A nova geração das mães não é tão nova assim.

A nova geração das mães não é tão nova assim. Se você colocou a universidade, a carreira, o regime e até o marido na frente da maternidade e depois teve que correr atrás do prejuízo, bem-vinda ao blog das novas mães maduras.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Caos

- Agora sim! Finalmente você está se parecendo com uma mãe de verdade – disse minha irmã Cláudia.

- Como assim?

- Você está com aquela cara de mãe. Sabe? Cara de... de... - ela revirava os olhos procurando a palavra exata.

- Especial? - perguntei emocionada.

- Não, exausta!

Eu tenho a foto que foi tirada neste dia. Estou sentada na poltrona sem um pingo de maquiagem no rosto. A pele, ultra pálida, parece ainda pior com o reflexo da blusa verde. Seguro Laura enquanto ela mama e tento um sorriso débil. Na verdade pareço um fantasma que se esqueceu de passar rímel, dando de mamar a um bebezinho moreno e cabeludo.

Os primeiros dias de Laura no planeta Terra foram os mais loucos da minha vida. Em um espaço de 60 minutos eu era capaz de sair da mais sublime alegria para a mais desesperadora tristeza, passando neste meio tempo por emoções como surpresa, preocupação, sono, amor intenso, dúvida, paixão avassaladora, dúvida, carência, dúvida, dúvida, dúvida.

Após o período das visitas, veio o período de dizer: “Ema, ema, ema, cada um com seu problema”. Se você pensa que a vida dos outros vai parar só porque você teve um bebê aos 40, acorde! Todos precisam retomar suas rotinas e você retomará a sua. Bem, se é que você pode chamar aquilo de rotina. Eu estava de volta ao Carrossel de Emoções. Só que agora, girávamos 24 horas por dia, 7 dias por semana! O parque de diversões da maternidade nunca se fecha.

E foi assim que a minha piração começou. Eu resolvi que conseguiria cuidar do bebê, da casa, do almoço e de mim mesma sozinha! Por que não? Minha mãe e meu pai já não têm mais idade para serem aqueles avós que praticamente “criam” os netos junto com seus filhos (mais uma coisa que acontece muito com as mulheres quarentonas: os pais geralmente já são setentões). Minhas irmãs trabalham fora, moram longe de mim e duas já têm seus próprios filhos. Minha sogra trabalha fora e, quando tem algum tempo, já ajuda a criar outro neto. E eu não podia me dar ao luxo de contratar uma empregada. Babá era uma opção que não passava pela minha cabeça. Como assim? Acabei de concretizar o sonho de ser mãe e já ia terceirizar o serviço? Não senhora, eu dou conta de tudo. Estou me sentindo óóóótima!

Assim, uma bela manhã, não havia visitas, não havia parentes e meu marido me deu um beijo no rosto e saiu para trabalhar. Enfim, sós, eu e minha bebêzinha. Estava deitada com minha horrorosa camisola de algodão azul claro com botões de cima a baixo. A sua tia de 70 anos deve ter uma igualzinha. Pensava em me levantar para tomar um café, afinal, tinha sido uma noite daquelas. Pela babá eletrônica ouvi os gemidinhos de Laura em seu berço. Bom, o café teria que esperar. Levantei-me devagar e o planeta deu uma giradinha. Opa! Deve ser o cansaço. Fiquei sentada um tempo para as coisas se ajustarem, mas Laura começou então a berrar, deixando bem claro que estava ordenando o serviço de quarto imediatamente! Vamos lá, faço xixi depois. Troquei suas fraldas e sentei-me para amamentá-la. Já não era tão desesperador amamentar. Por incrível que pareça, colocar cascas de banana realmente melhora as rachaduras no bico dos seios.

Laura levou 30 minutos em um peito e, depois do arroto regulamentar, comecei o outro peito, perguntando-me se tinha acertado a ordem dos peitos. De madrugada, se ela mamou primeiro no esquerdo, então de manhã deveria mamar primeiro no direito, certo? Depois comecei a passear pelo apartamento segurando-a de pé para arrotar. Na verdade, ela nunca arrotou. Só precisava ficar os tais 15 minutos ereta para garantir que não haveria refluxo. Por isto, nas altas madrugadas, eu me perguntava se aquilo era realmente necessário, já que o arroto, que seria o clímax de tudo, não acontecia mesmo.

Caminhando pelo apartamento, voltei a sentir a tontura de leve. Êpa! Bom, não tomei o café da manhã ainda. Aliás, estou apertada para fazer xixi e com um gosto de cabo de guarda-chuvas na boca! Ah! Lembrei! Não tive tempo de escovar os dentes. Mas daqui a pouco... Oh! Não! Laura você fez cocô? Mas ainda não acabou de arrotar, não posso deita-la. Vou continuar andando até dar os 15 minutos.

De repente, uma coisa emendou na outra. Troco a fralda e percebo que já eram quase 9:30h da manhã, então precisava correr com ela para a área de serviço para tomar sol por causa da icterícia. Como ela ficou muito suada após o banho de sol, comecei o ritual do banho imediatamente. A coisa toda levava mais de uma hora. Encher banheira, medir temperatura da água, preparar a roupinha, apetrechos de higiene do ouvido e do umbigo, cremes, pomadas e óleo de massagem. Mal o banho termina e havia mais um cocô na fralda. Às 11h comecei uma nova seção de mamada. Quando o relógio bateu as 12 horas, eu ainda não havia escovado os dentes ou meus cabelos. Estava faminta, suada dentro da camisola azul, cambaleando com a bebê pela sala para fazê-la arrotar. Nem me lembrava mais que um dia eu havia sentido vontade de fazer xixi. E o cenário não ajudava em nada a levantar meu humor. As cobertas ainda estavam emboladas em cima da cama, a sala era um amontoado de babetes, chocalhos e fraldas. Não havia almoço, apenas um pacote de bolachas que abri desajeitadamente com uma mão só enquanto segurava o bebê com a outra. Se tentava deitar Laura no berço ou senta-la no bebê conforto para cuidar de mim um pouco, ela chorava, se agitava. Então a única coisa que fiz por mim mesma foi enfiar duas bolachas de maisena na boca e continuar a cuidar da menina.

O sono e o cansaço me deixaram mais confusa e o impressionante é que Laura não dormia. Olhava seus pequeninos olhos e ela parecia estar terrivelmente entediada, como se não pudesse suportar ficar presa naquele corpinho sem poder andar e ir cuidar da vidinha dela. Eu me sentia na obrigação de, não apenas suprir suas necessidades básicas, mas conseguir entretê-la, mantê-la interessada em algo. Fazê-la feliz! E nessa constante exigência comigo mesma eu cada vez me frustrava mais.

Este havia sido um dos mais longos dias da minha vida. Quando a noite chegou, o suor impregnado no meu corpo colava a camisola na minha pele e sentia náuseas por ter ingerido apenas o pacote de biscoito maisena. Durante todo o dia, ninguém me telefonou. Era um dia de semana, trabalho duro para todos, mas eu queria atenção. Queria ajuda. Queria ouvir a voz de outro ser humano, trocar ideias, perguntar uma sugestão. Lembra-se das “10 Regras” para aproveitar sua gravidez de quarentona? Pois seja bem-vinda à “Regra Única” para cuidar do seu bebê! Ei-la: NÃO EXISTEM REGRAS PARA CUIDAR DE BEBÊS!

Sinto muito ser eu a te dar esta notícia, mas esta é a verdade nua e crua. Cada bebê é único, o que funciona com um não funciona com outro. Mas talvez o mais complexo é que cada mãe também é única e o que uma consegue fazer a outra não consegue. O que uma acha normal, a outra pode considerar o fim do mundo. E eu sei que parece egoísta e cruel, mas estava achando aquela rotina de mãe o fim do meu mundo!

Esta rotina solitária se estendeu por semanas. Eu estava exausta, confusa, com medo e me sentindo abandonada. Tudo era novo e desafiador demais. Assim, como eu estava enfrentando uma vida nova, meu marido também tentava se adaptar a um novo emprego, por isto as energias dele estavam igualmente divididas.

Comecei a ter medo de Laura. Olhava para ela e sentia medo mesmo, pânico! Ela se tornou o Bebê de Rosemary para mim. Meu medo era ficar com ela e precisar fazer alguma coisa que eu não soubesse ou que fizesse algo errado. E se eu a matasse acidentalmente? E se não aguentasse de cansaço e caísse desmaiada no meio da sala? Laura morreria na queda ou podia ficar horas se debatendo no chão chorando. Este pensamentos me enchiam de terror e atrapalhavam até os momentos doces que dividíamos juntas. Mesmo quando estava tudo bem e ela ressonava em meus braços, os pensamentos trágicos surgiam de repente em minha mente, fazendo-me ter sobressaltos. Pronto! Eu sabia que isso ia acontecer um dia, só não pensei que seria justo agora que me tornei mãe. Mas que ia acontecer, todo mundo já sabia. Eu havia ficado louca! Não do jeito engraçado que me diziam às vezes quando decidia, do nada, sair dançando e cantando pelo escritório; mas louca mesmo, de babar, morder parede e jogar pedra em avião voando.

No meio deste caos, eu só sabia de uma coisa. A culpa era minha. Laura era boa e eu era má. Que tipo de mãe fica confusa assim, perdida assim, com medo da própria filha? Era um problema grave, que me causava imensa vergonha e a respeito do qual eu precisava decidir o que fazer. Como sempre, tomei uma decisão madura: resolvi fingir! Comecei a fingir que estava tudo bem e não contei para ninguém o que sentia. Assim, todos continuariam a pensar que eu ainda era aquela supermãe dos primeiros dias, destemida, dando banho sozinha, amamentando, cuidando do umbigo... Infelizmente, a pessoa que eu mais queria enganar, era exatamente a única que sabia que eu realmente não estava bem. Só ela sabia, mas não ia contar para ninguém. Afinal, Laura ainda não sabia falar.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Brincando de casinha

Sabe aquela boneca especial? Aquela que você arrastava para onde quer que fosse, era sua filhinha em todas as brincadeiras, tinha o nome que você gostaria de dar a um bebê de verdade? Pois é, eu não tive essa boneca. Veja bem, não é porque éramos pobres. Pensando bem, era por isto também. Mas para piorar, como terceira filha, eu não tinha realmente muito prestígio. Lembro-me de Cláudia e Simone terem brinquedos mais legais que os meus. Um dos brinquedos que eu cobiçava eram as duas cozinhas de latão esmaltadas de branco e vermelho com janelinhas de acrílico amarelo que se abriam e fechavam. Mas com certeza, o supra sumo do meu delírio de consumo eram as bonecas Susie (prima pobre da Barbie). A Simone tinha uma Susie loura, com cara do boboca e olhos arredondados. Mas a Susie da Cláudia era algo totalmente inesperado. Moreníssima, numa época em que nem se pensava em bonecas politicamente corretas, e com um cabelo arruivado que formava cachos nas pontas. Um olhar misterioso, linda de morrer.

Acho que meus pais pensavam que eu não precisava de bonecas já que podia pedir emprestado as das duas irmãs mais velhas. Entretanto, acho que nem o Papa conseguiria que Cláudia emprestasse a ele a Susie para ele. Então, eu estava sempre cobiçando a boneca da próxima.

A única boneca da minha infância digna de nota era uma destas que não se parecem bebês, mas sim adultos menores. Seu nome era Rita e ela era loura mas seu cabelo era tão feio que um dia passei a tesoura neles. Pensei que cresceriam melhores... Rita não me inspirava nenhuma ternura de mãe.

Para a tragédia infantil minha e de minhas três irmãs, éramos vizinhas de quatro meninas ricas. Elas possuíam bonecas de todo jeito, inclusive importadas, de dar corda embaixo, que se mexiam lentamente de um lado para o outro enquanto tocava uma caixinha de música. As Susies delas eram repletas de roupinhas que a empregada costurava, com detalhes chocantes como botões e paetês. Lembrem-se, eram os anos 70, não se encontrava roupas prontas de boneca para vender.

Mas toda turma de criança tem um líder, e no nosso caso, a líder das brincadeiras nossas e das vizinhas era Cláudia. Minha irmã tinha um carisma magnético, ela simplesmente mandava e todos obedeciam. Moderna, destemida, ela não gostava de brincadeiras pré-definidas. O negócio dela era inventar. Brincar de espiãs, interpretar personagens como bruxas e fadas, vestir as roupas da mamãe e passar maquiagem e até mesmo fingir que éramos As Panteras ou A Mulher Biônica por um dia. Então, este negócio de casinha, mamãe e filhinha não era muito a nossa praia. Eu queria mesmo era ser detetive ou ser A Feiticeira quando crescesse.

Quando vivemos tempos de vacas mais gordas lá em casa, ganhei pela primeira vez ganhei uma boneca realmente fofa! Parecia um bebê! Seu nome era Cosquinha, e com a ajuda de pilhas ela ria por alguns segundos uma risadinha tão deliciosa que dava vontade de abraçá-la. O único problema é que, como demorei muito para ganhar este bebê, eu já estava velha demais para brincar de boneca.

Engraçado como a vida gira em círculos. Eu também ganhei o meu bebê de verdade quando já estava velha demais para passar noites em claro sem me sentir um caco no dia seguinte. Já estava meio enferrujada para atravessar a maratona levanta de madrugada, amamenta, troca fralda, dá banho, mede temperatura, troca fralda, embala neném, ferve bico, troca fralda... Ufa!
Ser mãe aos 40 faz com que você se sinta uma menina de 20 anos! Carregando o bebê nos braços, você parece mais bonita. Amamentar no peito faz você acreditar que seu corpo é capaz de muitas outras proezas como dar cambalhotas. Tudo é novidade, cada dia é um desafio emocionante, uma aventura! Acima de tudo, ter um bebê é a grande sensação de estar começando a sua vida, de ter todos os seus sonhos ainda por realizar bem na sua frente!

Mas ser mãe aos 40 também faz com que você se sinta uma senhora de 70 anos! Seu peito cai, seu rosto cai, sua bunda cai. Você não tem energia para levantar uma caixa de fósforo. Tudo é novidade, ou seja, você está sempre insegura e cada dia é mais maluco que o outro. Além disso, ter um bebê é a grande sensação de que sua juventude acabou, agora vai começar a história de outra pessoa: a do seu filho. Sua história já era! Suas músicas são antiquadas e você não tem a menor idéia de quem é Fiuk. Pintar os cabelos não é uma questão de mudar o visual, é uma obrigação para se cobrir os brancos. Maquiagem não é uma opção, é uma necessidade para não assustar as outras pessoas.

Deixando esta questão “deprê” de lado (abreviar depressão é um hábito dos anos 80! Olha eu entregando minha idade de novo), vamos ao que interessa – prepare-se para brincar de casinha!
A não ser que você já tenha sido uma dona de casa de verdade, coisa que nunca fui, os 6 meses de licença maternidade são o vislumbre de um mundo novo no qual eu jamais havia adentrado. Para você ter uma idéia, nunca tinha usado as xícaras de café na mesa e nem sabia cozinhar outra coisa que não fosse a sopa de repolho para fazer dieta. Mas agora sua vida social será mais intensa que a da Paris Hilton! Você receberá visitas todos os dias. Pelo menos umas 4 por dia. Se estiver cansada, com olheiras de noites e noites sem pregar os olhos, com dor nas costas pela posição da amamentação e com seu cabelo ainda sem tintura, problema seu! Existem familiares, amigos, vizinhos, conhecidos e desconhecidos que precisam ver o seu bebê! E não apenas ver o seu bebê, mas tomar o seu café, comer os seus biscoitos, visitar todos os cômodos do seu apartamento e então finalmente partir deixando um rastro de xícaras sujas atrás de si. Você deve recebê-los com sorriso nos lábios pintados de batom, de preferência. Providencie que o bebê esteja limpo e apresentável bem como a casa. Jamais conte detalhes do parto nem seja louca de mostrar a filmagem. E coloque uma vassoura de cabeça para baixo atrás da porta da cozinha. Quem sabe, funciona...

Brincar de casinha foi legal no começo. Colocar xícaras na mesa, encher potes com biscoitos, alisar os presentinhos... Mas visita boa mesmo são de pessoas que avisam antes de aparecer. E as melhores de todas: chegam na sua casa, vão para a cozinha e lavam toda a sua louça. Ou as que pegam o bebê no colo e dizem:

- Durma um pouco, ficarei com o seu bebê enquanto isto.

Tem ainda as que trazem uma torta salgada para você não se preocupar com o jantar. No caso, um alívio para o meu marido já que eu não cozinhava mesmo. As pessoas deveriam entender que a visita realmente elegante sabe que a mulher recém parida precisa mesmo é de repouso e ajuda! Não aparecer na sua casa esperando ser servido mas aparecer para servir.

Mas a gente só aprende isto quando vive na própria pele. Minha amiga Vânia terá seu bebê em dezembro. Vai se chamar David e será irmão do Mateus (bela escolha de nomes, heim?). Pois eu vou fazer questão de visitar assim, com um bom par de luvas de borracha na bolsa para lavar o que estiver sujo na cozinha, levar o meu próprio lanche e ajudar no que puder. Até mesmo trocar as fraldas do pirralho enquanto estiver por lá. Só tenho medo desta parte, já que nunca troquei fralda de menino. Fico meio sem graça, acho falta de respeito pegar num pintinho inocente e ter que mexer naquela pelezinha para limpar tudo direito. Mas enfim, se é para ajudar, prometo encarar mais esta.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Balada

Sentada no quarto do hospital, eu brincava com Laura tentando desviar minha mente das preocupações. Era uma linda manhã de sol e uma de minhas irmãs estava comigo naquele quarto tão luxuoso que mais se parecia com um hotel. Laura estava rindo, o que não era nada comum no caso dela. Aliás, ela estava bem diferente mesmo, maior do que eu me lembrava, mais desenvolvida.

- Vai dar tudo certo – disse minha irmã segurando minha mão.

Mas em seus olhos eu via a mesma preocupação que havia no meu coração. Contemplei Laura. Ela não parecia doente, mas no fundo sabia que havia algo de errado. A porta se abriu e uma médica muito bonita de cabelos castanhos entrou com seu jaleco ainda mais branco que as paredes do quarto. Ela segurava um envelope, o resultado dos exames com certeza. Senti meu pulso se acelerar enquanto ela se sentava ao meu lado. O que mais me aterrorizava era a tranquilidade cuidadosamente estampada em seu rosto. Ela deu um sorriso triste.

- Ela está bem, doutora? - perguntei com o coração aos pulos.

A médica sustentou o sorriso e ergueu a mão para afagar meus cabelos.

- Ah, Márcia! Você já sabe o que eu vou dizer, não é?

A dor se espalhou em meu peito e as lágrimas caíram queimando como fogo. Queria gritar mas o som não saía. Finalmente acordei ofegante, sentando-me na cama de um salto. Mesmo percebendo que tudo não passara de um pesadelo, eu continuava a chorar de verdade. Pulei da cama e corri para o quarto ao lado, no escuro mesmo. Não era coisa difícil de se fazer, na verdade bastava dar seis passos para chegar da cama no meu quarto até o berço no quarto do bebê. Esses apartamentos de hoje em dia...

Me inclinei sobre a grade do berço e, com dificuldade, reconheci a minúscula silhueta deitada de lado, presa entre os rolinhos de espuma e as almofadas. Tinha pavor das histórias macabras de bebês que rolam de bruços e se sufocam ou ficam de costas e se engasgam. Por isto, mantinha minha bebezinha como uma verdadeira mumiazinha, imobilizada no centro do berço.

Ela parecia estar bem, mas como ter certeza? Não conseguia ouvi-la ressonando. Ascender a luz, nem pensar! E se ela acorda? Eu já havia me levantado quatro vezes só naquela noite. Uma para trocar fralda e as outras três para correr até o berço e confirmar se o gemido que havia ouvido não era nada sério. Eram pequenos gemidinhos e sussurros que soavam alto em meus ouvidos porque eu mantinha a babá eletrônica, emprestada por minha irmã Alessandra, ligada no último volume, bem ao lado do meu travesseiro. Mas precisava ter certeza de que ela estava dormindo e não morta. Coloquei a mão delicadamente em sua barriguinha, mas não senti qualquer movimento. Dei uma cutucada de leve. Nada. Mais um cutucão e outra vez, nada. Parti para uma sacudidela mesmo e finalmente ela gemeu. Graças a Deus! Ela está viva! A cada dia que passava, eu e meu marido costumávamos dizer uma para o outro:

- Tudo bem! Até agora não matamos o bebê.

Ela estava se revelando uma criança realmente forte, sobrevivendo aos nossos cuidados. O último bebê de que cuidara afora minha sobrinha Vívian de 11 anos e Elberth jamais cuidou de nenhum. Mesmo assim, às vezes ele se saía melhor que eu.

Ok! Então, ela está viva e eu preciso voltar para a cama. Deus, como estou com sono, pensei enquanto me enfiava debaixo das cobertas. Relaxei o corpo e estava tão cansada que me senti caindo no sono quase imediatamente. De repente, um som alto me despertou de forma brusca e assustadora. Como se minha alma, que havia começado a flutuar docemente nos braços de Orfeu, tivesse sido violentamente puxada para baixo e socada à força para dentro do meu corpo. Abri os olhos, tentando entender o que acontecia. Laura chorava, aquele chorinho doce e terrível dos bebês bem pequenos. Saí da cama e a tontura me atingiu de imediato, fazendo parecer que os seis passos que precisava dar até o berço eram na verdade quarenta. O pequeno bebezinho chorava com os olhinhos fechados, mexendo a cabeça e com os punhos dando soquinhos no ar.

Chegou a hora de ir pra balada!

Isso aí, DJ, coloca o som no máximo que vai começar o show desta noite. Sacode o esqueleto e se espreguiça que a balada de hoje está só começando. Primeiro, ascenda o abajur. Depois, abra suas asas, solte suas feras e abra também a fralda que tem cocô para limpar. Nessas primeiras semanas, toda fralda tem cocô para limpar. Uhu! Yes baby! Limpe bem mas sem machucar, nunca imaginei uma pererequinha muito menos um cuzinho tão pequenininhos; como podiam fazer tanta sujeira?

Continua a balada. Você está procurando agito? Uma companhia para passar a noite toda acordada com você, sem descanso? Então, tenha um bebê. Toda noite é uma boate na sua casa, com som alto (choro), muito agito (você balançando o neném pelo apartamento afora) e a maior ressaca na manhã seguinte (de sono).

Vamos lá, galera, vai começar o strip tease! Equilibre o bebê nas coxas enquanto desabotoa o pijama, o sutiãn e jogue o peitão para fora. Madame, seu drink está pronto. No começo, os bicos dos seios ainda estavam muito machucados e quando Laura dava aquela sugada inicial, meus olhos se enchiam de lágrimas. Eu a amo, eu a amo – era meu mantra especial destes momentos, pois a vontade era realmente jogá-la do outro lado da sala. Mas aos poucos a sensação ficava agradável, pelo menos nos primeiros vinte minutos. Este era o plano da balada noturna:

20 minutos em um peito;
05 minutos arrotando;
20 minutos no outro peito;
15 minutos no arroto final.


Daria uma hora certinho se minha nenenzinha não caísse no sono a cada 5 minutos. Quando ia fazê-la arrotar entre um peito e outro, aí era ainda mais difícil mantê-la acordada. Não adiantava aproveitar para colocá-la no berço, se ela não estivesse com o pandú cheio, acordaria de novo em pouco tempo. O negócio era conseguir que ela ficasse acesa para encher o tanque.


De toda a balada, para mim duas partes eram as piores. A primeira era quando eu era acordada no meio da noite, ou de um sono profundo ou daquele comecinho de sono. Isto e me assustava, chegava a sentir dores no corpo. A outra coisa de que não gostava eram os tais quinze minutos finais, quando tinha que segurá-la em pé até que o perigo de refluxo passasse. No começo eu ficava lá, firme. Mas aí, começava a ouvir a voz do fantasma hipnotizador no meu ouvido.


- Você está ficando com sono... muito sono! Seus olhos estão ficando pesados... muito pesados. Eles estão se fechando, você não pode resistir ao comando de minha voz! Durma agora!


Às vezes eu só dava umas pescadinhas com os olhos. Outras vezes, acordava segundos antes de esmagar Laurinha com meu corpo, quase caindo com ela no chão. Então, adotei o método “caminhada noturna”. Eu passeava pelo apartamento todo com ela nos braços. Sala, cozinha, área, cozinha, sala, quarto do bebê, quarto da mamãe, sala... Quando chegava na cozinha era o pior pois via o relógio do microondas marcando as horas. A caminhada era no escuro e sozinha. Elberth não tinha o equipamento necessário para amamentá-la, então combinamos que eu ficaria sozinha todas as noites para ele dormir e poder trabalhar no dia seguinte. Eu sabia que era a escolha mais lógica a se fazer, mas não podia evitar de me sentir prejudicada, como se ele ficasse com a parte que eu mais queria de tudo: poder dormir à noite. Lembre-se, jurei dizer a verdade. Se espera ler o relato de uma mãe perfeita que se ajustou imediatamente aos sacrifícios da maternidade, é melhor mudar de blog. A coisa aqui vai ser reality show.


Às vezes cambaleava nas caminhadas noturnas, tão sonolenta estava. Quando finalmente eu checava no microondas se os 15 minutos mais longos da minha vida tinham acabado, era hora de colocar o bebê de volta no berço. Surpresa: Laura, que ficara caindo de sono o tempo todo na hora de mamar, agora estava acessa! Os olhinhos arregalados, me olhando entediada.


- E aí, mãe? O que vamos fazer agora? Estou de estômago muito cheio, não vou conseguir dormir.


-Laura, eu estou morrendo de cansaço, vamos dormir agora mesmo, ouviu?


- Não está passando aquele seriado da Maysa?


- Isto não é para a sua idade, filha, você só tem 7 dias de nascida...


- Liga lá, mãe. Aquele Mateus Solano é um gato!


- Se você já vai começar sua vida gostando de cafajeste, começou mau. Bom, tudo bem, é só um personagem.


Liguei a TV e assisti ao capítulo de pé, balançando o bebê, o som tão baixinho que acho que até aprendi a fazer leitura labial. Não era exatamente o melhor momento do meu dia – ou da minha noite. Primeiro, os pesadelos, depois a balada e, por último, ficar alí de pé, caindo de exaustão e ouvindo aquela mulher deprimida cantando “Meu Mundo Caiu”. É, acho que aquilo realmente não ajudou muito a evitar que eu acabasse ficando completamente louca.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Socorro! O bebê chegou! Salve-se quem puder!

- Amor, cuidado com a velocidade! O guarda vai acabar multando a gente.

- Estou indo muito rápido?

- Multa por velocidade abaixo da permitida. Acho que estamos a uns 10 quilômetros por hora. Ou talvez nosso carro esteja até parado...”

