A nova geração das mães não é tão nova assim.
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
Surtei geral
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
Mãe neurótica
- Elberth, eu entendo que você esteja chateado comigo. No seu lugar eu também ficaria magoada por não estar por perto no momento em que minha filha mais precisou de mim. Mas de que iria adiantar ligar para você naquela confusão toda? Agora já passou, está tudo bem com a Laura. Podermos seguir com nossa vida normalmente.
Eu nem imaginava o quanto estava enganada. Depois daquele susto, eu nunca mais iria agir normalmente. Comecei a ficar obsecada com a segurança da minha filha toda vez que ela dormia. A primeira atitude não foi desequilibrada, foi na verdade uma orientação médica que praticamente todas as mães fazem com seus bebês: elevar a cabeceira do berço. Meu marido buscou cortes de mármore e nós empilhávamos três pedras em cada pé do berço. A explicação é que isso evita o refluxo e, na pior das hipóteses, se o bebê vomitar, há maior chance do líquido escorrer devido a inclinação. Sei lá, uma coisa assim! Se tivessem me dito que eu precisaria passar bosta de vaca no meu cabelo para minha filha dormir tranquila, eu teria passado. E como meu cabelo sempre foi uma bosta, talvez ninguém nem notasse.
A soneca da tarde era um pouco mais fácil de ser vigiada, pois eu nem sempre dormia junto com ela e enquanto eu estivesse acordada, me sentia segura. A babá eletrônica se tornou o equipamento mais importante da casa pois eu praticamente andava com ela pendurada na cintura. Se precisava ir ao banheiro, ligava a babá eletrônica na tomada da pia. Se ia estender roupa, colocava-a ligada no volume máximo no chão da cozinha. Passei a considerar aquele aparelho o máximo da evolução tecnológica. Que projeto da Nasa uma ova, nada superava em inteligência, modernidade e utilidade a babá eletrônica! A única maneira de me sentir em paz era ouvir a respiração dela constantemente.
Naqueles dias de calor, havia me acostumado a tomar uma chuveirada na soneca da tarde do bebê. Era o meu momento tomar aquele banho demorado e me lambuzar de creme depois. Mas depois da noite do pânico, eu não conseguia mais fazer isso. Ligava o chuveiro e Laura começava a chorar. Apavorada, desligava a água e corria pelada, pingando pelo corredor, até o quarto dela só para descobrir que a minha menina continuava dormindo como um anjo. Então, tinha que enxugar o chão e voltar ao chuveiro. Mas novamente, era só ligar a água e Laura começava a chorar de novo. Isso acontecia todas as vezes em que eu ficava um pouco longe dela. Se um caminhão passava na rua barulhento, eu ouvia o choro da Laura pedindo ajuda. Se eu demorasse um pouco mais no banheiro, o som do choro dela me atormentava cada segundo. Meu coração estava sempre aos pulos imaginando o pior: que dessa vez eu não chegaria a tempo, que não saberia fazê-la desengasgar novamente, que a ambulância não chegaria nunca.
Comecei a ter pensamentos mórbidos cada vez mais constantes. Me deitava na cama para uma soneca no mesmo horário que Laura, com a babá chiando ao lado do meu travesseiro, e aí começava a seção terror. Pensava em minha filha morta, asfixiada no berço e como eu explicaria aquilo para Elberth. Como diria para ele que não cuidei dela direito, que a deixei partir. Outras vezes via cenas do enterro, um caixãozinho branco e eu ao lado, desesperada. Por milésimos de segundos a dor era tão forte e tão real que entrava em um choro convulsivo que levava minutos para parar. Não sabia como contar isso para meu marido, aliás, para ninguém. Afinal, que tipo de pessoa fica horas chorando e sofrendo de verdade por uma tragédia que não havia acontecido na vida real? Todo mundo ia achar que eu estava ficando maluca. Então, me calava. Tentava agir normalmente quando Elberth chegava em casa, mas devia estava fazendo uma péssima atuação pois ele percebia claramente que eu não estava bem. Reclamava que eu estava agressiva o tempo todo. Olha que desaforo! Ele ficava por aí, trabalhando, andando de carro, vendo pessoas, fazendo coisas, vivendo! E eu, depois de passar o dia todo socada dentro de casa, cuidando da filha dele, ainda tinha que ouvir isso. Se eu tivesse um taco de golfe teria aberto o crânio dele. Ou talvez uma boa faca afiada para abrir a barriga dele e deixar o intestino cair pelo chão da sala. É ou não é um absurdo ele me chamar de agressiva? Só estava ligeiramente nervosa.
Como sempre, os fantasmas da noite são os mais terríveis. Assim, o sono noturno de Laura me causava um temor ainda maior. Para resolver o problema, tirei meu marido da cama e coloquei Laura no lugar dele. Encostei a cama na parede e montei uma espécie de ninho de travesseiros e almofadas de forma a deixar Laura inclinada. O ninho era tão complexo, que eu parei definitivamente de arrumar a cama para não ter que fazê-lo de novo. Me deitava ao lado dela e então tinha início o ritual noturno dos desesperados. Por alguns momentos, eu contava a respiração dela. Inspirou, expirou, inspirou, expirou. Quando eu estava quase dormindo, algum mau pensamento me tomava de assalto e eu me erguia na cama assustada. Então, me inclinava sobre ela para sentir sua respiração e ver seu rostinho. Sempre fiz questão absoluta do escuro para dormir, mas com meu novo ritual, o banheiro tinha que ficar com a luz acessa para entrar uma luz no quarto. Só assim eu poderia avaliar as feições de Laura à noite. Quando percebia que estava tudo bem, deitava-me de novo e começava a contar a respiração.
