A nova geração das mães não é tão nova assim.

A nova geração das mães não é tão nova assim. Se você colocou a universidade, a carreira, o regime e até o marido na frente da maternidade e depois teve que correr atrás do prejuízo, bem-vinda ao blog das novas mães maduras.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Ser mãe é engordar no paraíso

Primeiro, você engorda porque engravidou. Aí, emagrece porque pariu. Pelo menos os pesos do bebê e dos líquidos saem do seu corpo apesar de não fazer a menor diferença. Você continua tão inchada que imagina se não eram gêmeos e o médico esqueceu uma das crianças lá dentro (não esquecem até tesoura?). Vem a amamentação, que faz você emagrecer. Parece um milagre! Você come feito uma vaca parideira e continua magrinha. Dá vontade de colocar uma placa na janela assim - "Amamenta-se bebês, crianças e até adultos tarados", qualquer coisa para não parar de perder peso. Mas aí, acontece a descoberta traumática: amamentar, na verdade engorda! É sério e eu posso provar. É alta madrugada, você está aquele bagaço e o bebê te acorda querendo mamar. Os minutos vão passando e você ali, bravamente acordada assistindo seu filho encher a pança. Aí você pensa: "Acho que vou comer uma coisinha..." Pronto! Aí é que mora o perigo.

No começo, até tentei maneirar, sabe como é, uma frutinha apenas. Mas o sono misturado ao cançaso acaba fazendo aquele biscoito recheado de chocolate parecer um consolo irresistível. E teve noite de fritar ovos também. Quer a verdade nua e crua? Rolava chocolate noita a dentro, pronto, confessei! Poxa vida, Laura ali comendo à vontade e eu chupando dedo?

Bom, a amamentação um dia acaba, mas a mania de comer sempre que o bebê acorda não acaba nunca. O problema é que a criança para de acordar no meio da noite para mamar, mas continua acordando pela madrugada à fora por outros motivos, como trocar fralda ou pedir bico. Você vai voltar para a cama depois de atender o pimpolho e pensa: "E aquele biscoito recheado de chocolate, heim? Onde será que ele está? A gente não se fala desde o tempo em que eu dava de mamar para o bebê. Acho que vou fazer uma visitinha a ele agorma mesmo." Percebeu a roubada na qual você se meteu?

Hoje eu não entrei na calça jeans. O problema é que essa calça jeans ficava larga em mim. Ouvi sirenes tocando. Era um incêndio perto da minha casa ou minha consciência me dando um aviso?

Uuuuáááánnn, uuáánn, você se fudeuuááánnn...

Muito bem, operação MAMÃE EM PERIGO começa hoje (droga, hoje é segunda-feira! Regime que começa segunda está fadado ao fracasso...). São 11 horas da manhã e já tô louca de fome! Hoje eu comi 1/2 manga, uma fatia miserável de pão torrado sem manteiga, um café e um chá com adoçantes e uma banana raquítica. Estou sentindo que vou chegar no restaurante self service feroz como um lobo selvagem. Já sei: vou me entupir de água! Espero que dê certo. A operação MAMÃE EM PERIGO tem que funcionar até o dia 14 de fevereiro, quando entro de férias e supostamente devo entrar também em um biquini. Que Deus esteja comigo nesse momento!

COISAS DE LAURINHA

Ontem Laura assistiu o filme do nosso casamento pela primeira vez. Não acho que ela sabia antes o que significa casar. Me viu toda linda naquele vestido, o pai de terno, as tias todas arrumadas e ficou maravilhada, pulando pela sala.

- Alí o vovô Cláudio! Olha a Didi!

Depois da cena no altar, emocionada, ele correu para mim e me puxou pela mão.

- Vem aqui mãe.

Como sempre, obedeci. Ela então me colocou ao lado do Elberth juntando também nossas mãos:

- Mamãe, casa com o meu pai!

Isso faz valer todos os quilos a mais, naõ é mesmo?

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Surtei geral

Numa bela manhã, abri a janela e ouvi o canto dos pássaros chilrreando no jardim... Tá bom, eu estou exagerando: não tenho jardim. E quando eu abro a janela de manhã, o único barulho que ouço é o do ônibus subindo a rua e soltando fumaça. Mas de fora esse cenário bucólico, realmente eu acordei uma manhã com uma decisão na minha cabeça: não dava mais para continuar com aquela paranóia toda com a Laura! Eu estava perdendo o melhor da maternidade, a alegria dos pequenos e mágicos momentos de acompanhar o crescimento do bebê. A cada dia que passa, o bebê muda, aprende alguma coisa nova. Assim, do nada, ele aprende a fazer um barulhinho diferente com a boca, consegue se esticar um pouquinho mais no berço ou, a maior das delícias, acaricia o rosto da mãe com sua mãozinha rechonchuda! Mas eu estava gastando toda a minha energia tentando fazer tudo funcionar de forma perfeita para alcançar então a felicidade e com isso, acabava perdendo os pequenos e inesquecíveis momentos imperfeitos. São exatamente esses pequenos momentos reais e ao mesmo tempo tão mágicos que, ao final da jornada, enfileirados um ao lado do outro, formam o que a gente chama de felicidade. Quando você cria um bebê, seu dia fica repleto de instantes assim, que acontecem sem aviso, antes mesmo de você conserguir encontrar a câmera fotográfica. Decidi que era a hora de curtir minha filhotinha.
Sob o sol da manhã e no final da tarde, acomodava Laurinha no carrinho de bebê e saía pelo bairro. Nunca havia reparado como meu bairro é idiota! Não tem num uma única pracinha, uma padaria próxima e a única igreja estava em reforma. Tudo bem, aquela era também uma ótima oportunidade para eu andar um pouco e perder peso. Afinal, em breve eu teria que entrar em minhas antigas roupas, que não eram assim um 42, eram mais para 44. Mas isto seria melhor que os atuais 46, então subia e descia morros empurrando o carrinho e conversando com minha filha.
Com minha crescente religiosidade, rezando terços e acreditando em anjos, o CD do Padre Marcelo & Cia se tornou o sucesso número um do meu aparelho de som. Colocava as músicas religiosas na cozinha e saía com Laura para a área do apartamento, dançando com ela nos braços. Imagino a vizinha do andar de cima assistindo àquela cena: mãe recém parida, descabelada e de camisolão azul dançando em círculos com seu bebê ouvindo no último volume o refão "Nossa Senhora, me dê a mão, cuida do meu coração!" Eu juro que tenho CDs do Titãns, Skank e Paralamas. Sou até meio descolada a ponto de curtir Lou Reed e Tom Waits! Mas você há de concordar que aquela trilha sonora espiritual funcionava melhor para o meu final de dia como uma exausta mãe de 40. Claro que rolavam outras músicas também, mesmo as de gosto mais duvidoso. Uma vez Elberth participou do meu momento musical. Uma das filmagens mais deliciosas desse período mostra meu marido segurando uma Laurinha de 3 ou 4 meses e dançando "Volare" dos Gypsi Kings. Elberth dança tão bem quanto um cabo de vassoura mas com a filha nos braços ele arriscou vários passos, rebolou e fez uma cara de amante latino compondo uma cena digna de figurar no Youtube.
Era à noitinha que batia mais forte a solidão, depois de um dia inteiro de silêncio que eu tentava preencher com a música. Eu precisava conversar com alguém! Meu Deus, nunca pensei que eu fosse tão viciada em falar e ouvir o outro! Eu sou uma mulher cheia de palavras que me entopem o pensamento o dia inteiro e a única coisa que me alivia é fazê-las sair pela garganta a fora. Esse é o meu jeito poético de dizer que sou uma tagarela profissional, eu faço tudo falando, só sei trabalhar falando, caminhar falando, rezar falando. Falo até em cadeira de dentista, mesmo com a baba escorrendo pela boca e correndo o risco de cortar a língua fora com os objetos de tortura moderna da odontologia. Eu simplesmente não perco nunca a chance de uma boa conversa ou um ótimo monólogo. Por isso sempre esperava ansiosamente meu marido voltar do trabalho para disparar impiedosamente:
- Oi, amor! Que bom que você chegou! Sabe o que a Laura fez hoje? Bem, ela não faz realmente coisa alguma, mas tenho a impressão de que ela entendeu o que eu disse, juro! Contei para ela sobre como a gente se conheceu na igreja... Lógico que eu não disse toda a verdade, né? A gente se conheceu mesmo foi bebendo cerveja na feirinha ao lado do muro da igreja mas é quase a mesma coisa... Bom, o importante é que ela acompanhou a história como se estivesse entendendo e... Amor? O que foi? Que cara é essa?
- Márcia, você se importaria de me deixar entrar no apartamento antes de continuar a me contar essa história? A sacola de compras está pesada...
Eu nunca me senti tão mulherzinha quanto nessa época. Eu fechada dentro de casa, cuidando da criança e do almoço e à noite o macho, que passou o dia todo fora caçando na floresta, finalmente retorna à caverna com a caça dentro da sacola do Carrefour.
A vida não parece real ao menos que você conte para alguém como foi o seu dia, a melhor fofoca do escritório, o capítulo do livro que você está lendo ou mesmo quando simplesmente quer dividir com alguém o plano sangrento que você elaborou para assasinar demoradamente o babaca do seu chefe. O que é a vida sem isso? A vontade de narrar cada emoção do dia era enorme então... eu falava! Falava com Laura, com as paredes, com a televisão... Tenho um amigo que diz que falar sozinho é totalmente normal, saudável até. Agora, se você ouvir uma voz respondendo, aí é melhor procurar um psiquiatra urgente! Por isso, eu seguia falando com qualquer coisa de se movesse ou não e, lógico, com Nossa Senhora o tempo todo.
- Deus meu, como eu estou cansada! Desculpe, Nossa Senhora, já estou reclamando de novo. Eu sei, eu sei... Não, está tudo bem, minha filha é saudável, eu tenho licença maternidade remunerada, um marido que me ama, blá, blá... Mas o que eu queria mesmo era dormir! É isso! O quê? Egoísta? Eu? Fala sério, Maria, vai me dizer que você não se cansava nem um pouquinho? O menino Jesus lá, chorando no meio da noite, a Senhora se levantando o tempo todo, o José, pelo que se conta dos homens daquela época, imagino que nem ajudava, e nada disso te deixava nem um pouco estressada? É... Imagino que não, afinal a Senhora é a Virgem Santíssima e eu estou mais para a Puta Chatíssima! Caralho! Falei a palavra "puta" em voz alta! Prometi para o Elberth não falar palavrão perto da Laura mas me esqueci de novo, merda! Será que ela ouviu?
Toda vez que eu reclamava do meu cançaso, imediatamente me sentia culpada. Será que é um tipo de efeito colateral da maternidade, a culpa? O bebê tem febre e a culpa é sua que deixou a janela aberta. O bebê não mama e a culpa é sua porque não teve mais leite. Mal sabia eu na época que aquilo ainda iria piorar muito! Quanto mais a criança cresce, mais tudo o que ela é e faz é sua culpa! Chorou e deu piti no supermercado? Que mãe é essa que não deu educação? Não comeu brócolis? Aposto que a mãe não oferece legumes no almoço. Cresceu, virou psicopata e assassinou vinte pessoas? Deve ter sido traumatizado na infância pela mãe castradora. É muita responsabilidade para uma simples mulher amedrontada, confusa e que não se lembra mais de como é fechar os olhos à noite e só acordar no dia seguinte. Não é possível, alguém tem que fazer alguma coisa! Não tem grupo de "Salvem as Baleias"? Então, vou fundar uma fundação (isso ficou esquisito, né?) com o nome "Salvem as Mães"! O objetivo será proteger o direito das mães de serem apenas humanas e erradas. Devemos ser protegidas e as pessoas devem fazer passeatas nas ruas com camisetas e faixas. A fundação irá defender nosso direito a respirar, vestir camisolões azuis horrorosos, ir ao banheiro sem crianças batendo na porta e gritando "Manhê, que cê tá fazeno aí?" e, principalmente, direito de sermos perdoadas por nossas barrigas flácidas! Afinal, não são só as baleias que precisam ser salvas, nós mães também. Podia-se até misturar os dois grupos tipo "Salvem as Mães Baleias", o que no meu caso, garantiria dupla proteção.
Os dias iam passando e eu estava começando a achar que podia ser mesmo uma mãe. Talvez não fosse impossível me adaptar, ver antes do cansaço, a imensa alegria de acompanhar aquele milagre de ver minha filha mostrar com o brilho dos olhos que reconhecia o pai. Ou, delícia das delícias, acariciar meu peito com sua mãozinha enquanto eu a amamentava. Parecia quando eu aprendi a andar de bicicleta. Lembro bem da sensação pois não foi uma experiência de infância, aprendi a pedalar quando tinha 24 anos. Nos primeiros momentos, você tem absoluta certeza de que o cara que inventou a bicicleta se equivocou. Não é possível para a raça humana se equilibrar naquela coisa, pedalar e olhar para onde está indo, tudo ao mesmo tempo. Virar mãe é bem parecido. Primeiro você vai se balançando de um lado para o outro, mal conseguindo se equilibrar. Quando, de repente, sai andando! Parece mágica! Você começa a gritar: "Consegui" e é o suficiente para perder o equilíbrio e se estatelar no chão. Aí, jura nunca mais montar naquele troço, mas não resiste. Porque é tão deliciosamente perigoso! E você tenta novamente. Eu estava assim, me equilibrando na corda bamba da maternidade, estava quase achando o meu ponto de equilíbrio quando...a tosse começou.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Mãe neurótica

- Eu não acredito que você não me ligou.
- Elberth, eu entendo que você esteja chateado comigo. No seu lugar eu também ficaria magoada por não estar por perto no momento em que minha filha mais precisou de mim. Mas de que iria adiantar ligar para você naquela confusão toda? Agora já passou, está tudo bem com a Laura. Podermos seguir com nossa vida normalmente.
Eu nem imaginava o quanto estava enganada. Depois daquele susto, eu nunca mais iria agir normalmente. Comecei a ficar obsecada com a segurança da minha filha toda vez que ela dormia. A primeira atitude não foi desequilibrada, foi na verdade uma orientação médica que praticamente todas as mães fazem com seus bebês: elevar a cabeceira do berço. Meu marido buscou cortes de mármore e nós empilhávamos três pedras em cada pé do berço. A explicação é que isso evita o refluxo e, na pior das hipóteses, se o bebê vomitar, há maior chance do líquido escorrer devido a inclinação. Sei lá, uma coisa assim! Se tivessem me dito que eu precisaria passar bosta de vaca no meu cabelo para minha filha dormir tranquila, eu teria passado. E como meu cabelo sempre foi uma bosta, talvez ninguém nem notasse.
A soneca da tarde era um pouco mais fácil de ser vigiada, pois eu nem sempre dormia junto com ela e enquanto eu estivesse acordada, me sentia segura. A babá eletrônica se tornou o equipamento mais importante da casa pois eu praticamente andava com ela pendurada na cintura. Se precisava ir ao banheiro, ligava a babá eletrônica na tomada da pia. Se ia estender roupa, colocava-a ligada no volume máximo no chão da cozinha. Passei a considerar aquele aparelho o máximo da evolução tecnológica. Que projeto da Nasa uma ova, nada superava em inteligência, modernidade e utilidade a babá eletrônica! A única maneira de me sentir em paz era ouvir a respiração dela constantemente.
Naqueles dias de calor, havia me acostumado a tomar uma chuveirada na soneca da tarde do bebê. Era o meu momento tomar aquele banho demorado e me lambuzar de creme depois. Mas depois da noite do pânico, eu não conseguia mais fazer isso. Ligava o chuveiro e Laura começava a chorar. Apavorada, desligava a água e corria pelada, pingando pelo corredor, até o quarto dela só para descobrir que a minha menina continuava dormindo como um anjo. Então, tinha que enxugar o chão e voltar ao chuveiro. Mas novamente, era só ligar a água e Laura começava a chorar de novo. Isso acontecia todas as vezes em que eu ficava um pouco longe dela. Se um caminhão passava na rua barulhento, eu ouvia o choro da Laura pedindo ajuda. Se eu demorasse um pouco mais no banheiro, o som do choro dela me atormentava cada segundo. Meu coração estava sempre aos pulos imaginando o pior: que dessa vez eu não chegaria a tempo, que não saberia fazê-la desengasgar novamente, que a ambulância não chegaria nunca.
Comecei a ter pensamentos mórbidos cada vez mais constantes. Me deitava na cama para uma soneca no mesmo horário que Laura, com a babá chiando ao lado do meu travesseiro, e aí começava a seção terror. Pensava em minha filha morta, asfixiada no berço e como eu explicaria aquilo para Elberth. Como diria para ele que não cuidei dela direito, que a deixei partir. Outras vezes via cenas do enterro, um caixãozinho branco e eu ao lado, desesperada. Por milésimos de segundos a dor era tão forte e tão real que entrava em um choro convulsivo que levava minutos para parar. Não sabia como contar isso para meu marido, aliás, para ninguém. Afinal, que tipo de pessoa fica horas chorando e sofrendo de verdade por uma tragédia que não havia acontecido na vida real? Todo mundo ia achar que eu estava ficando maluca. Então, me calava. Tentava agir normalmente quando Elberth chegava em casa, mas devia estava fazendo uma péssima atuação pois ele percebia claramente que eu não estava bem. Reclamava que eu estava agressiva o tempo todo. Olha que desaforo! Ele ficava por aí, trabalhando, andando de carro, vendo pessoas, fazendo coisas, vivendo! E eu, depois de passar o dia todo socada dentro de casa, cuidando da filha dele, ainda tinha que ouvir isso. Se eu tivesse um taco de golfe teria aberto o crânio dele. Ou talvez uma boa faca afiada para abrir a barriga dele e deixar o intestino cair pelo chão da sala. É ou não é um absurdo ele me chamar de agressiva? Só estava ligeiramente nervosa.
Como sempre, os fantasmas da noite são os mais terríveis. Assim, o sono noturno de Laura me causava um temor ainda maior. Para resolver o problema, tirei meu marido da cama e coloquei Laura no lugar dele. Encostei a cama na parede e montei uma espécie de ninho de travesseiros e almofadas de forma a deixar Laura inclinada. O ninho era tão complexo, que eu parei definitivamente de arrumar a cama para não ter que fazê-lo de novo. Me deitava ao lado dela e então tinha início o ritual noturno dos desesperados. Por alguns momentos, eu contava a respiração dela. Inspirou, expirou, inspirou, expirou. Quando eu estava quase dormindo, algum mau pensamento me tomava de assalto e eu me erguia na cama assustada. Então, me inclinava sobre ela para sentir sua respiração e ver seu rostinho. Sempre fiz questão absoluta do escuro para dormir, mas com meu novo ritual, o banheiro tinha que ficar com a luz acessa para entrar uma luz no quarto. Só assim eu poderia avaliar as feições de Laura à noite. Quando percebia que estava tudo bem, deitava-me de novo e começava a contar a respiração.
“Graças a Deus, como estou cançada. Vamos dormir. Mas, espere um pouco. Será que eu chequei direito se ela estava respirando? Que bobagem, claro que eu chequei. Bom, vou dar mais uma olhadinha, só para ter certeza. Ótimo! Está respirando. Posso dormir. Será que eu olhei bem mesmo? Não, Márcia! Pare já com isso! Está parecendo o Roberto Carlos, isso parece TOC sua idiota. Você acabou de se inclinar sobre a coitada da menina e viu que ela estava respirando. Acabou! Pode ficar deitadinha aí.”
Os minutos iam passando e eu começava a me desesperar.
“Qual o problema em dar só mais uma olhadinha? Eu estou morta de cansaço, preciso dormir, Se não olhar agora, não vou dormir. Pronto, olhei! Ela está respirando. Que alívio, posso dormir. Porque ela está respirando, não está? Será que eu chequei direitinho?”
A rotina noturna se repetia por um longo tempo até eu finalmente ser vencida pelo sono. Mas por pouco tempo. Logo, Laura chorava precisando trocar as fraldas e mamar. Nessas horas eu me arrependia amargamente de ter desperdiçado tanto tempo na rotina do “ela está respirando?” mas aí já não tinha o que fazer. Eu dormia cada vez menos e me irritava cada vez mais facilmente. Preocupado, Elberth pediu novamente o apoio da minha irmã Simone e ela veio dormir comigo no final de semana. A idéia era que, quando Laura acordasse, eu dava o seio e depois voltava a dormir, deixando a tarefa de arrotar e trocar fraldas com minha irmã. Como Elberth estava no sofá da sala, e no quarto de Laura só havia o berço, Simone dormiu comigo na cama de casal e Laura ficou no carrinho de bebê, que tinha a vantagem de poder ser inclinado facilmente. Na hora de dormir, tentei disfarçar o meu ritual noturno. Então, ao invés de checar se Laura respirava umas 15 vezes, fiz só umas 7. Eu tinha certeza de que havia sido tão sutil que Simone não notara nadinha. Mas na manhã seguinte, ela me chamou para conversar.
- Márcia, você está obsecada!
- Espere aí, depois do susto que eu passei com a Laura, é totalmente normal que eu...
- Não! Minha irmã, eu sinto muito mas isso que você está fazendo não é normal, nem totalmente nem um pouquinho. Olha, essa noite vamos colocar a Laura no berço dela...
- Nem pensar! Simone, eu não estou preparada, eu não vou conseguir.
- Vai sim! Eu vou estar aqui com você. Sei que tem medo de dormir tão profundamente que você não irá ouvir o bebê, mas poderá dormir porque eu vou tomar conta dela.
- Você não é a mãe. Você sabe disso, com o Vítor, você era capaz de sentir a necessidade dele, mas com Laura, isso não vai acontecer, não existe uma ligação transcendental!
- É só um bebê dormindo no berço Márcia. Todos os bebês do planeta Terra, inclusive você, sobreviveram ao berço. Você tem que parar com essa paranoia agora, se não... Acho que pode piorar. Talvez você devesse ver um médico.
- Claro, eu vou marcar um médico...
Quando a noite chegou, eu estava ainda mais ansiosa. Simone chamou meu marido na sala e anunciou a grande novidade: Laura iria dormir sozinha no berço!
- Que ótimo amor! Você precisa dormir direito, com a Lalá na cama isso era impossível. Agora você vai descansar melhor, seu humor vai melhorar e eu vou poder dormir com você de novo!
Imediatamente, eu abri a boca a chorar. Não um chorinho não, um choro infantil, de soluçar, de escorrer o nariz e balançar todinha.
- Por favor, amor! Não me faça tirar a Laurinha da cama. Por favor, eu não consigo! Eu estou com medo. Ela é tão pequenininha, tão indefesa. Não, não, não...
Ele me abraçou. Naquela noite, novamente Simone e eu dividimos o quarto com Laura e eu dormi muito mal erguendo-me a todo instante para checar a respiração dela. Essa rotina prosseguiu por um bom tempo até a consulta com a pediatra. Quando a médica ficou sabendo que eu dormia com Laura na cama, não teve a menor piedade.
- Márcia, você não é uma mãe adolescente, é uma mãe de quarenta anos, tenha dó. Não tem o menor cabimento você tirar seu marido da cama para o bebê dormir com você. Hoje à noite ela vai para o berço e fim de conversa.
- Mas doutora...
- Você acha que está ajudando a sua filha? Na verdade, não é só você que está dormindo mal, ela também está. Quando ela se mexe na cama, te incomoda. E quando você mexe, deve parecer um terremoto para ela. Ou pior, quando você ronca! Ela também está dormindo mal. A criança tem que acostumar com a própria cama, aquele lugar tem que ser o cantinho dela, ter o cheirinho dela. Se você está paranoica com o engasgo da Laura, coloque a babá eletrônica no seu ouvido e pronto, qualquer barulhinho você vai acordar.
- Mas é exatamente disso que eu tenho medo, doutora. Estou tão exausta que tenho medo de não acordar quando ela mais precisar de mim.
- Seu marido vai estar ao seu lado, se um não acordar, o outro acorda. Mas bebê na cama, nunca mais, ouviu?
Naquela noite, arrumei bem o berço da Laura, chequei as pedras de mármore, a inclinação da cabeceira, a babá eletrônica, tudo certinho. Coloquei minha menina de costas com os rolinhos do lado impedindo que ela se virasse de lado. Essa mudança ainda me deixava confusa. Senti um pouco de agitação em meu peito e então resolvi rezar uma Ave Maria e um Pai Nosso. Depois, chamei por ele.
- Gabriel, anjo da guarda de Laura. Desculpe a intimidade, te batizando com esse nome meio pretencioso... Acho que o anjo da Maria se chamava Gabriel, né? Bom, eu não mereço o mesmo anjo da Nossa Senhora, mas tem muitos Gabrieis pelo mundo, um podia ser meu, né? Quer dizer, da Laura. Enfim, eu te peço que me ajude a zelar pelo sono da minha filha. Você sabe que eu estou com medo, mas confio em você. Se ela precisar de mim, me acorde por favor.
Gabriel não me chamou. Não foi preciso. Essa noite, juntos em nossa cama, eu e Elberth dormimos com os anjos. Ou pelo menos com um anjo no quarto ao lado.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Gabriel

