- Agora sim! Finalmente você está se parecendo com uma mãe de verdade – disse minha irmã Cláudia.
- Como assim?
- Você está com aquela cara de mãe. Sabe? Cara de... de... - ela revirava os olhos procurando a palavra exata.
- Especial? - perguntei emocionada.
- Não, exausta!
Eu tenho a foto que foi tirada neste dia. Estou sentada na poltrona sem um pingo de maquiagem no rosto. A pele, ultra pálida, parece ainda pior com o reflexo da blusa verde. Seguro Laura enquanto ela mama e tento um sorriso débil. Na verdade pareço um fantasma que se esqueceu de passar rímel, dando de mamar a um bebezinho moreno e cabeludo.
Os primeiros dias de Laura no planeta Terra foram os mais loucos da minha vida. Em um espaço de 60 minutos eu era capaz de sair da mais sublime alegria para a mais desesperadora tristeza, passando neste meio tempo por emoções como surpresa, preocupação, sono, amor intenso, dúvida, paixão avassaladora, dúvida, carência, dúvida, dúvida, dúvida.
Após o período das visitas, veio o período de dizer: “Ema, ema, ema, cada um com seu problema”. Se você pensa que a vida dos outros vai parar só porque você teve um bebê aos 40, acorde! Todos precisam retomar suas rotinas e você retomará a sua. Bem, se é que você pode chamar aquilo de rotina. Eu estava de volta ao Carrossel de Emoções. Só que agora, girávamos 24 horas por dia, 7 dias por semana! O parque de diversões da maternidade nunca se fecha.
E foi assim que a minha piração começou. Eu resolvi que conseguiria cuidar do bebê, da casa, do almoço e de mim mesma sozinha! Por que não? Minha mãe e meu pai já não têm mais idade para serem aqueles avós que praticamente “criam” os netos junto com seus filhos (mais uma coisa que acontece muito com as mulheres quarentonas: os pais geralmente já são setentões). Minhas irmãs trabalham fora, moram longe de mim e duas já têm seus próprios filhos. Minha sogra trabalha fora e, quando tem algum tempo, já ajuda a criar outro neto. E eu não podia me dar ao luxo de contratar uma empregada. Babá era uma opção que não passava pela minha cabeça. Como assim? Acabei de concretizar o sonho de ser mãe e já ia terceirizar o serviço? Não senhora, eu dou conta de tudo. Estou me sentindo óóóótima!
Assim, uma bela manhã, não havia visitas, não havia parentes e meu marido me deu um beijo no rosto e saiu para trabalhar. Enfim, sós, eu e minha bebêzinha. Estava deitada com minha horrorosa camisola de algodão azul claro com botões de cima a baixo. A sua tia de 70 anos deve ter uma igualzinha. Pensava em me levantar para tomar um café, afinal, tinha sido uma noite daquelas. Pela babá eletrônica ouvi os gemidinhos de Laura em seu berço. Bom, o café teria que esperar. Levantei-me devagar e o planeta deu uma giradinha. Opa! Deve ser o cansaço. Fiquei sentada um tempo para as coisas se ajustarem, mas Laura começou então a berrar, deixando bem claro que estava ordenando o serviço de quarto imediatamente! Vamos lá, faço xixi depois. Troquei suas fraldas e sentei-me para amamentá-la. Já não era tão desesperador amamentar. Por incrível que pareça, colocar cascas de banana realmente melhora as rachaduras no bico dos seios.
Laura levou 30 minutos em um peito e, depois do arroto regulamentar, comecei o outro peito, perguntando-me se tinha acertado a ordem dos peitos. De madrugada, se ela mamou primeiro no esquerdo, então de manhã deveria mamar primeiro no direito, certo? Depois comecei a passear pelo apartamento segurando-a de pé para arrotar. Na verdade, ela nunca arrotou. Só precisava ficar os tais 15 minutos ereta para garantir que não haveria refluxo. Por isto, nas altas madrugadas, eu me perguntava se aquilo era realmente necessário, já que o arroto, que seria o clímax de tudo, não acontecia mesmo.
Caminhando pelo apartamento, voltei a sentir a tontura de leve. Êpa! Bom, não tomei o café da manhã ainda. Aliás, estou apertada para fazer xixi e com um gosto de cabo de guarda-chuvas na boca! Ah! Lembrei! Não tive tempo de escovar os dentes. Mas daqui a pouco... Oh! Não! Laura você fez cocô? Mas ainda não acabou de arrotar, não posso deita-la. Vou continuar andando até dar os 15 minutos.