O motorista atrás de nós buzinou ruidosamente.

- Passe por cima! - respondeu meu marido. - Estou levando minha filhinha de 3 dias de vida para casa. Eu não vou correr de jeito nenhum, seu maluco. Essa é a carga mais preciosa da minha vida...

Ele continuou a esbravejar com o motorista que, na verdade, já havia nos ultrapassado desde o primeiro berro. Olhei para a cesta de babados que trazia em meus braços. Afogada naquele mar de panos estava minha bonequinha que eu carregava como se fosse de cristal. Não podia criticar Elberth por seu excesso de zelo já que eu mesma havia exagerado na hora de vestir Laura. Com medo de um resfriado, de "pegar friagem" ou sei lá o quê, encapotei a menina como se ela fosse fazer uma viagem ao Alasca. Eu sei que os bebês na verdade não sentem mais frio que os adultos, apenas perdem temperatura mais rapidamente. O pediatra da minha irmã dizia que o melhor método para saber o que vestir no bebê é olhar para a roupinha dele e se perguntar: eu vestiria isto em mim mesmo? Usando esta técnica, eu deveria me perguntar: eu vestiria este macacãozinho de plush rosa com pequeninas florezinhas estampadas, me envolveria nesta manta cheia de babados e laços, tudo isto debaixo deste sol de meio dia? Resposta: sim! Afinal, o macacão era lindo de morrer e havia o lado emocional, pois pertencera à minha amada sobrinha Vívian! Isto valeria qualquer sacrifício. Além do mais, eu me sentia mais segura encapotando Laura. Ela era tão pequena, tão frágil... Na verdade, a manta era pouco para mim. Meu plano original era embrulhá-la com plástico bolha antes de sair do hospital, assim ficaria mais segura contra qualquer impacto. O mundo aqui fora parecia tão cheio de perigos e até o berçário da maternidade não me parecera muito melhor que a favela da Rocinha. Naquela manhã, fui ao berçário toda satisfeita pegar minha filha. Entreguei uma espécie de recibo vale-bebê para a enfermeira e ela me trouxe Laura em estado deplorável. Seus olhos estava inchados e ela tinha manchinhas, como pequenos hematomas pelo rosto.

- Mas o que foi que aconteceu? - perguntei perplexa – Ela brigou com os outros bebês do berçário?

-É uma pequena irritação na pele. Não se preocupe, é assim mesmo.

Não acreditei em uma só palavra. Minha filha se envolvera numa briga de socos, eu tinha certeza. Mais um motivo para sair correndo daquele hospital. Já havia enfrentado enfermarias antes, dias solitários e noites insones, com cortes muito piores que o da cesariana. Mas com a emoção do bebê, estar sozinha era enlouquecedor. Mal sabia eu que aquilo não era nem a metade da solidão que me esperava nos meus primeiros dias de maternidade.

Quando entramos com Laura no apartamento pela primeira vez, Bianca, prima do meu marido, registrou o momento histórico com a câmera fotográfica. Aquela casa nunca mais seria a mesma depois da chegada de sua nova moradora. Cada cômodo daquele apartamento seria transformado de acordo com as necessidades e vontades daquela pessoa de quarenta e poucos centímetros. Ela não pesava nem 4 quilos, mas iria governar aquele reino com mãozinhas de ferro. O quarto de Laura estava finalmente arrumado, gentileza das tias do Elberth, Heloísa e Cláudia. Até o cheiro do quarto parecia mágico.

Bianca saiu do apartamento por alguns instantes e ficamos sós pela primeira vez. Eu, meu marido e minha filha. Nossa família. Colocamos Laura no berço todo decorado em branco e lilás, o cortinado maravilhoso caindo sobre os protetores bordados com desenho de uma menininha também de vestido lilás. Eu e Elberth mal podíamos falar. A emoção era forte demais. Ela estava ali! Depois de tantos momentos de sonho, de insegurança, de expectativa, finalmente tudo se tornou real. A alegria foi crescendo em meu coração até se transformar em pânico total! Meu Deus, a menina está aqui, e agora? O que é que eu vou fazer? Gente! Aqueles médicos me deram alta? Como é que pode? Eles acham que eu sou capaz de criar esta criança sozinha? Eu não tenho nenhuma especialização no assunto, sei lá, deveria ter feito uma pós graduação, um MBA... Não me lembro de nada do que eu já li naquelas centenas de revistas Pais & Filhos. Socorro!

