. Se você colocou a universidade, a carreira, o regime e até o marido na frente da maternidade e depois teve que correr atrás do prejuízo, bem-vinda ao blog das novas mães maduras.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Amamentando

Se você me visse dia 13 de setembro de 2008 as 9 horas na enfermaria do Odilon Behrens, de banho tomado, chapinha no cabelo e maquiagem, imaginaria que eu estava pronta para ir ao shopping e não que eu passara a tarde anterior na sala de parto. Bom, isso se as pessoas costumassem ir ao shopping de pijaminha rosa com florezinhas, claro.

Quando acordei às 6 da manhã e me disseram que os bebês só eram entregues às 10 horas, pensei em me esquivar pelos corredores, roubar um uniforme de enfermeira e invadir o berçário. Não suportaria esperar tanto tempo para rever Laura! Quem será o psicopata que inventa estas regras nos hospitais? Acabei optando pelo plano B: tomar um bom banho e me aprontar o melhor possível para ela. Queria que meu bebê me achasse a mamãe mais linda do mundo. Ou pelo menos diminuir a péssima impressão que devo ter deixado do dia anterior, descabelada e sem batom. Imaginei a noite dela no berçário, cercada de bebês desconhecidos, todos se vangloriando de como suas mamãezinhas eram lindas e jovens. E Laura tentando se explicar:

“Bom, é que mamãe está com 40 anos até é bem conservada para alguém que já pesou 110 quilos, tomou inibidores de apetite e fumou uns dois mil cigarros...!”

Já passava das 10 horas quando a enfermeira apareceu empurrando um carrinho cheio de cestas de plástico transparente onde estavam os bebês. Um de olhinhos arregalados dizendo, “quarto errado, esta não é a mamãe”. Outro com um olhar de desprezo: “nunca vi mais gorda. Além disso, minha mãe está num quarto particular”. Em outra cesta, uma menina chorava a plenos pulmões enquanto sua coleguinha ao lado dormia placidamente, um exemplo de bebê zen. Eram uns seis bebês mas não tive nenhuma dificuldade em reconhecer a minha. Eu a reconheceria mesmo num caminhão cegonha carregado com 257 bebês.

“Enfermeira, a minha filha é aquela alí, ó. Pode me dar.”

Ela ignorou-me completamente e foi conferir as anotações na prancheta. Depois, contrariada, entregou-me a cestinha que eu havia indicado e colocou-a em um suporte móvel, montando um tipo de berço.

“Como foi a noite dela, enfermeira?”

“Eu só entrego os bebês” respondeu empurrando o carrinho de pimpolhos para o corredor.

Olhei para Laura. Estávamos sozinhas pela primeira vez. Na noite em que cheguei, havia uma outra mãe que recebera alta bem cedo e agora teria o quarto só para mim por um tempo. Era exatamente como eu queria que fosse o meu primeiro encontro com Laura, só nós duas.

“Oi, tudo bem? Sou eu, mamãe. É engrado dizer isto. Quando me chamam de mamãe olho ao redor para ver se sua avó está chegando, há, há, há...”

Diante do meu riso sem graça, Laura fez um ar de tédio profundo. Pelo visto eu não a estava impressionando muito. Ou talvez fosse aquele mamacão quente do hospital que ela usava na primeira manhã ensolarada da sua vidinha.

“Estou esperando você há tanto tempo... Ô, filhinha do meu coração! Guti, guti, guti. Dã, dã, dã! Bilu? Bilu, bilu?”

O beicinho dela se curvou para baixo. Meu Deus, ela vai chorar. Tirei-a do cesto. Como era pequena, parecia menor que ontem. Abracei aquela coisinha fofa, delicada, que tinha cheirinho de carro zero. Seu rostinho era o mais lindo, seu cabelinho, o mais sedoso... Ah, me desculpem. É impossível não ser melosa para descrever a cena da primeira vez em que carrego minha bebezinha, né? Tenham um pouco de paciência. Enfim, estava eu neste idílio quando outra enfermeira entrou. Esta parecia ter 16 anos, com o tipo de magreza anoréxica que sempre sonhei para mim e era muito simpática. Pertencia à legião das enfermeiras anjo e se tornaria a enfermeira mais importante da minha vida.

“Bom dia, mamãe!”

Olhei ao redor confusa. Com quem ela está falando? Ah, esqueci de novo. A “mãe” sou eu.

“E aí?” continuou a enfermeirinha. “O bebezinho já mamou?”

“Bem, não. Eu... É que... Acho que eu estou meio sem saber como...”

Eu disse desde o primeiro momento que esta coisa de ser mãe nunca havia sido um sonho meu. Na verdade, diversos aspectos da maternidade me causavam verdadeira repulsa. Engordar, ter varizes, hemorróidas, não pintar cabelo, soltar gases, cair os peitos, inchar os pés, perder as roupas, andar como uma pata, não passar na roleta e, principalmente, fazer lavagem intestinal e ficar com a perereca raspada e arreganhada diante de toda a equipe médica na hora do parto. Era reality show demais para a minha cabeça.

Entre as esquisitices que eu mais temia, estava a amamentação. A ideia de que eu produziria leite era uma coisa meio bovina, um lado animal que eu não sabia se queria conhecer. Agora, vou contar uma coisa que, com certeza, vai fazer você me desprezar. Mas como jurei contar a verdade e nada mais que a verdade, lá vai. Eu sentia nojo de ver uma mulher dando de marmar. Pronto, falei. Para mim, parecia que eu trocaria minha inteligência e integridade para ter o status de vaca premiada de exposição agropecuária. Ouvia mães orgulhosas dizendo “Eu tinha muito leite! Meu menino mamava até entornar. E meus peitos ainda vazavam”. Argh! Imaginava uma competição de mães enchendo baldes de leite. Se aquela enfermeirinha tão gentil imaginasse isto, chamaria a psiquiatria do hospital. Mas ela foi muito compreensiva.