De repente, uma coisa emendou na outra. Troco a fralda e percebo que já eram quase 9:30h da manhã, então precisava correr com ela para a área de serviço para tomar sol por causa da icterícia. Como ela ficou muito suada após o banho de sol, comecei o ritual do banho imediatamente. A coisa toda levava mais de uma hora. Encher banheira, medir temperatura da água, preparar a roupinha, apetrechos de higiene do ouvido e do umbigo, cremes, pomadas e óleo de massagem. Mal o banho termina e havia mais um cocô na fralda. Às 11h comecei uma nova seção de mamada. Quando o relógio bateu as 12 horas, eu ainda não havia escovado os dentes ou meus cabelos. Estava faminta, suada dentro da camisola azul, cambaleando com a bebê pela sala para fazê-la arrotar. Nem me lembrava mais que um dia eu havia sentido vontade de fazer xixi. E o cenário não ajudava em nada a levantar meu humor. As cobertas ainda estavam emboladas em cima da cama, a sala era um amontoado de babetes, chocalhos e fraldas. Não havia almoço, apenas um pacote de bolachas que abri desajeitadamente com uma mão só enquanto segurava o bebê com a outra. Se tentava deitar Laura no berço ou senta-la no bebê conforto para cuidar de mim um pouco, ela chorava, se agitava. Então a única coisa que fiz por mim mesma foi enfiar duas bolachas de maisena na boca e continuar a cuidar da menina.
O sono e o cansaço me deixaram mais confusa e o impressionante é que Laura não dormia. Olhava seus pequeninos olhos e ela parecia estar terrivelmente entediada, como se não pudesse suportar ficar presa naquele corpinho sem poder andar e ir cuidar da vidinha dela. Eu me sentia na obrigação de, não apenas suprir suas necessidades básicas, mas conseguir entretê-la, mantê-la interessada em algo. Fazê-la feliz! E nessa constante exigência comigo mesma eu cada vez me frustrava mais.
Este havia sido um dos mais longos dias da minha vida. Quando a noite chegou, o suor impregnado no meu corpo colava a camisola na minha pele e sentia náuseas por ter ingerido apenas o pacote de biscoito maisena. Durante todo o dia, ninguém me telefonou. Era um dia de semana, trabalho duro para todos, mas eu queria atenção. Queria ajuda. Queria ouvir a voz de outro ser humano, trocar ideias, perguntar uma sugestão. Lembra-se das “10 Regras” para aproveitar sua gravidez de quarentona? Pois seja bem-vinda à “Regra Única” para cuidar do seu bebê! Ei-la: NÃO EXISTEM REGRAS PARA CUIDAR DE BEBÊS!
Sinto muito ser eu a te dar esta notícia, mas esta é a verdade nua e crua. Cada bebê é único, o que funciona com um não funciona com outro. Mas talvez o mais complexo é que cada mãe também é única e o que uma consegue fazer a outra não consegue. O que uma acha normal, a outra pode considerar o fim do mundo. E eu sei que parece egoísta e cruel, mas estava achando aquela rotina de mãe o fim do meu mundo!
Esta rotina solitária se estendeu por semanas. Eu estava exausta, confusa, com medo e me sentindo abandonada. Tudo era novo e desafiador demais. Assim, como eu estava enfrentando uma vida nova, meu marido também tentava se adaptar a um novo emprego, por isto as energias dele estavam igualmente divididas.
Comecei a ter medo de Laura. Olhava para ela e sentia medo mesmo, pânico! Ela se tornou o Bebê de Rosemary para mim. Meu medo era ficar com ela e precisar fazer alguma coisa que eu não soubesse ou que fizesse algo errado. E se eu a matasse acidentalmente? E se não aguentasse de cansaço e caísse desmaiada no meio da sala? Laura morreria na queda ou podia ficar horas se debatendo no chão chorando. Este pensamentos me enchiam de terror e atrapalhavam até os momentos doces que dividíamos juntas. Mesmo quando estava tudo bem e ela ressonava em meus braços, os pensamentos trágicos surgiam de repente em minha mente, fazendo-me ter sobressaltos. Pronto! Eu sabia que isso ia acontecer um dia, só não pensei que seria justo agora que me tornei mãe. Mas que ia acontecer, todo mundo já sabia. Eu havia ficado louca! Não do jeito engraçado que me diziam às vezes quando decidia, do nada, sair dançando e cantando pelo escritório; mas louca mesmo, de babar, morder parede e jogar pedra em avião voando.
No meio deste caos, eu só sabia de uma coisa. A culpa era minha. Laura era boa e eu era má. Que tipo de mãe fica confusa assim, perdida assim, com medo da própria filha? Era um problema grave, que me causava imensa vergonha e a respeito do qual eu precisava decidir o que fazer. Como sempre, tomei uma decisão madura: resolvi fingir! Comecei a fingir que estava tudo bem e não contei para ninguém o que sentia. Assim, todos continuariam a pensar que eu ainda era aquela supermãe dos primeiros dias, destemida, dando banho sozinha, amamentando, cuidando do umbigo... Infelizmente, a pessoa que eu mais queria enganar, era exatamente a única que sabia que eu realmente não estava bem. Só ela sabia, mas não ia contar para ninguém. Afinal, Laura ainda não sabia falar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário