Sabe aquela boneca especial? Aquela que você arrastava para onde quer que fosse, era sua filhinha em todas as brincadeiras, tinha o nome que você gostaria de dar a um bebê de verdade? Pois é, eu não tive essa boneca. Veja bem, não é porque éramos pobres. Pensando bem, era por isto também. Mas para piorar, como terceira filha, eu não tinha realmente muito prestígio. Lembro-me de Cláudia e Simone terem brinquedos mais legais que os meus. Um dos brinquedos que eu cobiçava eram as duas cozinhas de latão esmaltadas de branco e vermelho com janelinhas de acrílico amarelo que se abriam e fechavam. Mas com certeza, o supra sumo do meu delírio de consumo eram as bonecas Susie (prima pobre da Barbie). A Simone tinha uma Susie loura, com cara do boboca e olhos arredondados. Mas a Susie da Cláudia era algo totalmente inesperado. Moreníssima, numa época em que nem se pensava em bonecas politicamente corretas, e com um cabelo arruivado que formava cachos nas pontas. Um olhar misterioso, linda de morrer.
Acho que meus pais pensavam que eu não precisava de bonecas já que podia pedir emprestado as das duas irmãs mais velhas. Entretanto, acho que nem o Papa conseguiria que Cláudia emprestasse a ele a Susie para ele. Então, eu estava sempre cobiçando a boneca da próxima.
A única boneca da minha infância digna de nota era uma destas que não se parecem bebês, mas sim adultos menores. Seu nome era Rita e ela era loura mas seu cabelo era tão feio que um dia passei a tesoura neles. Pensei que cresceriam melhores... Rita não me inspirava nenhuma ternura de mãe.
Para a tragédia infantil minha e de minhas três irmãs, éramos vizinhas de quatro meninas ricas. Elas possuíam bonecas de todo jeito, inclusive importadas, de dar corda embaixo, que se mexiam lentamente de um lado para o outro enquanto tocava uma caixinha de música. As Susies delas eram repletas de roupinhas que a empregada costurava, com detalhes chocantes como botões e paetês. Lembrem-se, eram os anos 70, não se encontrava roupas prontas de boneca para vender.
Mas toda turma de criança tem um líder, e no nosso caso, a líder das brincadeiras nossas e das vizinhas era Cláudia. Minha irmã tinha um carisma magnético, ela simplesmente mandava e todos obedeciam. Moderna, destemida, ela não gostava de brincadeiras pré-definidas. O negócio dela era inventar. Brincar de espiãs, interpretar personagens como bruxas e fadas, vestir as roupas da mamãe e passar maquiagem e até mesmo fingir que éramos As Panteras ou A Mulher Biônica por um dia. Então, este negócio de casinha, mamãe e filhinha não era muito a nossa praia. Eu queria mesmo era ser detetive ou ser A Feiticeira quando crescesse.
Quando vivemos tempos de vacas mais gordas lá em casa, ganhei pela primeira vez ganhei uma boneca realmente fofa! Parecia um bebê! Seu nome era Cosquinha, e com a ajuda de pilhas ela ria por alguns segundos uma risadinha tão deliciosa que dava vontade de abraçá-la. O único problema é que, como demorei muito para ganhar este bebê, eu já estava velha demais para brincar de boneca.
Engraçado como a vida gira em círculos. Eu também ganhei o meu bebê de verdade quando já estava velha demais para passar noites em claro sem me sentir um caco no dia seguinte. Já estava meio enferrujada para atravessar a maratona levanta de madrugada, amamenta, troca fralda, dá banho, mede temperatura, troca fralda, embala neném, ferve bico, troca fralda... Ufa!
Ser mãe aos 40 faz com que você se sinta uma menina de 20 anos! Carregando o bebê nos braços, você parece mais bonita. Amamentar no peito faz você acreditar que seu corpo é capaz de muitas outras proezas como dar cambalhotas. Tudo é novidade, cada dia é um desafio emocionante, uma aventura! Acima de tudo, ter um bebê é a grande sensação de estar começando a sua vida, de ter todos os seus sonhos ainda por realizar bem na sua frente!
Mas ser mãe aos 40 também faz com que você se sinta uma senhora de 70 anos! Seu peito cai, seu rosto cai, sua bunda cai. Você não tem energia para levantar uma caixa de fósforo. Tudo é novidade, ou seja, você está sempre insegura e cada dia é mais maluco que o outro. Além disso, ter um bebê é a grande sensação de que sua juventude acabou, agora vai começar a história de outra pessoa: a do seu filho. Sua história já era! Suas músicas são antiquadas e você não tem a menor idéia de quem é Fiuk. Pintar os cabelos não é uma questão de mudar o visual, é uma obrigação para se cobrir os brancos. Maquiagem não é uma opção, é uma necessidade para não assustar as outras pessoas.
Deixando esta questão “deprê” de lado (abreviar depressão é um hábito dos anos 80! Olha eu entregando minha idade de novo), vamos ao que interessa – prepare-se para brincar de casinha!
A não ser que você já tenha sido uma dona de casa de verdade, coisa que nunca fui, os 6 meses de licença maternidade são o vislumbre de um mundo novo no qual eu jamais havia adentrado. Para você ter uma idéia, nunca tinha usado as xícaras de café na mesa e nem sabia cozinhar outra coisa que não fosse a sopa de repolho para fazer dieta. Mas agora sua vida social será mais intensa que a da Paris Hilton! Você receberá visitas todos os dias. Pelo menos umas 4 por dia. Se estiver cansada, com olheiras de noites e noites sem pregar os olhos, com dor nas costas pela posição da amamentação e com seu cabelo ainda sem tintura, problema seu! Existem familiares, amigos, vizinhos, conhecidos e desconhecidos que precisam ver o seu bebê! E não apenas ver o seu bebê, mas tomar o seu café, comer os seus biscoitos, visitar todos os cômodos do seu apartamento e então finalmente partir deixando um rastro de xícaras sujas atrás de si. Você deve recebê-los com sorriso nos lábios pintados de batom, de preferência. Providencie que o bebê esteja limpo e apresentável bem como a casa. Jamais conte detalhes do parto nem seja louca de mostrar a filmagem. E coloque uma vassoura de cabeça para baixo atrás da porta da cozinha. Quem sabe, funciona...
Brincar de casinha foi legal no começo. Colocar xícaras na mesa, encher potes com biscoitos, alisar os presentinhos... Mas visita boa mesmo são de pessoas que avisam antes de aparecer. E as melhores de todas: chegam na sua casa, vão para a cozinha e lavam toda a sua louça. Ou as que pegam o bebê no colo e dizem:
- Durma um pouco, ficarei com o seu bebê enquanto isto.
Tem ainda as que trazem uma torta salgada para você não se preocupar com o jantar. No caso, um alívio para o meu marido já que eu não cozinhava mesmo. As pessoas deveriam entender que a visita realmente elegante sabe que a mulher recém parida precisa mesmo é de repouso e ajuda! Não aparecer na sua casa esperando ser servido mas aparecer para servir.
Mas a gente só aprende isto quando vive na própria pele. Minha amiga Vânia terá seu bebê em dezembro. Vai se chamar David e será irmão do Mateus (bela escolha de nomes, heim?). Pois eu vou fazer questão de visitar assim, com um bom par de luvas de borracha na bolsa para lavar o que estiver sujo na cozinha, levar o meu próprio lanche e ajudar no que puder. Até mesmo trocar as fraldas do pirralho enquanto estiver por lá. Só tenho medo desta parte, já que nunca troquei fralda de menino. Fico meio sem graça, acho falta de respeito pegar num pintinho inocente e ter que mexer naquela pelezinha para limpar tudo direito. Mas enfim, se é para ajudar, prometo encarar mais esta.
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