“Calma, mãe. A primeira vez é difícil mesmo. Eu vou te ajudar.”

A enfermeira menina colocou minha Laura na posição certa. Nos ajeitou de tal forma que, de repente, aconteceu! Nas primeira tentativas, Laura não agarrava o bico direito, tudo parecia fora do lugar e doloroso. Mas quando nos encaixamos, foi como mágica! A sensação do leite sendo sugado... Ah! Agora eu sabia porque as vacas tem aquele olhar tranquilo, sem estres... Amamentar é uma delícia! Só as vacas são felizes.

Eu mal respirava de medo de cortar o fluxo da coisa. Era como aprender a andar de bicicleta, você tenta várias vezes sem sucesso e, de uma hora para a outra, sai pedalando. Aí, você grita: “Veja, estou andando de bicicleta!” e, na mesma hora, se esborracha no chão. Cada vez que eu prestava atenção demais, Laura perdia o bico do peito. Então, o negócio era deixar rolar...

Cada vez mais eu me sentia outra pessoa, como se ser mãe fosse também representar um papel numa brincadeira de casinha. Eu não me parecia mais comigo mesma. Eu vi mulheres amamentando na TV, eu vi minhas irmãs amamentando, mas nunca achei que faria isto, que interpretaria este papel. Amamentar me deu uma sensação muito poderosa. Eu era quase Deus! Pense bem: era capaz de fabricar minha própria gente e ainda produzia comida do nada. Ajoelhem-se, simples mortais.

Ali, sentada na enfermaria, Laura em meus braços, minúscula e frágil como uma bonequinha, sugando meu peito com vontade, os olhinhos arregalados se movendo de um lado para o outro, bem ali naquele instante eu vivi o momento perfeito. Aquele momento que você escolheria para congelar a cena mais maravilhosa da sua vida. É verdade que meu cabelo precisava de uma boa tinta e minha barriga continuava enorme, mas fora isto, era uma cena perfeita.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

O parto – parte II

Eu ouvia minha filha chorando. A voz dela cada vez mais forte. Se minhas pernas não estivessem anestesiadas e minha barriga aberta, juro que teria me levantado só para dar uma olhadinha nela. Não era justo, todos a viam menos eu. Senti meu marido beijando minha testa quando finalmente o pediatra colocou Laura ao alcance dos meus olhos. O rostinho dela estava muito branco, enrugado, espremido no lençol verde e coberto de gosma branca. Nunca vira nada mais lindo em minha vida! Cabelos pretos, olhos inchados e a boquinha vermelha gritando. O pediatra a colocou sobre meu peito e ela se calou.
“Doutora, ela parou de chorar! Por que ela parou de chorar? O que tem de errado?”

“Calma, Márcia, ela reconheceu o seu cheiro, as batidas do seu coração.”

Toquei aquele rostinho. Ela era macia. Tambores começaram a tocar uma dança africana nos meus ouvidos. Percebi que era meu coração que tinha subido e bombeava dentro do meu cérebro.

Ela é de verdade! Está viva! E é toda minha, pensei. Queria chorar de novo para aliviar um pouco toda aquela emoção, mas não conseguia. Aquilo tudo era muito maior que as lágrimas, muito maior que o riso. Não havia expressões humanas que pudessem alcançar aquele sentimento.

De repente, ela foi levada para observação e eu também teria de ficar até a anestesia passar. Estava exausta, como se tivesse corrido uma maratona e, ao mesmo tempo, estava tão cheia de energia que poderia encher sozinha um caminhão de entulho.

Fui levada para a tal sala de observação, o que é um nome totalmente impróprio para um lugar onde não fica ninguém realmente observando você. Tentei dormir mas não conseguia. Sozinha ali, me sentia uma caixa de presente. Eu fora aberta, tiraram a boneca de dentro de mim e eu, a caixa, fui colocada na área de serviço junto com as outras caixas nas macas ao meu lado. Demorou tanto que cheguei a pensar que tinham se esquecido de mim.

Quando a anestesia finalmente passou fui para a enfermaria. Não podia pagar um quarto particular então, teria que enfrentar aquela noite sozinha. Uma enfermeira trouxe Laura e ela estava ainda mais linda, sem a gosma e com o macacão branco do hospital. Elberth entrou e, naquele exato instante, pude ter uma ideia do tipo de pai que ele seria. Parecia que, a qualquer momento, ele se jogaria no chão e, fazendo reverências com os braços, num ritual de adoração, diria algo tipo:

“Oh! Grande Laura! Serei seu escravo por toda a eternidade! Uga! Uga!”
Em seguida chegaram minha sogra, minha mãe, meu pai, minhas irmãs Cláudia e Alessandra com minha sobrinha Vívian trazendo um vasinho de violetas. Todos em volta da cama, embevecidos, aquele ambiente familiar, de carinho, quente. O calor da cena foi abruptamente cortado por uma voz monocórdica.

“Por gentileza, vocês terão que sair agora, tá? Na enfermaria não se permite visita neste horário.”

Na hora me lembei do que tenho mais medo em hospital. Enfermeiras. Não tem meio termo, ou são anjos ou demônios. A capeta da enfermeira acabou com nosso momento família e, quando dei por mim, estava sozinha com minha filha na cama. Mas isto também só durou um segundo pois outra enfermeira entrou com um jeito dessas moças que trabalham em padaria, acostumadas a carregar cestos de pães quentinhos ou de recém nascidos.

“Dá tchau para a mamãe” ela disse para Laura.

“Para onde você vai levá-la?"

“Para o berçário, uai.”

“Espere! Se eu quiser posso ficar com ela a noite toda?”

“Pode! Mas eu não faria isto se fosse você.”

“Por que?”

“Esta vai ser sua última noite de sono por muitos anos. Depois, todas as noites serão tomando conta dela.”

“Toma ela aqui, pode levar.”

Por um momento me senti estranha, abandonando meu bebê. Como seria o tal berçário? Meu Deus! Me lembrei de mais uma história de terror da minha mãe! Ela dizia que as enfermeiras dopavam as crianças recém nascidas para que elas parassem de chorar e assim as enfermeiras diabo podiam tirar um cochilo. Será que fariam isto com minha filhinha? Tentei me levantar mas um cabinho balançou sob a coberta me dando sensações estranhas. O que é isto? Droga, estou com o dreno. Para sair daqui vou ter que carregar um saquinho de xixi. Não, é muita humilhação.
Fechei os olhos e tentei relaxar. Afinal, era minha última chance de dormir bem. Todo mundo sempre me falava isto durante a gravidez. “Aproveite para dormir tudo o que você puder por que, depois, serão noites e noites em claro.” Como se fosse possível acumular horas de sono para usar depois.

Então, vamos dormir. O que será que a Laura está fazendo lá embaixo? Meu Deus, eu pari! Eu sou mãe! O Elberth é pai! Que alegria, que emoção. Parece uma coisa brega de novela mexicana mas estou num carrossel de emoções! É isto! Um carrossel de emoções girando, girando... Pare! Socorro! Eu quero descer da droga de carrossel de emoções! Por favor, Nossa Senhora, faça minha cabeça parar de pensar. Eu aqui sozinha, ninguém para conversar comigo, para me abraçar, eu acabei de parir, porra!

Finalmente chorei. Porque aquela tristeza toda? Coloquei as duas mãos na barriga. Ela não estava mais ali. Estava sozinha. Dormi.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

O parto

“Há quanto tempo o seu bebê não se mexe?”

“Tem uns três dias. Mas isto é normal, não é doutor? Quer dizer, agora ela está grande que não tem mais espaço para ficar se revirando dentro da minha barriga, não é?”
“Humm...”

A última coisa que você quer ouvir de um médico durante um exame é “humm...” pronunciado no mesmo tom de voz que ele usaria para dizer: puta merda. Minha respiração parou. É verdade que a bebê andava quieta ultimamente, muito diferente do seu comportamento usual. A primeira vez que ela se mexeu na minha barriga foi como uma onda tão suave que fiquei na dúvida se era minha imaginação. À medida que foi crescendo, não havia mais dúvidas: Laura se mexia, pulava corda, subia escadas e praticava karatê, tudo dentro da minha barriga e, de preferência, à noite. Numa destas noites, enquanto Laura transplantava meu rim direito para o lado esquerdo, reclamei com meu marido que ela não me deixava dormir. Confuso de sono, ele ergueu a cabeça e gritou para minha barriga:

“Laura, vá para o seu quarto dormir agora!”

Coitado. Dê descontos para todas as maluquices do seu marido a partir do 7º mês. Mas ele terá que dar vários descontos para você também.

No final da gravidez você tem dificuldades até para respirar. O bebê ocupa todos os espaços aos quais tem direito e os que não tem direito também, como um pezinho entre suas costelas, por exemplo. Por isto, quando o bebê fica mais quieto, é um alívio. Mas quando Laura ficou imóvel, o terror tomou conta de mim. O médico (ou o cara que faz o ultrassom é só um técnico? Nunca soube direito) que me examinava começou a bater forte com o aparelho na minha barriga lambuzada de gel. Ergui a cabeça um pouco assustada e indignada. A atitude dele não parecia muito científica, ele batia e tornava a deslizar o aparelho pela minha barriga, olhando preocupado o monitor. Gelei quando entendi que ele estava batendo para ver se o bebê reagia.

“Então, está tudo bem com o bebê, não é?”

“Quando foi que sua bolsa estourou?”

“Bolsa?”

“Seu bebê não está se mexendo e não tem mais líquido suficiente para para respirar por mais tempo e...”

“O QUÊ?!”

“A senhora não sentiu a perda do líquido? Talvez tenha sido no banho... O bebê tem que ser retirado rápido.”

“O QUÊ?!”

“Olha, pegue o resultado e vá na sua médica agora.”

“Devo ficar preocupada?”

“Nãããooo...”

Você também não quer ouvir um médico dizer “Nãããooo...” no mesmo tom que ele diria: fudeu. Fui direto para o consultório da amiga da Dra. Suzana, que estava doente, e esperei que a secretária mostrasse o resultado do exame para ela. Após alguns minutos, a secretária retorna.

“A doutora disse que o parto será hoje.”

“Que parto?”

“O seu, ué!”

“Como assim? Eu não estou pronta! O quarto não está arrumado, não fiz depilação, não comprei a camisola nova, não fiz a malinha da recém nascida, não fiz as unha...”

“Você pode não estar pronta, mas o seu bebê está” disse ela simpática. Desejei esbofeteá-la.

Minha irmã ao meu lado estava extasiada. Lógico, não era ela quem teria a barriga cortada de um lado ao outro. Eu, por outro lado, estava à beira do histerismo, uma mistura de felicidade insuportável com um terror esfuziante. Liguei para meu marido.

“Oi amor, que tal termos o bebê agora?”

“Essa é boa. O que a médica disse?”

“Vou repetir: a-go-ra!”

“Mas o quarto, a malinha...”

“Eu sei que não estamos prontos mas parece que agora outra pessoa vai decidir nossas vidas: o bebê.”