“Graças a Deus, como estou cançada. Vamos dormir. Mas, espere um pouco. Será que eu chequei direito se ela estava respirando? Que bobagem, claro que eu chequei. Bom, vou dar mais uma olhadinha, só para ter certeza. Ótimo! Está respirando. Posso dormir. Será que eu olhei bem mesmo? Não, Márcia! Pare já com isso! Está parecendo o Roberto Carlos, isso parece TOC sua idiota. Você acabou de se inclinar sobre a coitada da menina e viu que ela estava respirando. Acabou! Pode ficar deitadinha aí.”
Os minutos iam passando e eu começava a me desesperar.
“Qual o problema em dar só mais uma olhadinha? Eu estou morta de cansaço, preciso dormir, Se não olhar agora, não vou dormir. Pronto, olhei! Ela está respirando. Que alívio, posso dormir. Porque ela está respirando, não está? Será que eu chequei direitinho?”
A rotina noturna se repetia por um longo tempo até eu finalmente ser vencida pelo sono. Mas por pouco tempo. Logo, Laura chorava precisando trocar as fraldas e mamar. Nessas horas eu me arrependia amargamente de ter desperdiçado tanto tempo na rotina do “ela está respirando?” mas aí já não tinha o que fazer. Eu dormia cada vez menos e me irritava cada vez mais facilmente. Preocupado, Elberth pediu novamente o apoio da minha irmã Simone e ela veio dormir comigo no final de semana. A idéia era que, quando Laura acordasse, eu dava o seio e depois voltava a dormir, deixando a tarefa de arrotar e trocar fraldas com minha irmã. Como Elberth estava no sofá da sala, e no quarto de Laura só havia o berço, Simone dormiu comigo na cama de casal e Laura ficou no carrinho de bebê, que tinha a vantagem de poder ser inclinado facilmente. Na hora de dormir, tentei disfarçar o meu ritual noturno. Então, ao invés de checar se Laura respirava umas 15 vezes, fiz só umas 7. Eu tinha certeza de que havia sido tão sutil que Simone não notara nadinha. Mas na manhã seguinte, ela me chamou para conversar.
- Márcia, você está obsecada!
- Espere aí, depois do susto que eu passei com a Laura, é totalmente normal que eu...
- Não! Minha irmã, eu sinto muito mas isso que você está fazendo não é normal, nem totalmente nem um pouquinho. Olha, essa noite vamos colocar a Laura no berço dela...
- Nem pensar! Simone, eu não estou preparada, eu não vou conseguir.
- Vai sim! Eu vou estar aqui com você. Sei que tem medo de dormir tão profundamente que você não irá ouvir o bebê, mas poderá dormir porque eu vou tomar conta dela.
- Você não é a mãe. Você sabe disso, com o Vítor, você era capaz de sentir a necessidade dele, mas com Laura, isso não vai acontecer, não existe uma ligação transcendental!
- É só um bebê dormindo no berço Márcia. Todos os bebês do planeta Terra, inclusive você, sobreviveram ao berço. Você tem que parar com essa paranoia agora, se não... Acho que pode piorar. Talvez você devesse ver um médico.
- Claro, eu vou marcar um médico...
Quando a noite chegou, eu estava ainda mais ansiosa. Simone chamou meu marido na sala e anunciou a grande novidade: Laura iria dormir sozinha no berço!
- Que ótimo amor! Você precisa dormir direito, com a Lalá na cama isso era impossível. Agora você vai descansar melhor, seu humor vai melhorar e eu vou poder dormir com você de novo!
Imediatamente, eu abri a boca a chorar. Não um chorinho não, um choro infantil, de soluçar, de escorrer o nariz e balançar todinha.
- Por favor, amor! Não me faça tirar a Laurinha da cama. Por favor, eu não consigo! Eu estou com medo. Ela é tão pequenininha, tão indefesa. Não, não, não...
Ele me abraçou. Naquela noite, novamente Simone e eu dividimos o quarto com Laura e eu dormi muito mal erguendo-me a todo instante para checar a respiração dela. Essa rotina prosseguiu por um bom tempo até a consulta com a pediatra. Quando a médica ficou sabendo que eu dormia com Laura na cama, não teve a menor piedade.
- Márcia, você não é uma mãe adolescente, é uma mãe de quarenta anos, tenha dó. Não tem o menor cabimento você tirar seu marido da cama para o bebê dormir com você. Hoje à noite ela vai para o berço e fim de conversa.
- Mas doutora...
- Você acha que está ajudando a sua filha? Na verdade, não é só você que está dormindo mal, ela também está. Quando ela se mexe na cama, te incomoda. E quando você mexe, deve parecer um terremoto para ela. Ou pior, quando você ronca! Ela também está dormindo mal. A criança tem que acostumar com a própria cama, aquele lugar tem que ser o cantinho dela, ter o cheirinho dela. Se você está paranoica com o engasgo da Laura, coloque a babá eletrônica no seu ouvido e pronto, qualquer barulhinho você vai acordar.
- Mas é exatamente disso que eu tenho medo, doutora. Estou tão exausta que tenho medo de não acordar quando ela mais precisar de mim.
- Seu marido vai estar ao seu lado, se um não acordar, o outro acorda. Mas bebê na cama, nunca mais, ouviu?
Naquela noite, arrumei bem o berço da Laura, chequei as pedras de mármore, a inclinação da cabeceira, a babá eletrônica, tudo certinho. Coloquei minha menina de costas com os rolinhos do lado impedindo que ela se virasse de lado. Essa mudança ainda me deixava confusa. Senti um pouco de agitação em meu peito e então resolvi rezar uma Ave Maria e um Pai Nosso. Depois, chamei por ele.
- Gabriel, anjo da guarda de Laura. Desculpe a intimidade, te batizando com esse nome meio pretencioso... Acho que o anjo da Maria se chamava Gabriel, né? Bom, eu não mereço o mesmo anjo da Nossa Senhora, mas tem muitos Gabrieis pelo mundo, um podia ser meu, né? Quer dizer, da Laura. Enfim, eu te peço que me ajude a zelar pelo sono da minha filha. Você sabe que eu estou com medo, mas confio em você. Se ela precisar de mim, me acorde por favor.
Gabriel não me chamou. Não foi preciso. Essa noite, juntos em nossa cama, eu e Elberth dormimos com os anjos. Ou pelo menos com um anjo no quarto ao lado.
terça-feira, 30 de novembro de 2010
Gabriel
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
Pânico
****************
- Seguindo com nossa entrevista, por que a SMSI é conhecida também como morte no berço, doutor?
- Então, é que o óbito acontece quando a criança estar dormindo. Por isso, colocar o bebê para dormir de costas se mostrou a posição mais eficiente para a redução da incidência da Síndrome. Aliás, é importantíssimo que as mães que estão nos assintindo agora, prestem muita atenção: nunca deixe o bebê dormir de lado, sempre de bruços ou de costas, em um colchão firme. Use apenas lençol e cobertores leve. Nunca use confortos, rolos ou travesseiros" disse o pediatra entrevistado.
sábado, 20 de novembro de 2010
GRRRR! Bebezilla ataca outra vez!
"Então é isso, não é? Mais uma encarnação. E pelo visto, minha missão desta vez será superar a vidinha medíocre desse casal que me tomou por filha. Um apartamento classe média baixa. A decoração de meu quartinho é... simpática porém um tanto simplória. Lilás? Qual é? Só para fingir que são modernos fugindo do óbvio rosa. Vejamos o pai. Sem dúvida é um batalhador. Um bom homem mas completamente bobo. Olha só a cara dele olhando para mim! O pobre mortal deve pensar que eu sou uma Deusa ou coisa assim. Tudo bem, serei boazinha com ele, afinal já está dominado. Agora, essa mulher... Ela é nervosa, com certeza. Será que ela nunca penteia esses cabelos nem veste outra coisa que não seja essa camisola azul? Entretanto, é útil, produz leite e troca fraldas com destreza! Estarei bem instalada, por enquanto. Mas se essa tal de mamãe pensa que vai mandar em mim, está muito enganada. Eu vou mostrar a ela que eu não sou de brincadeira. "
Eu não era a única a perceber isso. Alessandra vivia dizendo que a Vívian, quando bebê, era uma "mala velha" sempre aberta num sorriso. Depois, dizia com um suspiro: "Já a Laurinha..." De outra feita, estava descendo a rua da casa da minha mãe com Lalá nos braços quando ouvi uma voz saindo do salão de beleza: "Olha lá o bebê que não ri! Eu te falei, é filha da irmã da Alessandra". Porque será que ela não ria como os outros bebês? Tenho certeza de que estava achando um tédio ficar presa em meus braços, sem poder se levantar e ir aonde bem quisesse. Havia momentos em que eu não sabia o que fazer, como entretê-la. Tudo o que eu tentava parecia aborrecê-la ainda mais. Podia fazer quantos bilus bilus quisesse, ela não esboçava o menor sorriso. Era só o que me faltava! Além de ter me casado com um homem que jamais rira de uma única piada minha, que não achava a menor graça em mim, agora vinha aquela menina com um ar blasé, como se na verdade eu é quem fosse a criança bobona fazendo gracinha que ela precisava suportar. Já imaginava minha vida no futuro, eu fazendo meus teatros e contando minhas peraltices do dia enquanto Elberth e Laura suspiravam entediados, dando olhares significativos uma para o outro. Bastaria eu virar as costas e eles começariam a conversar entre si:
- Nossa pai, está difícil aguentar a falação da mamãe hoje, heim?
- Tenha paciência filha. Ela está piorando com a idade, imagina-se ainda mais engraçada, coitadinha... Shhh! Ela vem aí de novo! Faça um esforço e dê só uma risadinha para ela hoje, Laura?
Nessa hora ela provavelmente reviraria os olhos pensando o que havia feito para merecer aquela situação patética. Prevendo isso, eu já tentava diverti-la desde os primeiros meses. Vamos lá, muita gente me acha engraçada, não vai ser alguém que nasceu ontem que iria chegar e me desestruturar assim! Eu tinha uma reputação a zelar. Então, usava todo o meu arsenal: caretas, vozes diferentes, perucas e... nada! Eu já estava ficando sem repertório.
- Como assim, não ri? Ela é só um bebê.
- Digite "bebês rindo" no Youtube para você ver. Aparecem centenas de filminhos caseiros de bebês rindo. É muito diferente dessa menina. Tem criança muito menor que dá gargalhada! Gar-ga-lha-da! Mas ela não parece estar achando a menor graça em ser nossa filha. Alías - abaixei o tom de voz - para ser sincera, às vezes eu acho que ela está me julgando, sabe? Me analisando e concluíndo que não sou grande coisa como mãe, sei lá.
- Querida, você tomou seus remédios hoje?
Quando o assunto era Laura, Elberth jamais me levava a sério. Mas eu estava levando aquilo muito a sério e comecei a ler um livro que ensinava a desenvolver a mente de bebês. Então, se ela estava com tédio, quem sabe eu poderia finalmente fazê-la se divertir? Aprendi algumas coisas úteis como, por exemplo, que o bebê deve ser estimulado através da exposição de coisas interessantes à sua frente. É assim que um bebê aprende, com os sentidos visão, olfato, paladar, audição e tato. Não gaste seu latim, o bebê apenas apreende as coisas que é capaz de sentir em seu próprio rítimo. Pode-se fazer um móbile com coisas caseiras como pedaços de papel alumínio, papel colorido de presente ou mesmo pedaços de algodão, e amarrá-los no berço com um barbante de um lado ao outro das grades. Assim, você pode fazer sempre móbiles diferentes para estimular o bebê sem precisar gastar dinheiro comprando um novo por semana.
Outra lição boa do livro foi sobre a forma de mostrar um brinquedo a bebês com menos de 5 ou 4 meses. Não se deve balançar o brinquedo rapidamente (como todo mundo faz) na frente do coitado. Tudo o que o bebê verá será um borrão na frente dele, enquanto você fica lá, se achando o máximo, balançando rapidamente o boneco na cara da criança. O bebê se interessará muito mais se você mover o brinquedo bem devagarinho ao alcance de seus olhos. Outras formas de se distrair um recém nascido é com cores diferentes em lençóis e almofadas, texturas variadas de objetos e sons. Música, muita música! E nada superior à Mozart, certo? É vivaz, é brincalhão, é alto astral! Então, colocava sempre o CD "Mozart para bebês" da minha irmã Alessandra, com peças do grande compositor tocadas por um pianinho infantil. "Agora quero só ver se essa menina não vai me achar a mãe mais sofisticada do mundo! Ela não pode reclamar! Tem muita criança por aí ouvindo funk! Já pensou? Bonde do Tigrão, tô ficando atoladinha e coisas ainda mais subterrâneas. Mas ela tem a honra de ter uma mãe que assistiu ao filme Amadeus 6 vezes, então, dá-lhe Mozart!"
Mas nem isso suavizava a criaturinha. Laura estava decidida a mostrar sua personalidade forte com poucos meses de existência. Assim, quando eu estava na maior expectativa para ouvir os primeiros rudimentos de sua fala, quando esperava ser brindada com os fofíssimos "gugus dadás", ela começou a rosnar. Primeiro, achei que era impressão minha mas logo ficou claro: quando não estava satisfeita com alguma coisa, lá vinha o rosnado. Como ficávamos sozinhas o dia todo e eu mal podia esperar para meu marido voltar do trabalho e contar a novidade.
- Elberth, advinha só: sua filha rosna. Nada de gungunar, ela está rosnando! O que significa que, em breve, estará mordendo. Pode comprar uma coleira amanhã cedo porque eu não quero ela sendo capturada pela carrocinha.
- Eu joguei pedra na cruz... Meu amor, você está cansada, eu sei, sozinha o dia todo com a Lalá...
- Ah, você não acredita, né? Tanto faz, ela rosna, eu ouvi muito bem. E pensar que nós havíamos ficado tão preocupados com a possibilidade de ter nossa filha trocada na maternidade... Agora, olha só! O bebê foi trocado mesmo só que não foi na maternidade, foi num pet shop!
Minha filha foi brava desde o início. Rosnou e mordeu. Não sorria nunca até uns 6 meses de idade, brava como o diabo. E se era contrariada, sai de baixo! "A quem será que ela puxou, essa oncinha pintada, heim?" meu marido sempre me perguntava, olhando minhas sardas no rosto. A madrinha de Laura, minha irmã Cláudia, se encantava com os rosnados e com a cara de mini gangster da minha bebêzinha.
"Prefiro muito mais ela assim do que esses bebês bobos que riem à toa. Ela tem personalidade! Ela não é um bebê, é uma BEBÊZILLA!"
Sempre que Laura dava seus rosnadinhos atrás das grades do berço, eu ia correndo atender suas ordens, pensando na graciosidade daquele apelido. Ela era bem assim, a mistura certa entre a fofura do bebê e o mau humor do Godzilla.
domingo, 14 de novembro de 2010
Ninguém segura esse bebê
Não me lembro quando aconteceu a segunda ou a terceira vez, só sei que a coisa foi se tornando uma rotina. Eu estava tão absorvida por toda a reviravolta da maternidade que não fui me dando conta de que havia me acostumado a uma dor constante nos pulsos, que às vezes ficava aguda e não me permitia segurar Laura com firmeza. Apesar da preguiça que isto me causava, resolvi consultar um ortopedista. Explico: não acredito em médicos no geral. O problema é que consultei-os demais, fui a muitas emergências e esse contato muito próximo com médicos faz mal à saúde. Quando você fica perto demais, eles perdem aquela aura de deuses milagrosos e a gente acaba descobrindo que eles são apenas seres humanos. E cada engano que cometem custa a você muitos reais em exames, muitas horas em salas de espera, altas contas na farmácia e dores que continuam por anos. Tudo bem, admito, eu sofro de enxaqueca e, como todo ser humano que sofre de dor crônica, perdi minha fé na medicina ortodoxa há umas quarenta tomografias atrás.
Chamei Cláudia para me acompanhar ao médico pois precisava de alguém para segurar Laura durante a consulta. Era sempre incrível sair com um bebê pelas ruas. É como se você fosse uma celebridade, as pessoas param, querem ver o bebê de perto, gente que nunca te viu olha para você e seu pimpolho com adoração. Faltam tirar fotos e pedir autógrafo. Nessa fase você ainda pode aproveitar um pouco daquele tratamento especial que recebia quando estava grávida. As pessoas se preocupam onde você vai se sentar para ficar confortável carregando seu bebê.
No consultório, o médico, que tinha uns 100 anos de idade, nem sequer se levantou para examinar minhas mãos.
- Ah, você está amamentando, não é? Pronto, já sei qual é o seu problema. Essa dor nos pulso é um inchaço do túnel do carpo causado pelos hormônios da amamentação. Bom, também por causa a amamentação, não podemos dar um remédio forte, você vai ter que fazer o seguinte: compre talas que deixem suas mãos imóveis e... Bom, depois que parar de amamentar, a dor deve passar. A não ser que o inchaço não suma. Aí vai continuar doendo até desinchar. Pode levar meses, ou anos... pode não passar...
Ótimo! Gastei táxi e uma consulta para falar com um dinoussauro da ortopedia que sofria de esclerose múltipla! Olha só que idéia mais estapafúrdia, que amamentar tinha causado aquela dor terrível nos meus pulsos. Isso que dá marcar consulta com qualquer um. Se você liga para uma clínica e o médico tem consulta para o mesmo dia, só pode ser porque ele não deve ser grande coisa mesmo. Não tem nem lista de espera de pacientes! Médico bom é aquele que você liga e ele só tem horário vago para daqui a sete meses. Mesmo assim, você chega às 15h para a consulta de 15:45h e só é atendida às 19:20h. Isso sim é médico de verdade. Aqueles que você tem que tirar o dia inteiro de folga no serviço para ficar sentada na sala de espera folheando revistas de 1987 num consultório lotado de pacientes resignados. Afinal, sem resignação, como é que suportaríamos o comportamento compulsivo das secretárias que insistem em marcar consultas de 15 em 15 minutos mesmo sabendo que o chefe delas leva pelos menos uma hora e meia para atender cada paciente?
Decidida a encontrar um médico de verdade, marquei outra consulta. E depois mais outra e mais outra. No quarto ortopedista, tive que me render. Todos eles foram idênticos em seus diagnósticos. Havia uma estranha e rara ligação entre amamentar e ter os pulsos inchados e dolorosamente sensíveis a ponto de mal suportar o peso do bebê por muito tempo. Todos me mandaram ficar com os pulsos imobilizados em talas para melhorar a dor mas isso não funcionou. Deveria ser porque eu só conseguia imobilizar os pulsos durante uns 10 minutos, aí tinha que trocar as fraldas da Laura, então tirava as talas. Colocava as talas e, 20 minutos depois, tirava para amamentar. Colocava-as de novo e tirava logo depois para embalar Laura que começara a chorar. Colocava as talas quando Laura adormecia e tirava 10 minutos depois quando me lembrava de toda a roupinha para lavar, comida para fazer, louça para lavar, chão sujo para varrer, telefone para atender, novas fraldas para trocar e assim por diante. Acho que as talas acabaram me provocando mais dor de tanto esforço para colocá-las e tirá-las minutos depois.
A dor começou a minar minhas poucas energias. Os pulsos passaram a doer constantemente, quer eu ficasse parada ou não. Quando me deitava para dormir, ao invés de alívio, eles doíam ainda mais. Não conseguia entender porque isto estava acontecendo. As semanas foram passando e comecei a ter crises de choro a todo momento. Elberth estava transtornado e eu tinha medo que, na próxima vez que meus pulsos falhassem, Laura caísse no chão e se machucasse. Comecei a sonhar que isso acontecia, que ela se machucava por culpa da minhas mãos fracas, e acordava com o rosto molhado de lágrimas. Tudo me irritava. A dor era constante e quando Laura chorava no berço sentia a raiva crescendo em mim. De um lado, raiva por que aquilo me impedia de cuidar dela direito. Por outro lado, sentia também raiva porque, de alguma forma, fora ela quem causara aquela dor. Não ela própria, mas a necessidade que ela tinha do meu leite. Esse sentimento me enchia de vergonha e não tinha coragem de contar a ninguém meus pensamentos. À minha volta, as pessoas já estavam cansadas das minhas reclamações e pareciam me recriminar por meu mau humor num momento tão abençoado como este de receber uma criança perfeita e saudável. Parecia que eu era ingrata e não merecia tal benção. Resolvi então aceitar a sugestão da cirurgia.
- Doutor, mas o senhor vai operar as duas mãos ao mesmo tempo? Como é que eu vou cuidar da minha filha? Não tenho empregada nem ninguém da família que possa ficar comigo para me ajudar...
- Não se preocupe! A recuperação é de um dia para o outro. Você opera hoje e no dia seguinte já está cuidando de tudo normalmente.
Você acreditou nisso? Não? Bem, você é uma pessoa sensata e inteligente. Não posso dizer o mesmo a meu respeito. Eu acreditei e operei as duas mãos no mesmo dia achando mesmo que, no dia seguinte, eu estaria executando minhas tarefas normalmente. Quando me deitei na maca na sala de cirurgia, eu devia ter adivinhado ali mesmo que aquilo não tinha a menor chance de dar certo. A maca tinha duas talas laterais onde meus braços foram furiosamente amarrados. Pensei que a enfermeira estivesse cometendo um erro.
- Moça, espere aí, isso está muito apertado, está cortando a minha circulação!
- Calma, é assim mesmo. O doutor vai cortar os seus dois pulsos, temos que evitar muita perda de sangue.
Meu Deus, no que foi que eu me meti! Agora estou amarrada aqui com os braços abertos, cruscificada nesta maca! Nem se eu quisesse fugir, não vou conseguiria. Espere aí! Quem é que está mexendo no meu pé? Eu vou operar os pulsos, o que esse cara está fazendo aí em baixo mexendo no meu pé?
- Oi, Márcia! Eu sou o seu anestesista. Bom, o doutor amarrou seus dois braços, então, só me sobrou o seu pé, he, he, he! Vou tentar pegar a veia aqui mesmo.
sábado, 13 de novembro de 2010
Nana Nenê
terça-feira, 9 de novembro de 2010
Cólica
A gente imagina que a maior emoção da maternidade será o momento em que você sentir o bebê sair de dentro do seu corpo ou quando ouvir a voz do seu filho pela primeira vez na sala de parto. Pensa que nada vai traduzir tão plenamente este sentimento quanto a primeira vez em que a criança sugar o seu leite. Realmente, estas emoções são arrebatadoras. Eu só havia experimentado algo semelhante no parque do Beto Carrero, no brinquedo onde você fica preso numa cadeirinha que sobe numa altura semelhante a um prédio e, de repente, despenca no ar. Você sente seus braços e pernas voando e o cérebro escorrendo pelos ouvidos. Se quiser ter uma idéia da emoção de se ter um filho, jogue-se de um prédio de 12 andares. É uma sensação bem parecida.
Mas, de todas as emoções, a que realmente me colocou frente a frente com a responsabilidade do meu novo papel, foi o que senti ao assistir minha filha sofrer. Parece uma coisa óbvia: a menos que a pessoa seja a reencarnação de Hitler, ninguém gostaria mesmo de ver outro ser humano sofrer. Mas ver a seu filhotinho gritar de dor, é simplesmente de enlouquecer!
Durante minhas pesquisas pelas centenas de revistas Pais & Filhos que li na gravidez, eu me inteirei sobre a temível cólica. Não eram apenas artigos de médicos, mas dezenas de cartas de mães desesperadas buscando uma solução. Posso dizer que, depois do parto normal, a tal cólica me assombrava tanto quanto um daqueles monstros de filme de terror. A história é sempre assim: à luz do dia, os personagens jovens e belos estão jogando bola e nadando na piscina. Mas à noite, justo na hora em que o casalzinho do filme resolve tirar um sarro, a mocinha já com os peitos de fora toda sensual, quem aparece? Jason: o psicopata morto-vivo do filme “Sexta-Feira 13”! O rosto coberto pela máscara, ele vai friamente fazendo picadinho dos namorados com seu machado, espirrando sangue por toda a tela. A cólica faz igualzinho.
Eu presenciei as dores de minha sobrinha Vivian. Uma vez, Alessandra a deixou comigo, mamãe e Elberth e foi dar uma espairecida com o marido. Enquanto o sol brilhava lá fora, estava tudo bem. Vivian brincava e fazia gracinhas. Mas foi só escurecer e, pimba! Lá veio Jason, a Cólica Maligna, espalhando terror e gritos pela casa. A bebezinha parecia possuída pelo demônio, retorcendo e chorando aos berros. Nós três nos revezávamos tentando acalmá-la, mas nada fazia efeito. Em dado momento percebi que Elberth desaparecera. Encontrei-o sentado na calçada, a cabeça entre as mãos.
- Márcia, está decidido. Eu concordo com você, também não quero mais ter filhos. Não! É terrível demais!
Se eu já tinha ficado apavorada ao presenciar o tormento da minha sobrinha, imagine o que senti com minha própria filha! Quando Jason veio atrás da minha menininha com seu machado, eu descobri o verdadeiro significado da palavra terror.
Eu adorava sonhar que minha filha seria perfeita e que nada de errado aconteceria conosco. Assim, fantasiei também que ela seria uma das pouquíssimas crianças sorteadas para não sofrer de cólica. Sim, existem estes bebês. Não, minha filha não foi um deles. Na primeira crise de cólica dela, eu ainda tentei me enganar. Pensei que fosse outra coisa. Podia ser que ela fosse médium e estivesse vendo espíritos inferiores e por isto berrava tanto. Eu preferia qualquer coisa àquilo. Liguei para o pediatra e narrei os sintomas. O médico não teve dúvidas:
- É cólica mesmo, já estava na hora. Fique tranquila que isso é uma coisa natural, acredita-se que é causado pelo desenvolvimento do intestino. Ele começa a crescer e o movimento provoca essas dores. Sim, os outros órgão também crescem mas só o intestino dói. Você não acredita? Bom, ou é isso ou acho que pode ser algum chá que você deu... Ah, ela não toma chá? Bom, podem ser os gases também. (Nota da autora: percebeu que nem os próprios médicos têm idéia do que causa a cólica?) Olha, Márcia, você tem que dar umas gotinhas de Luftal para ela. Coloque uma bolsa de água quente na barriguinha dela, mas não muito quente, viu? Enrole-a numa fralda, a menina não, enrole a bolsa. Faça massagens bem suaves. Tente colocar ela de bruços apoiada no seu próprio antebraço e passeie com ela pelo quarto. Sua sogra mandou dar chá de macela? Então, dá o tal chá de macela, querida! Eu sou totalmente a favor dessas receitinhas da vovó, se não fizer bem, mal não faz. Onde você vai arranjar macela? Sei, lá! Olha, simplesmente, acalente a menina, caminhe pelo quarto, embalando-a suavemente, cantarole baixinho, não deixe o desespero dela tomar conta de você. Se a mamãe fica nervosa, a cólica do bebê piora. (Ótimo! Agora ia ser minha culpa se piorasse!) Se não melhorar, amanhã você me liga. (Amanhã? Mas o que eu faço durante as próximas 12 horas?) Todo bebê tem cólica, viu? É assim mesmo.
E foi. Eu estava sozinha em casa e Laura gritava se retorcendo em meus braços. Fiz tudo o que o médico me indicou e mais uma coisa que ele não indicou: rezei. Rezei com todo o fervor segurando o terço que pertencera à minha tia Aparecida. Tica Cida sempre fora muito religiosa e eu tinha esperanças de que, com ajuda do bom nome que ela devia ter no céu, minhas preces fossem colocadas na pilha de preces urgentes e recebessem um tratamento especial ou coisa assim. Mas tenho certeza de que o pessoal lá em cima estava vendo que eu não sabia rezar o terço de verdade, quer dizer, só sei o básico - a conta maior é um Pai Nosso e depois veem onze contas menores que são as Ave Marias. Porque tantas Ave Marias para só um Pai Nosso? Lógico, o negócio era apelar para Maria já que era ela quem trabalhava mais.
- Maria, mãe de Jesus. E aí, tudo bem? Eu sei que demorei a falar com a senhora de novo, que tinha prometido rezar mais e tal. Me desculpe, tá? Eu ando ocupada, como a senhora pode ver. Bom, vou direto ao assunto. É, adivinhou, eu vim pedir uma coisa, mas não é para mim, é para a minha filha. E não vou pedir de graça, não, depois eu pago em Ave Marias, Salve Rainhas... Desculpe, Salve Rainha eu não prometo porque não sei de cor, é muito grande. Por favor, Mamãe do Céu, ajude minha filha. Isso não é justo,veja o estado dela. Por favor, passe a dor dela para mim, que sou grande e gorda, eu dou conta disso. Mas ela não, Nossa Senhora. Ela só tem 48 centímetros! Por favor, por favor, por favor...
Nunca soube quem chorou mais esta noite, eu ou Laura. Mas não precisava me preocupar em contar as lágrimas do primeiro dia de cólica porque inúmeras outras seriam derramadas pelo mesmo motivo durante dias ininterruptos. Parecia uma das pragas do Egito enviadas como um teste de Deus. Quando o relógio batia 17 horas, eu começava a suar e a rezar. Nesta hora, o bebê ainda dormia no berço e o monstro da cólica ainda não havia acordado mas eu sabia que ele iria voltar. De joelhos sozinha na sala eu rezava e pedia à Maria que não permitisse que aquilo continuasse, que ela não merecia sentir tanta dor e que eu estava sozinha, não havia ninguém para me ajudar a enfrentar aquilo. Mas, exatamente como em todo filme “Sexta-Feria13”, Jason nunca morre e a cólica sempre aparecia ao anoitecer. Seu corpinho de apenas 3 quilos e 100 gramas suportava uma dor que derrubaria um homem adulto. Apesar de retorcer as entranhas do recém nascido durante horas, a cólica é considerada (pasmem!) normal. Todo bebê tem e ninguém faz nada! De que adianta o foguete capaz de ir à lua? Para que serve a tecnologia da clonagem? Que valor tem o mais moderno computador com tecnologia de ponta? Eu trocaria tudo isto por um xarope, um comprimido, uma erva, qualquer coisa que parasse a dor das cólicas dos bebês.
Comecei a acordar com medo. Já abria os olhos pela manhã pensando que passaria mais um entardecer sozinha com Laura chorando e eu sem poder fazer nada. Olhava para aquela fofurinha e não sabia como iria conseguir atravessar aquilo. Percebi que não tinha planejado bem essa coisa de ser mãe. Na minha infância, quando aparecia uma barata, eu e minhas irmãs imediatamente gritávamos: “Mãããe! Mata essa barata aqui, manhê!”. Pronto, só o que eu tinha que fazer era gritar. Mas e agora? Quando Laura encontrasse a barata, quem iria matá-la? Eu? Ora, bolas, eu queria a minha mãe!
No quarto dia, quando já começava a andar nervosa pelo apartamento, sabendo que a cólica começaria em minutos, ouvi a campainha tocando. Quando olhei pela janela e vi minha mãe sorrindo no portão, meus olhos encheram-se de lágrimas! Ela tinha vindo junto com Vívian de ônibus e isto era um verdadeiro sacrifício. Nossas casas ficam em pontos opostos da cidade e a linha de ônibus do meu bairro oferece um atendimento sub-humano, isto é, se o ônibus passar. Mas ela enfrentou tudo isto para estar comigo, porque eu havia contado tudo a ela pelo telefone. Quando Laura começou a chorar, mamãe se revezou comigo no inútil trabalho de balançar e colocar a bolsa de água quente. Estar ali junto com ela, no quarto com a luz suave do abajur, ouvir minha mãe falando calmamente com minha filha, aquilo tornou tudo muito melhor. Vívian, meio apreensiva, olhava toda aquela cena da porta, sem coragem de entrar no quarto, e me lembrei que há mais de dez anos, tinha sido ela em meus braços chorando e sofrendo. E ela sobrevivera! Tudo aquilo tinha passado e na verdade, Vívian sequer se lembrava daquela dor. Para ela, aquele pesadelo jamais havia acontecido, só aconteceu para nós, os adultos.
Por isto, foi na cólica que eu me tornei mais mãe. Naqueles momentos horríveis, em que Laura gritava e se retorcia, a boquinha procurando meu seio em busca de um conforto que meu leite não trazia, foi assim, com meu coração sangrando que eu finalmente entendi. Então, é isso que é ser mãe! Não era a alegria de acalentar um bebê fofinho. Qualquer pessoa pode sentir isto segurando qualquer bebê. Mas era aquela dor, aquela vontade de poder falar direto com Deus e exigir uma explicação. Aquela dor só pode ser sentida por um coração de mãe.
No dia seguinte, depois da visita mágica da minha mãe, achei que a cólica não viria mais, Mas ela veio e no outro dia também. Ao sétimo dia, conversei com Maria mais uma vez. Mas não pedi nada, só agradeci por ter uma filha tão saudável, sem nenhuma doença grave. Como mulher, a Mãe de Jesus entenderia mais estas coisas.
- Nossa Senhora, depois de presenciar a cólica da Laura, eu virei uma mãe de verdade, não é?
- Você é quem pensa, Márcia...
- Como assim?
- Minha filha, a cada dia que passa, Laura fará você experimentar uma emoção ainda mais intensa, mais desafiadora... E depois de cada experiência você vai achar que, finalmente, aquela situação é que transformou você em uma mãe de verdade.
- E quando eu finalmente serei uma boa mãe, minha Nossa Senhora?
- ...
- Ah! Vocês divindades são todos misteriosos!
- Calma minha filha! A provação já está acabando. Sua filha terá cólicas por apenas 7 dias então, amanhã elas já terão terminado.
- Jura? Graças a Deus! Desculpe, quero dizer gaças à Senhora. Eu já não aguentava mais. Não entendo por que ela tinha que passar por esta provação.
- Filha, a provação foi para você!
- O quê?!
- Foi para que você aprendesse uma coisa que toda mãe precisa saber: nem todo sofrimento pelo qual o seu filho passará na vida você poderá evitar. Alguns sofrimentos precisam ser vividos e às vezes, tudo o que a mãe pode fazer é ficar ao lado do filho, apoiá-lo e dar a ele todo o seu amor. Mesmo que doa muito, às vezes é tudo o que uma mãe pode fazer.