Calma, Márcia, calma... Respire fundo, isso mesmo. Não deixe transparecer o pânico no seu rosto. Você consegue, eu sei que sim! Você enfrentou tantas coisas no seu emprego, sobreviveu aos chefes mais tiranos e psicopatas, tirou carteira de motorista em Minas Gerais na segunda tentativa (coisa quase impossível para uma mulher) e já andou de banana boat em Guarapari. Pior: caiu da banana boat, aos 38 anos, em alto mar e a galera considerou deixar você lá para morrer porque ninguém conseguia colocar “a dona gorda” de volta na banana. Então, isto não pode ser mais difícil que subir na banana, é só um bebê. Além do mais, eu não estou sozinha, meu marido está bem aqui, ao meu lado...

- Eu tenho que sair - ele disse de repente.

- Aonde você vai!?

- Só vou no supermercado buscar...

- Você vai me deixar aqui sozinha com ela?

- A Bianca fica com você.

- A Bianca tem um piercing no umbigo e uma fada tatuada nas costas. Ela não sabe cuidar de bebês, Elberth.

- Agora você é mãe, Márcia.

Aquelas palavras me invadiram. Agora, eu era mãe. Sim, ninguém estava acima de mim, eu criava minha própria gente e produzia alimento do nada... acho que já disse isto. Comecei a me sentir incrivelmente forte e poderosa. A natureza era sábia, e se ela achou que eu podia ser mãe, então ninguém seria uma mãe melhor que eu. Eu vou dar o banho sozinha, como aprendi no hospital com a enfermeira anjo magrinha. Comecei a repassar mentalmente os passos do banho do bebê, como segurar, como virar, enxugar a cabeça primeiro... ah! Claro! E o nojento do umbigo preto e gosmento. Eu mesma iria cuidar daquela coisa, era só jogar álcool absoluto e secar bem. Em 4 ou 5 dias tenho certeza de que aquele trem cairia, como disse a médica. (Infelizmente o tal umbigo nojento, que parecia um pedaço da múmia de Tutan Camom, levou mais de 10 dias para cair. E para piorar, ficou mais uns 10 dias em cima da televisão enquanto minha sogra decidia sobre o melhor lugar para fazer o “enterro” do umgibo nojento. No final, foi enterrado perto de uma roseira onde está enterrado também o umbigo do meu marido. Cruzes!)

Quando Bianca chegou eu já estava possuída pelo espírito da mãe parideira, da mãe terra ou mãe natureza, sei lá. Eu simplesmente me senti a mãe da própria vida. Não precisava mais de conselhos ou de ler qualquer coisa para me orientar. Seguiria meus instintos e eles me conduziriam sempre para a melhor decisão em relação ao meu filhote. Nem me sentei ou tomei um café. Arregacei as mangas e preparei tudo para o primeiro banho em casa. O arsenal necessário para esta atividade deixaria a Hebe Camargo surpresa, nem a maquiagem dela deve envolver tantos potinhos, algodões, creminhos, pomadinhas, cotonetezinhos, quanto o banho de um recém nascido. Joguei na banheirinha um termômetro em forma de patinho que uma amiga do trabalho me deu. Medi a temperatura da água, preparei a toalha com a fralda por dentro e mergulhei o bebê.
Bianca me ajudou em tudo o que pedi e ficou impressionada em como eu estava representando bem meu papel de mãe. Esta surpresa ainda iria ficar estampada no rosto de muitas pessoas. Nos meus primeiros dias de maternidade, ninguém acreditava em como eu estava pronta, como era eficiente e cheia de energia em todas as tarefas. Destemida mesmo! Minha sogra me elogiou sobre como eu tivera coragem em dar o banho sozinha desde o primeiro dia de vida do neném. Minha mãe ficou boquiaberta ao me ver amamentar com tanta tranquilidade. Minhas irmãs todas disseram que eu era uma mãe muito melhor do que elas tinham imaginado que eu seria. Pensaram que eu ira ser totalmente descontrolada e desequilibrada. Que eu iria me estressar totalmente com tanto trabalho e tão poucas horas de sono. Que eu iria ficar agressiva e psicótica ao ter o meu mundinho virado de cabeça para baixo e estavam todas muito felizes em ver como estavam enganados.

Eu mesma estava surpresa comigo. Meu Deus, como eu era boa! Nada me importava, nem ficar sem comer ou sem dormir. A cada segundo da minha vida, meu único pensamento era ela. Na hora em que abria os olhos, o rosto dela vinha em minha mente. Quando tentava dormir, a imagem dela também era a última coisa na qual pensava. Laura era tudo. E eu era... Eu era feliz. Tão feliz e tão orgulhosa de ser mãe, que nem sequer imaginava o quanto estava perto de me quebrar toda em mil pedacinhos.