Mal sabia eu o quanto de verdade havia nestas palavras. De uma hora para a outra, estava sentada na maca da sala de parto. De repente, as enfermeiras saíram para buscar alguma coisa e me vi sozinha. Coloquei a mão na barriga e só então me dei conta: dentro de alguns minutos, nós duas seríamos separadas. Eu era o ar que ela respirava, sentia cada movimento de seu corpinho. A tranquilidade de estar sempre com ela, suprindo todas as suas necessidades, aquecendo-a, embalando-a, tudo isto seria cortado em instantes. Dentro de mim, ela estava protegida. O que aconteceria quando estivesse do lado de fora?

Me senti sozinha e com medo. Será que eu seria capaz de ser uma boa mãe? Meu Deus, de onde foi que eu tirei esta idéia louca? E se eu fosse uma mãe totalmente neurótica? Que bobagem me preocupar com isto, é lógico que serei uma mãe neurótica. Mas e se eu não tiver dinheiro o suficiente para o curso de inglês, o balé e a casa da Barbie?

Fechei os olhos e tentei normalizar minha respiração. Acariciei a barriga de novo e, pela primeira vez na vida, conversei com Nossa Senhora.

“Maria, mãe de Jesus, mãe das mães. Eu sei que nunca te procurei antes, sabe como é, o comum é falar com seu filho ou direto com o todo poderoso, eles dois são mais famosos e tal. É uma droga como os homens sempre pegam os melhores empregos... Enfim, Maria, a senhora que pariu Jesus sem a ajuda dos médicos ou anestesia, me ampare nesta hora. Ave Maria, cheia de graça. O senhor esteja convosco. Bendita sois vós entre as mulheres e bendito o fruto do vosso ventre: Jesus. Santa Maria, mãe de Jesus, rogai por nós pecadores, agora e na hora de nossa morte. Amém.”

Senti duas mãos segurando meus ombros e abri os olhos assustada, esperando ver talvez um anjo enviado por Maria. Foi mais ou menos assim. A dra. Suzana me segurava pelos ombros e depois me abraçou enquanto o anestesista aplicava a rack. Não posso mentir, é estranho, quase dor, mas se o médico segura você da forma certa, é o melhor possível.

“Dra. Suzana, achei que você não viria, está tão doente...”

“Acha que eu ia perder o seu parto?”

Quando o Elberth entrou, já haviam começado a cortar minha barriga. Nem tenho idéia da cena que ele viu, mas disfarçou bem, mantendo uma cara de paisagem até se aproximar de mim.

“Você está bem?”

“É esquisito, não sinto dor, mas sinto elas mexendo em mim.”

Ele começou a filmar e me arrependi de não ter feito uma maquiagem. Aliás, toda vez que assisto a esta filmagem tenho vontade de me bater. Amiga, depois dos 40 anos, você não tira nem uma foto sem uma boa maquiagem. Agora imagine eu lá deitada, paralisada da cintura para baixo, com um camisolão de hospital infame, aquela touca idiota no cabelo e ainda por cima, sem maquiagem.

Quando chegou a hora de retirar o bebê, tive uma revelação chocante! Sabe aquelas cenas no cinema onde o médico retira o bebê docemente e o ergue para a mamãe? Bom, misture isto com alguns elementos do filme “O Massacre da Serra Elétrica” e aí sim você terá um quadro mais real da cesariana. Não tem esta de retirar docemente o bebê do útero, ele é arrancado mesmo, na marra. Não podia ver nada mas sentia as duas médicas me balançando, como se tivessem agarrado a bebê pela cabeça e fosse sacudindo a coitada de um lado para o outro até desagarrar. Elberth olhava por cima da cortina de lençol.

“Ah! Tá nascendo. Ela é linda!”

Deitada de onde estava, toda anestesiada, aquela montanha de lençol verde em cima de mim, eu não podia participar de nada. Foi quando ouvi a vozinha dela pela primeira vez. Ela chorou e eu explodi em lágrimas junto. Meu peito parecia que ia estourar com as batidas do meu coração, doía e aliviava ao mesmo tempo. Tudo isso e eu ainda nem tinha visto o rostinho dela ainda.

“Feliz aniversário, Laura” disse dra. Suzana.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Calma, tudo isto é normal.

Eu nunca fui especial. Minha irmã Cláudia foi a primeira a nascer e continuou sendo a primeira em tudo. A pioneira em inventar brincadeiras, a primeira a ter um namorado, a aprender violão e a única a ser loura de olhos verdes. Simone era a mais meiga, mais ponderada, fazia musculação e comia salada por puro prazer, coisas que considero anormal. Alessandra era a caçulinha, a que ganhava todas as batatas fritas no almoço e, apesar desta dieta suicida, meus amigos se referiam a ela como “a sereia”.

Mas o que o que eu poderia dizer de mim mesma? Não há nenhuma característica principal em mim, a não ser o meu temperamento irascível. Na escola eu não era a pior aluna mas também não tirava 10. No serviço eu não era candidata à demissão mas também não era candidata à gerência. Filha do meio, estudante do meio, meio legal, meio chata. Invariavelmente, a pessoas me dizem “Conheço alguém igualzinha a você!”. Ou eu sou realmente sem graça ou deve haver uma centena de clones meus andando por aí.

De repente, tudo isto mudou! Finalmente eu era a atriz principal do filme, ganhadora do Oscar, desfilando no tapete vermelho de vestido Dolce e Gabbana enquanto flashes brilham por todos os lados. Eu não era mais a coadjuvante, meu nome aparecia em letreiros luminosos. Eu era a grávida! Por onde andava era recebida de modo especial. Fila? Nada disso, você tem prioridade. Buffet? Siva-se primeiro, querida. Com certeza uma das coisas mais inacreditáveis que já aconteceu em minha vida foi ver pessoas se levantarem no ônibus para eu me sentar. Eu já enfrentei empurrões e os truques mais baixos de estranhos na luta por um assento no ônibus. Mas, durante a gravidez, bastava entrar no transporte coletivo para oferecerem-me um lugar. Eu era a Paris Hilton do Nova Granada, a Lady Di do lotação 8205.

Carregar um bebê no ventre é carregar uma promessa. As pessoas não veem você, elas veem o sonho de um futuro melhor. Alguém que está sendo preparado bem ali naquela barriga e poderá fazer a diferença no mundo. Ou talvez esteja gravado na memória do nosso DNA, proteger os filhotes dos mastodontes e tiranossauros rex. Não sei os motivos, só sei que grávidas são seres especiais tratadas por todos como princesas encantadas. Aproveite pois, assim que o bebê nascer, você cairá de Cinderela à Gata Borralheira mais rápido que um raio.

Com a mesma rapidez, você também muda da sensação de ser especial para se sentir um ser de outro planeta. É que a gravidez provoca situações que você nunca imaginou viver. Um dia, no trabalho, fui desligar a máquina de xerox. Bastava se esgueirar no espaço entre a máquina e a parede para puxar a tomada. Assim que fiz o movimento, uma coisa me prensou contra a parede e eu fiquei esperneando como uma tartaruga entalada. Demorei para perceber que a “coisa” que me prendeu na parede era minha própria barriga.

Outro comportamento extraterrestre é que não conseguir parar de fazer xixi. Levantava a noite inteira para fazer mais um xixizinho e volta e meia o bebê dava um chute na minha bexiga, só para lembra-me de quem mandava ali.

E as meias Kendall? O modelo “cor de pele” deve ser da cor da pele do ET porque nunca vi terráqueas naquela tonalidade. As meias são super-resistentes e dificílimas de esticar. E você tem de vesti-las deitada, lutando para alcançar seu pé levantado no ar e entre você e seu pé tem um bebê de dois quilos. No final você está tão suada que tem de tirar as meias e tomar um banho.

Mesmo com a ajuda das meias, no final da gravidez era impossível evitar que meus tornozelos e pés ficassem inchados e assados como dois panetones. Meu marido, também conhecido como “tudo de bom”, colocava garrafas de refrigerante pet com água na geladeira. À noite, ele enchia um balde com litros de água gelada para eu mergulhar minhas pernas.

A cada mudança eu pensava: será que isto é normal? Ai, ai... Eu e meu eterno sonho de ser normal. Mais que isto, queria tirar nota 100 em maternidade. Eu planejava ser a mãe perfeita, a melhor do mundo, eu não iria errar nunca. Seria um modelo de virtude, sabedoria e paciência. Aliás, minha filha também seria superdotada, superbonita e superquieta. Iria falar, andar e aprender coisas antes de todos os outros bebês e as mamães no parquinho morreriam de inveja ou de tédio diante de tanta perfeição.

Se eu pudesse imaginar o quanto todos estes devaneios estariam longe da minha realidade agora... Mas enquanto eu não sabia disso, passava horas sonhando com a normalidade. Queria o bebê no peso ideal, que eu engordasse o mínimo, fosse 100% saudável, me tornasse a melhor vaca leiteira do berçário e todas as coisas idiotas que a gente sonha só para se sentir fracassada depois.

REGRA 10 – Normal é o que for melhor para você e para o bebê.

Eu li em algum lugar que o normal era engordar em torno de 9 quilos no máximo. O problema é que eu já me encontrava 7 quilos acima do ideal antes de engravidar o que me deixava uma folga de apenas 2 quilos. Eu até me saí bem nos primeiros sete meses. Até que um dia, recebi um telefonema do meu marido... Bom, este telefonema é complicado, depois falaremos disto, mas o fato é que fiquei tão deprimida que passei a fazer a única coisa que me acalmava: comer chocolate. Engordei nos últimos dois meses quase o que engordei nos sete primeiros, uma beleza! Mas afinal, ninguém engravida para emagrecer, então entenda que isto é normal.

Eu achava que bastaria acalentar a criança em meu peito e ela docemente sugaria o mamilo de onde jorraria o leite da vida, tudo isto enquanto tocava ao fundo a Cantata 140 de Bach. Nem sei porque fantasiava sobre isto pois é claro que já tinha ouvido mais uma história de terror da minha mãe, que teve seu bico do seio quase arrancado pela minha irmã e, louca de dor, jogou o bebê na cama. Minhas duas outras irmãs, apesar de adorarem amamentar, também cumpriram sua missão de espalhar o medo entre as virgens com histórias sobre como seus filhos bebiam leite com sangue pois os mamilos ficavam em carne viva. Legal, né?

Meus mamilos sempre foram do tipo tímido, sabe, meio escondidos. Não eram como estes mamilos atrevidos que tentam furar blusas. Então comecei uma verdadeira cruzada para tornar meus mamilos prontos para a hora da amamentação, fazendo topless na área do apartamento, usando blusa sem sutiã e esfregando violentamente bucha vegetal nos pobres coitados. Enquanto eles não começaram a sangrar não fiquei satisfeita. Dra. Suzana ficou horrorizada quando soube. “Eu disse para passar a bucha não arrancar a pele.”

No final das contas, é assim: amamentar é um aprendizado, para você e para o bebê também. Tem truques sobre como segurar o mamilo, posicionar o recém nascido do jeito certo, isto tudo se aprende. Ao tentar amamentar a primeira vez, evite platéias que deixem você ansiosa. Saiba que vai doer, vai sangrar e vai ser uma das coisas mais maravilhosas da sua vida. E pode não acontecer também. Minha amiga Vânia tentou de todo jeito mas não conseguiu amamentar e sentia um certo preconceito das pessoas em relação a ela. Mas não amamentar também é normal.

