- Vai dar tudo certo – disse minha irmã segurando minha mão.
Mas em seus olhos eu via a mesma preocupação que havia no meu coração. Contemplei Laura. Ela não parecia doente, mas no fundo sabia que havia algo de errado. A porta se abriu e uma médica muito bonita de cabelos castanhos entrou com seu jaleco ainda mais branco que as paredes do quarto. Ela segurava um envelope, o resultado dos exames com certeza. Senti meu pulso se acelerar enquanto ela se sentava ao meu lado. O que mais me aterrorizava era a tranquilidade cuidadosamente estampada em seu rosto. Ela deu um sorriso triste.
- Ela está bem, doutora? - perguntei com o coração aos pulos.
A médica sustentou o sorriso e ergueu a mão para afagar meus cabelos.
- Ah, Márcia! Você já sabe o que eu vou dizer, não é?
A dor se espalhou em meu peito e as lágrimas caíram queimando como fogo. Queria gritar mas o som não saía. Finalmente acordei ofegante, sentando-me na cama de um salto. Mesmo percebendo que tudo não passara de um pesadelo, eu continuava a chorar de verdade. Pulei da cama e corri para o quarto ao lado, no escuro mesmo. Não era coisa difícil de se fazer, na verdade bastava dar seis passos para chegar da cama no meu quarto até o berço no quarto do bebê. Esses apartamentos de hoje em dia...
Me inclinei sobre a grade do berço e, com dificuldade, reconheci a minúscula silhueta deitada de lado, presa entre os rolinhos de espuma e as almofadas. Tinha pavor das histórias macabras de bebês que rolam de bruços e se sufocam ou ficam de costas e se engasgam. Por isto, mantinha minha bebezinha como uma verdadeira mumiazinha, imobilizada no centro do berço.
Ela parecia estar bem, mas como ter certeza? Não conseguia ouvi-la ressonando. Ascender a luz, nem pensar! E se ela acorda? Eu já havia me levantado quatro vezes só naquela noite. Uma para trocar fralda e as outras três para correr até o berço e confirmar se o gemido que havia ouvido não era nada sério. Eram pequenos gemidinhos e sussurros que soavam alto em meus ouvidos porque eu mantinha a babá eletrônica, emprestada por minha irmã Alessandra, ligada no último volume, bem ao lado do meu travesseiro. Mas precisava ter certeza de que ela estava dormindo e não morta. Coloquei a mão delicadamente em sua barriguinha, mas não senti qualquer movimento. Dei uma cutucada de leve. Nada. Mais um cutucão e outra vez, nada. Parti para uma sacudidela mesmo e finalmente ela gemeu. Graças a Deus! Ela está viva! A cada dia que passava, eu e meu marido costumávamos dizer uma para o outro:
- Tudo bem! Até agora não matamos o bebê.
Ela estava se revelando uma criança realmente forte, sobrevivendo aos nossos cuidados. O último bebê de que cuidara afora minha sobrinha Vívian de 11 anos e Elberth jamais cuidou de nenhum. Mesmo assim, às vezes ele se saía melhor que eu.
Ok! Então, ela está viva e eu preciso voltar para a cama. Deus, como estou com sono, pensei enquanto me enfiava debaixo das cobertas. Relaxei o corpo e estava tão cansada que me senti caindo no sono quase imediatamente. De repente, um som alto me despertou de forma brusca e assustadora. Como se minha alma, que havia começado a flutuar docemente nos braços de Orfeu, tivesse sido violentamente puxada para baixo e socada à força para dentro do meu corpo. Abri os olhos, tentando entender o que acontecia. Laura chorava, aquele chorinho doce e terrível dos bebês bem pequenos. Saí da cama e a tontura me atingiu de imediato, fazendo parecer que os seis passos que precisava dar até o berço eram na verdade quarenta. O pequeno bebezinho chorava com os olhinhos fechados, mexendo a cabeça e com os punhos dando soquinhos no ar.
Chegou a hora de ir pra balada!
Isso aí, DJ, coloca o som no máximo que vai começar o show desta noite. Sacode o esqueleto e se espreguiça que a balada de hoje está só começando. Primeiro, ascenda o abajur. Depois, abra suas asas, solte suas feras e abra também a fralda que tem cocô para limpar. Nessas primeiras semanas, toda fralda tem cocô para limpar. Uhu! Yes baby! Limpe bem mas sem machucar, nunca imaginei uma pererequinha muito menos um cuzinho tão pequenininhos; como podiam fazer tanta sujeira?
Continua a balada. Você está procurando agito? Uma companhia para passar a noite toda acordada com você, sem descanso? Então, tenha um bebê. Toda noite é uma boate na sua casa, com som alto (choro), muito agito (você balançando o neném pelo apartamento afora) e a maior ressaca na manhã seguinte (de sono).