Com certeza, a maior meta de todas é o parto normal. Eu não vou mentir, queria uma cesariana, me parecia muito mais civilizado. Mas com a Dra. Suzana é assim: os verdadeiros ginecologistas só fazem parto normal.

“Mas doutora, e se eu precisar de uma cesariana?”

“Márcia, a tentativa deve ser sempre pelo parto através da vagina. Mas se o melhor para você e seu bebê for uma cesariana, mesmo assim será um parto normal. Será uma cesariana normal.”

Mesmo com todo o apoio da Dra. Suzana, eu tinha muito medo do parto. Tenho certeza que, pela minha médica, a gente podia muito bem estender uma toalha no Parque Municipal e parir de cócoras ao som dos pássaros. Dra. Suzana gosta das coisas o mais natural possível. Mas eu tinha medo de ter que passar por uma situação que fosse maior que as minhas forças. E, sabe, não dá pra desistir no meio do parto. Então, respirei fundo e conversei com Deus:

“Deus, olha só, eu quero ser a melhor mãe do mundo. Então, vou tomar a decisão certa, que é o parto normal porque foi como o Senhor criou a humanidade. Longe de mim criticar sua criação, mas sabe que eu sou mais sensível, eu sinto mais dor que os outros mortais, o Senhor me criou assim, né? Então, eu estou morrendo de medo mas que seja feita a sua vontade, farei o parto normal se o Senhor achar que eu posso suportar essa coisa toda, eu me curvo, amém.”

Deus é sábio. Laura nasceu de cesariana. Normal.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

O quarto do bebê

Meu marido chegou carregado de sacolas em pleno domingo de manhã e isto nunca havia acontecido antes.

“Onde você se meteu? Eu já estava procurando o telefone do necrotério...”

“Querida, advinha o que eu fiz!” ele perguntou todo excitado, sacudindo as sacolas.

“Assaltou uma loja?”

“Comprei o jogo de berço do bebê na feira de artesanato.”

“O QUÊ? Sem me consultar?”

“A gente combinou lilás, não é? Escolhi o tema de bonequinha para a roupa de cama e para os protetores. Sabe o que é um protetor? Uma espuma que fica...”

“Eu sei” disse seca, sem saber com certeza do que se tratava.

“Pois é, eu tive que comprar pois eles são iguais à cortina que eu encomendei.”

“Você já encomendou a cortina?”

“E você acredita que o papel de parede também tem desenho de bonequinha? Coincidência, né?”

Foi a primeira vez que senti ciúme do meu marido. Havia uma outra mulher entre nós. O ciúme de dividir o homem que sempre tinha sido só meu ainda ia ficar muito pior antes de melhorar, mas esta é uma história para se contar depois.

Como já disse, se é para a felicidade da nossa filha, meu marido, tão machão, virava decorador especialista em babados e fitas, comprador de bonecas e de DVDs da Xuxa. Abri as sacolas pronta para criticar suas escolhas mas ele havia escolhido coisas fofas, de muito bom gosto para o quarto lilás. E o mais importante: sem gastar uma fortuna.

REGRA 9 – Não gaste muito no “quarto do bebê”, por que logo logo, seu filho não é mais bebê e você terá que redecorar.

  • Mobília: você pode fazer um negócio da China comprando de segunda mão. Estando em excelente estado, tudo sai pela metade do preço e você só gasta com um colchão novo.
    Apetrechos: não vá enchendo de bobagem só porque é moda, avalie o que é necessário. Procure feiras de artesanato.
  • Algumas coisas perdem logo a utilidade como a banheira para recém nascido com fundo de plástico mole. Melhor banheirinha comum e comprar uma espuma para apoiar o bebê.
  • Lembra do Clube das Mamães? É hora de colocar para funcionar de novo. Fiquei mais de um ano sem comprar roupa de cama (melhor, de berço) com os empréstimos que consegui do Clube de Mamães.
    Roupas usadas para o bebê também são uma mão na roda. Algumas pessoas da família torceram o nariz para esta minha idéia. “Credo, sua única filha e você coloca roupa usada, coitada da menina.” Gente, roupa usada de bebê recém nascido não é roupa gasta e com cheiro de cecê porque o recém nascido não anda, ele simplesmente não faz nada, então a roupa continua nova. Várias roupas a Laura usou uma ou, no máximo, duas vezes. Olha que investimento de alto risco.

É isso, aproveite os usados da família e do Clube das Mamães. E, enquanto seu bebê for crescendo, vá doando tudo! Guarde só uma coisinha ou outra de lembrança, o resto doe ou empreste. É um jeito de retribuir toda a ajuda que você recebeu.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Crendices e mandingas

O sonho da minha mãe era ter um filho homem. Naquele tempo não havia ultrassom e o jeito era ficar torcendo para o bebê ser do sexo esperado ou confiar nas premonições de alguma tia metida a paranormal. No caso da minha mãe, a torcida não deu em nada, ou melhor, deu em 4 meninas. Hoje, neste admirável mundo novo, o ultrassom 3D é capaz de mostrar até as feições do feto. Mas, por mais que a ciência avance, o mistério da criação será sempre alvo de todo o tipo de premonição, simpatia e crendices.

Se cair um garfo, vai ser menino. Se sua barriga está redonda e não pontuda, menina na certa. Se o tatatataravó tinha olhos azuis, começam as apostas se o bebê vai “puxar” o antepassado. Se a grávida tem vontade de comer jaca, melhor encontrar uma rápido para o bebê não nascer com a cara amarela e cheia de espetinhos. Se você tem azia é porque o bebê é cabeludo. Essa deve valer para comunistas que comem criancinhas pois para dar azia a criança tem que estar no seu estômago, não no útero.

Com certeza a mais bizarra é a recomendação de que a grávida pode encher a cara de cerveja preta para ter bastante leite. As vacas iriam adorar este tratamento, ficando doidonas pela fazenda, trocando as patas e dando mugidos bêbados. Já os Alcoólicos Anônimos podem não aprovar.

E a tal canja de galinha gorda para mulheres recém-paridas? Como se a gente já não estivesse gorda o suficiente depois de uma gravidez. Agora, o resguardo é sério, é bom você e seu marido respeitarem. Não que você esteja louca de tesão depois da maratona parto, pontos para todo lado, amamentação e noites insones. Na verdade, o resguardo é uma benção.

Algumas pessoas olham sua barriga e dizem que está baixa demais, vai nascer já, já. Cinco minutos depois alguém comenta que está alta demais ou está para a esquerda demais ou pontuda demais. Você começa a pirar: “será que tem algo errado?”

REGRA 8 – Informe-se.

Busque informações sérias para se preparar para as mudanças que você vai passar neste período. Só acesse na internet sites recomendados. E existe uma infinidade de livros, matérias de jornal, livretos, folhetos. Mas, cuidado! Se você for do signo de virgem pode não resistir à tentação de juntar tanto material que seria preciso os 22 meses de gestação de um elefante para ler tudo. Só de Pais & Filhos eu tinha o suficiente para montar uma banca de revista.

Todo final de semana me deitava semi-nua na área do apartamento (sabe como é, sol nos seios prepara para a amamentação, sei lá se é científico mas eu fazia) e lia horas e horas até ficar mais sabida ou mais morena, o que acontecesse primeiro. Meu marido ficava fulo da vida.

“Ah, não! Outra vez tomando sol pelada?”

“Eu estou de calcinha.”

“Os vizinhos devem estar adorando ver como os seus seios cresceram. E essa barriga no sol? Você vai cozinhar a nossa filha.”

É verdade que ela nasceu moreninha mesmo, mas já disse que o apelido do meu marido é “negão”? Então, a culpa não pode ser só minha.

O lado bom de se informar é se preparar para as mudanças no nosso organismo e não se assustar à toa. Por exemplo, grávidas têm prisão de ventre. Só que eu já tinha antes de engravidar então meu caso se tornou algo como prisão de segurança máxima para intestinos. A parte divertida é que as grávida não podem ficar sem ir ao banheiro mas também não podem tomar lactopurga. Nem adiantava virem com suco de laranja, mamão ou granola para o meu lado. Meu caso exigia artilharia pesada, chame o Roto Rooter!

Nunca acreditei em coisas muito naturais, só me sinto segura mesmo com comprimidos de tarja preta ou injeção na veia. Esse negócio de florais de Bach é coisa de hiponga. Mas lá estava eu, sem nenhuma outra opção além de um chá de ervas chamado Folículo Sene. A médica recomendou 3 a 4 folhinhas, então coloquei logo umas 10 na xícara. Não conheci a dor do parto mas com certeza eu tive um gostinho do sofrimento quando o tal chá fez efeito. Me retorci de cólicas!

Reduzi o número de folhinhas mas mesmo assim era diarréia todo dia, até no horário do serviço. Para não matar as mulheres da empresa asfixiadas, resolvi queimar incensos no banheiro. Um dia, estou queimando meu incensozinho dentro do reservado quando entram duas colegas.

“Sente este cheiro.”

“É esquisito, parece erva aromática mas tem uma coisa ruim misturada.”

“Eu disse para você que tem uma mulher fumando maconha aqui.”

“Shhh! Olha a fumacinha saindo debaixo daquela porta alí, ó.”

Ouvi risadas abafadas enquanto elas saiam do banheiro. Dei um tempo antes de sair também mas as duas estavam do lado de fora para flagar a meliante. Ao me reconhecerem e vendo minha barrigona, afastaram-se horrorizadas. Deixei por isto mesmo. Preferi a fama de grávida maconheira à de cagona.

Também fiz um curso preparatório no hospital Mater Dei. Médicos falaram sobre amamentação, primeiros cuidados com o recém nascido e os exames mais modernos. Foi legal encontrar um bando de grávidas, todas ansiosas como eu e algumas quarentonas também. Vi muitas mulheres sozinhas e me senti feliz por ter meu marido ao meu lado. Aliás, ele estava tão grávido quanto eu, todo ansioso e comendo mais. Até arriscando sua masculinidade em conversas como “O quarto vai ser rosa ou lilás? Não, rosa é muito cliché, melhor o lilás”. Desconfio que ele teve enjoos no meu lugar pois eu mesma nunca tive nenhum.

Mas voltemos às palestras. Teve um médico do qual eu me lembro bem:

“Agora a moda é ficar falando para vocês grávidas fazerem o parto humanizado. Mas o que é isso? Se não é parto de cadela, de vaca, se é de ser humano então é parto humanizado. Dizem que o natural é sem anestesia. Se você quer, tudo bem, mas tomar anestesia não quer dizer que seu parto vai ser menos humano ou menos natural. A anestesia ajudará você a vivenciar melhor a emoção, a alegria da chegada do bebê. Engraçado é que ninguém fala em cirurgia ortopédica natural, né? Quer cortar o joelho sem anestesia? “

Apoiado! Eu quero a anestesia. Quero a dose máxima. E uma taça de champanhe, afinal é uma celebração. E um lexotan também, pois é muita emoção. Mas acho que a dra. Suzana não vai concordar com esta parte.