Vamos lá, galera, vai começar o strip tease! Equilibre o bebê nas coxas enquanto desabotoa o pijama, o sutiãn e jogue o peitão para fora. Madame, seu drink está pronto. No começo, os bicos dos seios ainda estavam muito machucados e quando Laura dava aquela sugada inicial, meus olhos se enchiam de lágrimas. Eu a amo, eu a amo – era meu mantra especial destes momentos, pois a vontade era realmente jogá-la do outro lado da sala. Mas aos poucos a sensação ficava agradável, pelo menos nos primeiros vinte minutos. Este era o plano da balada noturna:
20 minutos em um peito;
05 minutos arrotando;
20 minutos no outro peito;
15 minutos no arroto final.
Daria uma hora certinho se minha nenenzinha não caísse no sono a cada 5 minutos. Quando ia fazê-la arrotar entre um peito e outro, aí era ainda mais difícil mantê-la acordada. Não adiantava aproveitar para colocá-la no berço, se ela não estivesse com o pandú cheio, acordaria de novo em pouco tempo. O negócio era conseguir que ela ficasse acesa para encher o tanque.
De toda a balada, para mim duas partes eram as piores. A primeira era quando eu era acordada no meio da noite, ou de um sono profundo ou daquele comecinho de sono. Isto e me assustava, chegava a sentir dores no corpo. A outra coisa de que não gostava eram os tais quinze minutos finais, quando tinha que segurá-la em pé até que o perigo de refluxo passasse. No começo eu ficava lá, firme. Mas aí, começava a ouvir a voz do fantasma hipnotizador no meu ouvido.
- Você está ficando com sono... muito sono! Seus olhos estão ficando pesados... muito pesados. Eles estão se fechando, você não pode resistir ao comando de minha voz! Durma agora!
Às vezes eu só dava umas pescadinhas com os olhos. Outras vezes, acordava segundos antes de esmagar Laurinha com meu corpo, quase caindo com ela no chão. Então, adotei o método “caminhada noturna”. Eu passeava pelo apartamento todo com ela nos braços. Sala, cozinha, área, cozinha, sala, quarto do bebê, quarto da mamãe, sala... Quando chegava na cozinha era o pior pois via o relógio do microondas marcando as horas. A caminhada era no escuro e sozinha. Elberth não tinha o equipamento necessário para amamentá-la, então combinamos que eu ficaria sozinha todas as noites para ele dormir e poder trabalhar no dia seguinte. Eu sabia que era a escolha mais lógica a se fazer, mas não podia evitar de me sentir prejudicada, como se ele ficasse com a parte que eu mais queria de tudo: poder dormir à noite. Lembre-se, jurei dizer a verdade. Se espera ler o relato de uma mãe perfeita que se ajustou imediatamente aos sacrifícios da maternidade, é melhor mudar de blog. A coisa aqui vai ser reality show.
Às vezes cambaleava nas caminhadas noturnas, tão sonolenta estava. Quando finalmente eu checava no microondas se os 15 minutos mais longos da minha vida tinham acabado, era hora de colocar o bebê de volta no berço. Surpresa: Laura, que ficara caindo de sono o tempo todo na hora de mamar, agora estava acessa! Os olhinhos arregalados, me olhando entediada.
- E aí, mãe? O que vamos fazer agora? Estou de estômago muito cheio, não vou conseguir dormir.
-Laura, eu estou morrendo de cansaço, vamos dormir agora mesmo, ouviu?
- Não está passando aquele seriado da Maysa?
- Isto não é para a sua idade, filha, você só tem 7 dias de nascida...
- Liga lá, mãe. Aquele Mateus Solano é um gato!
- Se você já vai começar sua vida gostando de cafajeste, começou mau. Bom, tudo bem, é só um personagem.
Liguei a TV e assisti ao capítulo de pé, balançando o bebê, o som tão baixinho que acho que até aprendi a fazer leitura labial. Não era exatamente o melhor momento do meu dia – ou da minha noite. Primeiro, os pesadelos, depois a balada e, por último, ficar alí de pé, caindo de exaustão e ouvindo aquela mulher deprimida cantando “Meu Mundo Caiu”. É, acho que aquilo realmente não ajudou muito a evitar que eu acabasse ficando completamente louca.
Olá!
ResponderExcluirMeu nome é Naísa Modesto, trabalho na Ketchum Estratégia, uma agência de relações públicas. Tudo bem?
Gostaria muito de sugerir uma pauta para o seu blog. Para qual e-mail posso escrever? Meu contato é digital1@ketchum.com.br.
Obrigada!
Beijo,
Naísa