Sai do curso me sentindo pronta. Esta é uma ótima sensação já que a gente passa todo o tempo carregando incertezas na barriga junto com o bebê. Traz uma sensação de alívio. É fato que, quanto tudo acontece de verdade, descobre que não sabe nada, nenhum curso prepara você para a realidade de ter o seu bebê nos braços. Mas é uma ilusão bem reconfortante na hora. Porque, ser mãe, é exatamente isso, fazer uma coisa para a qual ninguém nunca está pronta mas quando você percebe, já está fazendo. Ou seja, é como a vida mesmo.

Imagino se, além desse curso, não deveria haver outro, de como ser paciente, amável, disciplinada, determinada mesmo depois de 8 horas de trabalho mais 3 horas de trânsito. Um teste para saber se você é equilibrada o suficiente para ter o direito de ser mãe. Não. Talvez seja melhor que não exista este teste. Com certeza eu não passaria.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

No trabalho

“Se até os 30 anos você não conquistar um cargo de gerência, uma casa própria e um carro zero km, pode desistir porque não consegue mais.”

Olhei assustada para minha colega de trabalho, perguntando:

“De onde você tirou isto?”

“É o que as pessoas dizem, né?”

Um calafrio percorreu a minha espinha. Senti que estava condenada. Não sou gerente, não quitei meu apartamento e meu carro é um Fiat Uno 1996 caindo aos pedaços. Na época ele foi um excelente negócio. Carro de mulher, única dona e, para sorte minha, a tal antiga proprietária tinha morrido logo depois de comprá-lo, por isto estava tão conservado! Até dei a ele o apelido de “Precioso”. Hoje em dia a gente quase precisa colar a porta com esparadrapo. Enfim, se um dos quesitos para avaliar o meu sucesso levar em conta meu automóvel, estou ferrada.

Nem sei porque estou me preocupando com isso. “As pessoas dizem” que só é possível se alcançar o sucesso até os 30, então meu prazo se esgotou há 10 anos. Sou uma fracassada. Nem preciso me levantar mais da cama. Se o mercado de trabalho só se interessa por pessoas até 30 anos, o que uma mulher de 40 anos com um bebê no colo pode esperar?

“Boa tarde, Dona Márcia. Faça o favor de desocupar a sua mesa pois quem vai se sentar aí agora é o Rogério. Além de ser homem, ele tem apenas 25 anos, se dedica totalmente à empresa durante o dia e, à noite, faz MBA em Marketing enquanto a senhora troca fraldas. Por gentileza, deite-se aqui neste caixão e aguarde que já começaremos o funeral em memória da sua vida profissional.”

Eu já fui um Rogério. Minha vida era a minha carreira. Há dois anos, isto mudou. Antes eu podia me entregar de corpo e alma, chegava cedo e era uma das últimas a deixar o escritório. A casa era apenas um lugar para dormir. Minha dedicação fazia com que chefes sempre me solicitassem para grupos de trabalho, participar de cursos especializados e eventos mais importantes. Mesmo em uma empresa tão grande quanto a que trabalho, logo meu nome se tornou conhecido e comecei a sonhar que eu poderia estar chegando perto de conquistar meu lugar ao sol, quem sabe uma subgerência?

O tempo foi passando e a promoção não veio. De repente, eu estava com quase 40 anos e ainda por cima grávida! Como iria ficar a minha carreira? Não sabia se teria o mesmo tempo para me dedicar ao trabalho como antes. Não apenas tempo, mas energia física e mental para manter o nível de profissionalismo que sempre esteve em 1º lugar na minha vida. Quer saber a resposta? Não. Pode se descabelar, a resposta é não. Você não vai ter o mesmo tempo nem a mesma energia de antes.

Quando comecei a temer isto, fiquei sem saber como contar ao meu gerente que estava grávida. Afinal, ele era um homem eficiente e muito exigente. Diante deste medo, tomei a única decisão madura: fingi que não estava grávida. Resolvi não contar nada para ele. Sempre fui gorda, ele poderia pensar que minha barriga crescendo era mais um dos meus ataques a confeitarias, já famosos até no recinto de trabalho. O plano teria dado certo se uma coisa não fosse maior que minha barriga: a minha língua!

Fui contando cada hora para um grupinho, tudo no maior sigilo, até que chegou no ouvido do gerente. Ele foi supergentil comigo mas acho que ficou um pouco decepcionado por ser o último a saber e eu me senti uma idiota.

REGRA 7 – Sua vida profissional não acabou mas também não será mais a mesma. Quanto mais rápido entender isto, mais rápido vai se adaptar.

Os primeiros dois ou três anos de um ser humano são cruciais. Pense que você acabou de chegar neste planeta, não anda, não fala, nem sequer se senta sozinho. Caramba, seu bebê exige dedicação, então dê esta dedicação! Você ainda vai ter tempo para voltar a viver para o trabalho mas nunca mais poderá ser 100%. Você fechou um contrato com Deus. Aceitou receber uma criança para amar, orientar, alimentar, ensinar tudo a este bebê e aprender ainda mais com ele. Então, dedique-se, este é com certeza o trabalho mais importante que você vai ter na vida. Mesmo que, por causa dele, você nunca seja a gerente, passe o resto dos seus anos pagando o financiamento da casa própria e passeando num Fiat Uno 1996.

Alguma coisa me diz que, quando você morrer, ao encontrar São Pedro na porta do céu e ele olhar sua ficha (para decidir se você entra ou desce para o inferno) você não vai ouvir ele perguntando:

“Vejamos... Como foi que você se saiu na preparação dos relatórios de vendas dos produtos mais rentáveis da empresa?”

Mas posso imaginar São Pedro perguntando:

“Como você cuidou da pequena alma que Deus lhe confiou?”