- Laura! Laura! Laura!

Eu gritava o nome dela sem parar, não conseguia pensar em nada mais para dizer. Mas não era preciso dizer mais nada. Quem ouvisse o tom da minha voz, quem sentisse a vibração de pavor e desespero entenderia imediatamente que alguma coisa terrível havia acontecido. Não levou mais que alguns segundos para minha irmã Cláudia e seu namorado Jones entrarem no quarto, igualmente aos berros, com o mesmo tom de pavor em suas vozes:

- O que aconteceu?
Eu não respondia, apenas continuava a berrar o nome da minha filha. Havia arrancado-a do berço e a sacudia erguida, olhando bem em seus olhos estatelados, fixando-me no seu rostinho roxo, buscando alguma reação qualquer. Nada. Senti Cláudia puxando Laura dos meus braços e não consegui reagir. Por falta de alguma idéia melhor ou por puro desespero mesmo, ela apenas repetiu o que eu havia feito: gritou e sacudiu Laura. Mais uma vez ela não demonstrava nada, nem mexia os olhos, nem chorava, nada. Puxei Laura dos braços dela mas logo a menina foi novamente puxada, desta vez pelo namorado de minha irmã, ele mesmo transtornado querendo fazer alguma coisa. No andar de baixo, minha mãe gritava.

- O que foi? Oque aconteceu com a Laura? Fala, gente!

Ela demorou um pouco a subir. Mais tarde disse que as pernas simplesmente se recusavam a vencer os degraus. Minha mãe me confessou que tinha medo de subir e ver por sí própria o que acontecera, temia ser mais forte do que ela poderia suportar. Mas afinal subiu e juntou-se a nós naquele pesadelo. Por alguns instantes lá estávamos nós, quatro adultos rodopiando com um bebê de colo em colo, aos gritos, sabendo que cada segundo que passava era precioso. Da casa dos fundos, Alessandra berrava, perguntando o que acontecera. Ela também temia subir e ao mesmo tempo precisava ficar lá embaixo e acalmar Vívian abalada por todo aquele pandemônio. Pela janela chegaram as vozes dos vizinhos repetindo a mesma pergunta: o que aconteceu com Laura?

No meio daquele furacão, todos os berros tornaram-se subtamente abafados. Meus ouvidos pareciam entupidos com quando estamos voando bem alto de avião. Meus braços penderam ao lado do corpo e deixei que eles continuassem a sacudir minha filha numa louca tentativa de salvamento.

"Eu vou perder esse bebê" pensei. "Minha filha vai morrer agora, aqui na minha frente, se eu não fizer a coisa certa".

Foi quando me lembrei daquela matéria, no jornal de sábado à tarde, sobre a mulher que ligou para o bombeiro. Desci as escadas aos pulos e liguei 190.

- Polícia, boa noite.

Droga, tinha que ter ligado para o corpo de bombeiros. Qual era o número mesmo?

- Meu nome é Márcia, eu queria falar com um bombeiro, tenho um bebê de dois mese com parada respiratória.

Minha voz soou tão calma que temi que a atendente nem fosse acreditar em mim. Mas ela passou a ligação imediatamente. Quando ouvi a voz do bombeiro, já não foi tão fácil manter a calma e comecei a soar estridente e desequilibrada. Ótimo. Ele teria certeza de que aquilo não era um trote.

- Minha filha não está respirando! Encontrei ela no berço roxa, ela vomitou...

Enquanto eu falava, já corria para dentro do quarto de novo onde a balbúrdia continuava. O bombeiro percebeu a agitação:

- Quantas pessoas estão aí?
- Minha mãe, minha irmã e o...
- Quem está segurando o bebê?
- O quê? Não estou ouvindo!

Nesse momento, o bombeiro mudou o tom de voz. Parecia o capitão Nascimento do Tropa de Elite berrando ordens no meu ouvido com toda a fúria:

- Escute aqui, minha senhora. Mande todo mundo aí calar a boca, ouviu? Agora!
- Calem a boca, gente!
- Agora a senhora só vai ouvir o que eu falar, entendido?
- Sim senhor.
- Está com o bebê nos braços? Então pegue o bebê agora! A senhora vai virar o bebê de bruços, segurar no peitinho dela com a mão aberta e incliná-la um pouco para a frente. Agora, bata firme, mas devagar, nas costinhas.
- Bati.
- Vire a menina. Voltou a respirar?
- Não está se mexendo, não adiantou nada, ai meu Deus...
- Calma! Faça o que eu mandar! Deite o bebê de lado na cama e enfie o dedo na boquinha, retirando algum resto do vômito ou alguma gosma.

Ao me ver colocando Laura de lado na cama, segurando o telefone com o ombro, minha mãe parece ter entendido imediatamente o que precisava ser feito. Colocou o dedo na boca de Laura limpando a passagem.

- Agora deite ela de costas, bem retinha e sopre, de leve, na boca. Cubra a boca e o nariz do bebê para soprar.

Foi só o que precisou. Um sopro. Pela primeira vez, Laura reagiu tossindo. Explodimos todos em gritos e lágrimas.

- Ela respirou! Obrigada, obrigada!

Eu ria, chorava, soluçava. Não sabia se falava com Laura, com o bombeiro, com minha família ou com Deus. Por um momento ninguém ouviu nada direito, todos falavam, puxavam Laura novamente de colo em colo, beijavam seu rostinho sujo. Cláudia gritava pela janela para Alessandra e para os vizinhos que ela voltara a respirar. Lá de baixo, minha irmã estava com a voz ainda atormentada, gritando que estava pronta para levar Laura para o hospital. Ela insistia para que decessemos imediatamente. E eu quase me esqueci que o bombeiro ainda estava na linha.
- Alô? Deus lhe pague, o senhor salvou minha filha...
- Minha senhora, a ambulância do SAMU vai demorar um pouco a chegar aí, fiquem calmos...
- Minha irmã vai me levar de carro ao hospital.
- É melhor a senhora ficar e esperar. Sua filha ainda deve ser examinada. Por quanto tempo ela ficou sem respirar?
- Ela está bem agora. Não está?
- Um médico precisa avaliar.
Fiquei novamente impaciente e nervosa.

- Em quanto tempo a ambulância chega aqui?
- Eles ainda estão no centro da cidade...
- Então agradeço, mas vou de carro.
- Minha senhora, eu não posso recomendar isso! Muitas coisas podem acontecer, sua filha pode passar mal de novo, o carro pode estragar... Esperem a ambulância! Se não fizer isso, a senhora vai estar se responsabilizando pelo que acontecer! - ele agora estava nervoso também
- Eu me responsabilizo. Obrigada por tudo de qualquer forma. - disse com o máximo de carinho que podia imprimir na minha voz apressada e desliguei o telefone.

Quando desliguei, Cláudia já estava com Laura num braço e minha bolsa no outro. Mamãe e o namorado da minha irmã pareciam sobreviventes de um bombardeio aéreo, confusos e cansados. Alessandra já nos esperava com o carro ligado. Todo o esforço que eu havia feito para agir de forma sensata esgotara por completo minhas forças. Meu corpo formigava e nem sequer tentei carregar Laura dentro do carro. Não tinha certeza de que meus braços suportariam mantê-la em segurança. Mas perguntava o tempo todo se ela ainda estava respirando. Na porta da emergência do hospital recuperei-me um pouco da inércia e entrei correndo com Laura meio desmaiada nos meus braços. Haviam poucas pessoas na sala de espera e eu já me imaginava tendo que chegar ao balcão e implorar atendimento de emergência. Qual não foi minha surpresa quando a enfermeira atrás do balcão saiu correndo para abrir a porta da ala de atendimento sem pestanejar.

- Por aqui! Pode trazer o bebê!

Ela me levou direto para uma maca, sem perguntas. Um médico surgiu como que num passe de mágica e começou a auscutar o coração de Laura. Parecia que eu estava naquele seriado americano, Plantão Médico. Depois de alguns exames, o médico decidiu colocá-la num respirador por um tempo mas apenas por garantia. Ela estava bem. Eu e minhas irmãs ficamos ao lado dela na cama, exaustas como se tivéssemos corrido uma maratona. Laurinha parecia bastante tranquila, como se nada tivesse acontecido.
- Você vai contar para o Elberth? - quis saber Alessandra.
- Acho melhor ligar para ele amanhã - respondi.
- Só vai servir para ele não dormir - concordou Cláudia - Foi uma sorte você já estar saindo do banho.
- Eu estava me vestindo mas depois iria usar o fio dental, escovar os dentes, passar creme no rosto... Eu não estava indo para o quarto naquela hora. Na verdade, aconteceu uma coisa muito estranha. Vocês vão pensar que eu sou louca.
- Nós já pensamos isso, Márcia - ironizou Alessandra - Não vai fazer muita diferença.
- Não, é sério. Eu ouvi uma voz no banheiro, susurrando no meu ouvido. Foi por isso que eu saí correndo até o quarto!
- Uma voz... No banheiro? - Alessandra disse rindo - Seu fantasma estava com dor de barriga?
- Primeiro era um fantasma cozinheiro, agora é fantasma do banheiro! - completou Cláudia rindo também.
Revirei os olhos. Há muitos anos eu estava na cozinha lavando a louça quando vi, pelo canto do olho, um vulto passando e, em seguida, ouvi um susurro em meu ouvido. O episódio rendeu muitos gritos de minha parte e muitas gargalhadas de minha mãe e minhas irmãs. Tive que aguentar observações do tipo: "Por isso você está engordando. Tem um encosto cozinheiro na sua vida!" ou "O que ele sussurrou no seu ouvido? Que acabou o pudim?" Na época eu não consegui entender o sussurro, mas fiquei me sentindo muito especial, um tipo de Chico Xavier. Mas como minhas incurssões paranormais acabaram por aí, achei melhor aceitar que tudo não havia passado de imaginação mesmo.
Mas agora era mesmo diferente. Eu havia sido avisada, não tinha dúvidas quanto a isso. Era real, não importava o que os outros dissessem. Algumas coisas simplesmente não podem ser explicadas e uma delas é a força da ligação entre mãe e filho. Quanto mais a criança cresce, mas nos esquecemos que um dia, nós duas dividimos o mesmo corpo; o dela dentro do meu era meu corpo também. O ar que eu respirava era o ar que ela respirava. A água, a comida, um remédio, uma dor... Todos os meus sentimentos foram sentidos por ela e os dela faziam parte de mim de alguma forma.
Finalmente, a primeira, e espero que última, grande aventura de Laura chegava ao fim. Chegamos do hospital totalmente estropiadas, Laurinha dormindo profundamente em meus braços. Mesmo tendo decidido não ligar para meu marido, nesse momento senti uma vontade enorme de contar para ele, como se toda a lembrança daquela noite me pesasse demais para carregá-la sozinha. Só ele poderia carregá-la comigo, só ele poderia imaginar completamente o terror de ter acreditado, mesmo que por apenas alguns minutos, que eu a tinha perdido. Não existia palavras para aquele tipo de sentimento e minha cabeça estava cansada demais para procurar palavras de qualquer forma. Pensei em dormir, mas só a idéia me gelou os ossos. E se acontecesse de novo? Se ela sufocasse outra vez e eu estivesse dormindo? E se não houvesse sussurros em meus ouvidos? Cambaleei um pouco com o peso do bebê no colo, mas logo endireitei o corpo e subi as escadas para o quarto enquanto minhas irmãs explicavam à mamãe as orientações do médico, que aliás me pareciam muito pueris para um caso de quase morte. Só coisas tipo ficar atenta, deixar o quarto ventilado, erguer a cabeceira do berço e, cúmulo dos cúmulos - deitar minha filha de costas. Isso ia contra tudo o que eu acreditara durante anos e, mesmo naquela noite, voltei a deitar Laura de lado. Afinal, quando eu a socorrera no berço, ela estava de costas, os rolinhos pareciam ter sido afastados, e isso me deixou ainda mais confusa, como se ela tivesse engasgado por causa disso. Uma pediatra me disse uma vez que, provavelmente, fora isso que a salvara, o fato de ela estar de costas quando vomitou. Mas como arredou os rolinhos, isso era uma coisa que talvez apenas o fantasma do banheiro poderia esclarecer. Dias depois, assistindo uma reportagem no Fantástico, foi que finalmente tive que me render à realidade: os bebês devem dormir de costas!
Finalmente cheguei ao topo da escada e coloquei Laura no berço. Senti que cairia no chão a qualquer momento, desmaiada de cansaço. Cláudia entrou logo em seguida.
- Jones deu a idéia da gente se revezar. Você dorme primeiro enquanto eu e ele vigiamos. Depois é a sua vez e, ao amanhecer, será o turno da mamãe.
- Do que você está falando?
Ela sorriu:
- Ele não acha seguro. Cada hora um vigia a Laura, até o dia raiar. Foi idéia dele, deve ser de algum filme da guerra no Vietnam que ele viu, sabe? Um soldado fica de guarda para os outros dormirem.
Sorri também. Se tivesse um pouquinho mais de força talvez tivesse até dado uma risada.
- Ok, mas mantenha ela no carrinho, assim ela pode dormir inclinada como o médico falou. Leve os rolinhos para mantê-la bem quieta.
Senti um calor no peito e meus olhos se encheram de lágrimas. Como era bom ter uma família ao meu lado. Meus temores passaram. Achei que seria difícil me separar de Lalá naquele momento, mas o cansaço era maior que tudo. Sentia que minha filha estaria bem com a minha família. Entreguei Laura à minha irmã, apaguei a luz e me deitei. Meu último pensamento foi que eu não conseguiria dormir depois daquilo tudo. Acho que levei uns dez segundos para começar a roncar.
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- Podemos sempre saber o nome do nosso Espírito protetor ou anjo guardião?
- Por que razão quereis saber sobre nomes que não existem para vós? Credes então que não haverá entre os Espíritos aqueles que conheceis?
- De que modo invocá-lo se não o conhecemos?
- Dai-lhe o nome que quiserdes, o de um Espírito superior pelo qual tendes simpatia ou veneração. Vosso Espírito protetor virá a ess apelo, porque todos os bons Espíritos são irmãos e se assistem entre si.
"O Livro dos Espíritos" - Alan Kardec
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Senti minha irmã tocando meu obro.
- Sua vez, Marcí. Ela está ótima, dormiu o tempo todo como um anjo. Vá lavar o rosto para ficar bem desperta, ok?
Estava ainda um pouco zonza de sono, mesmo depois da água gelada nos olhos. Liguei a televisão bem baixinho e virei o carrinho de bebê ao contrário para a luz não incomodar Laura. Minha irmã tinha razão, não importava que ela tivesse atravessado um inferno aquela noite, agora estava dormindo como um anjo. Como um anjo... Essas últimas palavras ficaram ecoando na minha cabeça por um tempo. De repente, o nome dele veio à minha mente assim, do nada.
- Gabriel!

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Pânico

Veja neste domingo no Fantástico, um fenômeno assustador conhecido como síndrome da morte súbita infantil, uma das principais causas de óbito de crianças com menos de um ano.

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Quando estava grávida comprei o jogo completo de roupa de cama, ou melhor, roupa de berço da Laura. Um bom jogo deve ter lençol, edredon, fronha de travesseiro, fronha de protetores de grades, cortinado e rolinhos. Tudo enfeitado, bordado, com laços e frescurinhas do gênero. Minha peça preferida eram os tais rolinhos, achei-os fofos, muito decorativos. Alessandra não conteve o riso ao perceber que eu não sabia para que serviam

- Não é só para enfeitar não, sua burra. Os rolinhos são para segurar o bebê no berço evitando que ele vire de bruços, o que é superperigoso! Um bebê pode morrer sufocado se ficar de bruços ou de barriga para cima! Se ele vomitar, engasga com o próprio vômito e morre. Por isso, deve ficar de lado, amparado pelos rolinhos, entendeu? Assim, o líquido escorre pela boca de lado e não há risco de sufocamento. Acho que era isso que minha pediatra dizia...

- É mesmo! Eu me lembro que Vívian ficava presa nessas coisinhas. Como é perigoso ser bebê. Ao se engasgar você não consegue se sentar sozinho nem chamar alguém para bater nas suas costas. É um bichinho muito frágil, o ser humano. Melhor nascer cavalo. Sabia que um potro se levanta assim que nasce? Sai andando e vai mamar na hora! Muito mais prático.

- Pena que você vai ter um bebê. Se estivesse grávida de um potro, ao invés de berço você montava um estábulo no seu apartamento. Prático, né?

Se a saúde da Laura já me preocupava quando ela estava toda protegida dentro da minha barriga, imagine só a neurose que se instalou no meu cérebro depois que ela nasceu. Todas as fragilidade do bebê humano me enchiam de preocupação. Por isso, manter Laura sempre virada de lado no berço depois das mamadas e dos tais 10 minutos para arrotar se tornou uma obcessão para mim e meu marido. Vivíamos temendo que, de uma hora para a outra, o bebê nos fosse tomado como um presente que nunca havíamos realmente merecido, que fora entregue em nossa porta por engano. Para mim, Laura era minha única chance de ser mãe, jamais haveria outra. Aos 40 anos eu não me animaria a passar por uma nova gravidez e ter outro filho. Adorei cada segundo da gestação, amei cada pequena experiência da maternidade, mesmo a mais enlouquedora. Mas eu estava plena, satisfeita. Não desejava viver tudo aquilo uma segunda vez.

O problema é a "síndrome do pânico do filho único". É ela que nos faz pensar: e se algo acontecer à minha menina? Ficaríamos um casal sem filhos! O ser humano é assim, sempre querendo garantias. As pessoas pensam que ter mais de uma criança é uma espécie de apólice de seguro. Se um dos investimentos (leia-se filho) fracassar (leia-se morrer), você tem a segurança de contar com um ou mais investimentos ainda vivos para perpetuarem sua felicidade. É por isso que, até hoje, muitas pessoas me perguntam quando terei o segundo filho e se espantam terrivelmente quando digo que o aumento da prole não está nos meus planos. Elas me perguntavam horrorizadas: "E se acontecer alguma coisa com a sua filha? Deus te livre, claro, mas aí você não vai mais ter filho nenhum. É muito arrisado ter filho único !" Minha amiga Vânia sofria a mesma pressão de amigos e familiares para ter mais bebês e não ficar só no filho único. Ficou tão preocupada que foi se aconselhar com a psicóloga e ouviu a melhor resposta do mundo: "Todo filho é único."

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- Seguindo com nossa entrevista, por que a SMSI é conhecida também como morte no berço, doutor?

- Então, é que o óbito acontece quando a criança estar dormindo. Por isso, colocar o bebê para dormir de costas se mostrou a posição mais eficiente para a redução da incidência da Síndrome. Aliás, é importantíssimo que as mães que estão nos assintindo agora, prestem muita atenção: nunca deixe o bebê dormir de lado, sempre de bruços ou de costas, em um colchão firme. Use apenas lençol e cobertores leve. Nunca use confortos, rolos ou travesseiros" disse o pediatra entrevistado.

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Como minha ginecologista me orientara durante a gravidez, eu evitava os notíciários para não ficar deprimida, mas às vezes me esquecia do conselho. Numa tarde de sábado, uma notícia me chamou a atenção durante o jornal da tarde: uma mulher encontrara seu bebê sem respirar e, o que salvou sua vida foi um telefonema para o corpo de bombeiros. A criança já estava até roxa, mas com a orientação de um bombeiro, ela conseguiu salvá-la. Fiquei tão emocionada que comecei a chorar na hora e não prestei atenção em mais nada. Percebi que eles reproduziam por escrito a gravação do telefonema, onde o bombeiro dava todas as instruções do salvamento, mas eu só conseguia soluçar de alívio enquanto as minhas lágrimas desciam ao ver no final da matéria, o bombeiro, todo feliz, segurando o bebê salvo por ele nos braços. Se ao menos eu tivesse prestado atenção no que a repórter havia falado durante a reportagem talvez tivesse tido a surpresa em descobrir que tudo o que eu e minhas irmãs acreditávamos como sendo a posição correta para o sono do bebê era na verdade um grande e fatal equívoco! Alessandra não estava enganada, havia realmente sido orientada a colocar o bebê de lado. Assim é a ciência, cada dia avançando mais e descobrindo novas verdades que salvam vidas. No caso, uma verdade que eu quase descobri tarde demais.
Às vezes, eu passava alguns dias na casa de minha mãe. Era uma chance de aproveitar um pouco a ajuda da minha mãezinha e minhas irmãs Cláudia e Alessandra. Dava uma sensação mais tranquila estar numa casa com mais gente. Havia Vívian sempre com alguma amiguinha, o namorado da Cláudia, papai aparecia por algumas horas e Simone também passava por lá domingo à tarde. Considerando que cada um carregasse Laura por 15 minutos que fosse, eu ganhava um descanso de mais de uma hora. Um luxo! Outro bônus era as tias considerarem uma diversão dar o banho, o que diminuía consideravelmente meu trabalho. Além disso, Laurinha também parecia se distrair com o cenário diferente, não apenas da própria casa da avó, mas pelo fato do bairro de minha mãe ser situado na civilização e não no faroeste selvagem onde fica meu apartamento. Eu podia passear com o bebê pelas redondezas e desfrutar da sofisticação de ter uma padaria na esquina e uma praça há apenas 3 quarteirões! Os dias eram sempre animados, mas as noites eram mais solitárias. Ao contrário da minha casa, onde ficava à sós com Laura durante todo o dia mas à noite contava com o apoio de Elberth; na casa de mamãe, quando escurecia minhas irmãs saíam para seus programas com namorados ou amigas. Mamãe é noveleira profissional e tem o dever cívico de não perder nem um capítulo de todas as novelas. Papai voltava para casa dele e era o momento em que eu voltava a me virar sozinha de novo.
Mas naquele sábado, minhas irmãs não saíram de casa, só que cada um ficou no seu canto, vendo sua televisão. Eu estava com o corpo todo moído da nova rotina pauleira de cuidar do bebê. Laura dormia surpreendentemente tarde, e eu já estava um bagaço quando ela finalmente caía no sono. Dei a última vez o peito antes de fazê-la dormir e entrei para o quarto, fechando a porta. Estava realmente exausta aquele dia e como não estava em minha casa, não havia o relógio do forno microondas para eu calcular corretamente os famosos 10 minutos para o arroto. Não estou dizendo que foi por isso que tudo aconteceu. Talvez eu tivesse me confundido e imaginei que já haviam passado 10 minutos mas na verdade mantive Laura erguida por menos tempo que o necessário. Talvez ainda, eu apenas estivesse cansada demais para esperar os 10 minutos e tenha simplesmente deixado o cuidado de lado. Nesse caso, a culpa então seria minha. Acho que não vou saber o porquê, só sei que eu a amamentei em meu peito, a segurei erguida por um tempo e depois a deitei no berço de lado, bem presa entre os rolinhos para não conseguir virar de costas. O comun é colocar dois rolinhos, mas para mantê-la realmente imóveis, comprei um par extra e a prendia totalmente com quatro rolinhos. Ela não tinha a menor chance de se virar. O que eu não sabia era que, prendendo-a assim, eu estava na verdade, cuidando para que ela não tivesse a menor chance de sobreviver. A única coisa que poderia salvá-la, seria se virar de costas, mas presa entre os rolinhos seria preciso um milagre para um bebê de dois meses se virar.
Eram quase 22 horas. Alessandra e Vívian estavam na casa dos fundos. Minha mãe assistia sua novela no andar de baixo e Cláudia e o namorado estavam fechados no quarto vendo um filme. Tudo muito quieto, era a minha chance de tomar um banho bem demorado, que lavasse meu suor e meu cançaso juntos. Como eu estava precisando daquilo! Então decidi fazer tudo em câmera lenta, deslizar lânguidamente o sabonete pelo corpo, enxaguar, ensaboar-me novamente, só para garantir que ia ficar bem cheirosa e relaxada. Deixei a água quente cair no pescoço. Estava tão gostoso ali, aquele momento só meu, onde eu não cuidava de mais ninguém a não ser de mim mesma. Foi tanto prazer que decidi que merecia o serviço completo! Não me lambuzava de creme desde que Laura nascera. Meus banhos eram sempre rápidos, com o ouvido em pé para ouvir o chamado da minha menina. Apurei os ouvidos e entreabri a porta do banheiro. Só o ruído das televisões ligadas ao fundo. Ótimo, tranquilidade para me bezuntar de creme bem devagarinho... Quando comecei a vestir minha calcinha, senti um calor no ouvido esquerdo e ele cochichou baixinho:
- Laura!
Virei-me bruscamente. Não havia ninguém no banheiro. Senti aquela onda gelada de susto pelo corpo. Dei um leve sorriso idiota pela reação ridícula e terminei de me vestir meio às pressas, querendo sair logo do banheiro assombrado. Eu terminava de colocar a blusa quando ele sussurrou mais forte:
- Laura!
Dessa vez eu não estava enganada. Tinha ouvido com clareza. Fiquei paralizada, respirando forte, com medo de me virar. Mesmo sem quere ouvir mais nada, fiquei em total silêncio, bem quieta, e apurei o ouvido, buscando mais algum som que confirmasse que eu não estava louca. Foi aí que ouvi outra coisa. Um gemido, mas não foi sussurado no meu ouvido. Era um som abafado, como que vindo de outro cômodo. "Meu Deus, Laura!" Agora era eu! Até hoje não sei se eu disse isso em voz alta ou apenas na minha cabeça, só sei que me virei, abri a porta do banheiro e corri para o quarto, ascendendo a luz apressadamente. Da porta só dava para ver o berço encoberto pelo protetor, não era possível ver Laura, mas eu gritei assim mesmo:
- Laura!
Não tinha medo de acordá-la por que eu já sabia que havia alguma coisa errada. Eu fora avisada. Aqueles poucos passos entre a porta e o berço demoraram uma eternidade. "Eu sei o que eu vou ver. Eu sei o que eu vou ver." E vi.
Ela estava deitada de costas, os rolinhos afastados. Havia vômido em todo o seu rosto e a pele estava arroxeada. Ela estava com os olhos arregalados mas sem movimento, fixados no teto e não se mexia. Quando gritei de novo já sabia que ela não estava respirando.

sábado, 20 de novembro de 2010

GRRRR! Bebezilla ataca outra vez!


Toda mãe pensa que o seu bebê é diferente. Por isto, se eu disser que Laura era diferente, você não vai acreditar, não é mesmo? Bom, mas no meu caso, é a mais pura verdade: minha filha era muito diferente das outras criancinhas que eu encontrei por aí. Desde recém nascida, Laura não era dada a manifestações de tolices como ficar dando risadinhas de bebê. Para ser sincera, ela não ria nunca! Muito séria e compenetrada, ficava no bercinho com a testa franzida pensando silenciosamente na sua vidinha. Na verdade, ela tinha uma expressão bem enfurecida, quase com raiva mesmo. Devia estar estremamente chateada com alguma coisa, tipo:


"Então é isso, não é? Mais uma encarnação. E pelo visto, minha missão desta vez será superar a vidinha medíocre desse casal que me tomou por filha. Um apartamento classe média baixa. A decoração de meu quartinho é... simpática porém um tanto simplória. Lilás? Qual é? Só para fingir que são modernos fugindo do óbvio rosa. Vejamos o pai. Sem dúvida é um batalhador. Um bom homem mas completamente bobo. Olha só a cara dele olhando para mim! O pobre mortal deve pensar que eu sou uma Deusa ou coisa assim. Tudo bem, serei boazinha com ele, afinal já está dominado. Agora, essa mulher... Ela é nervosa, com certeza. Será que ela nunca penteia esses cabelos nem veste outra coisa que não seja essa camisola azul? Entretanto, é útil, produz leite e troca fraldas com destreza! Estarei bem instalada, por enquanto. Mas se essa tal de mamãe pensa que vai mandar em mim, está muito enganada. Eu vou mostrar a ela que eu não sou de brincadeira. "


Eu não era a única a perceber isso. Alessandra vivia dizendo que a Vívian, quando bebê, era uma "mala velha" sempre aberta num sorriso. Depois, dizia com um suspiro: "Já a Laurinha..." De outra feita, estava descendo a rua da casa da minha mãe com Lalá nos braços quando ouvi uma voz saindo do salão de beleza: "Olha lá o bebê que não ri! Eu te falei, é filha da irmã da Alessandra". Porque será que ela não ria como os outros bebês? Tenho certeza de que estava achando um tédio ficar presa em meus braços, sem poder se levantar e ir aonde bem quisesse. Havia momentos em que eu não sabia o que fazer, como entretê-la. Tudo o que eu tentava parecia aborrecê-la ainda mais. Podia fazer quantos bilus bilus quisesse, ela não esboçava o menor sorriso. Era só o que me faltava! Além de ter me casado com um homem que jamais rira de uma única piada minha, que não achava a menor graça em mim, agora vinha aquela menina com um ar blasé, como se na verdade eu é quem fosse a criança bobona fazendo gracinha que ela precisava suportar. Já imaginava minha vida no futuro, eu fazendo meus teatros e contando minhas peraltices do dia enquanto Elberth e Laura suspiravam entediados, dando olhares significativos uma para o outro. Bastaria eu virar as costas e eles começariam a conversar entre si:


- Nossa pai, está difícil aguentar a falação da mamãe hoje, heim?


- Tenha paciência filha. Ela está piorando com a idade, imagina-se ainda mais engraçada, coitadinha... Shhh! Ela vem aí de novo! Faça um esforço e dê só uma risadinha para ela hoje, Laura?


Nessa hora ela provavelmente reviraria os olhos pensando o que havia feito para merecer aquela situação patética. Prevendo isso, eu já tentava diverti-la desde os primeiros meses. Vamos lá, muita gente me acha engraçada, não vai ser alguém que nasceu ontem que iria chegar e me desestruturar assim! Eu tinha uma reputação a zelar. Então, usava todo o meu arsenal: caretas, vozes diferentes, perucas e... nada! Eu já estava ficando sem repertório.


- Elberth, já reparou que a Laura não ri?


- Como assim, não ri? Ela é só um bebê.


- Digite "bebês rindo" no Youtube para você ver. Aparecem centenas de filminhos caseiros de bebês rindo. É muito diferente dessa menina. Tem criança muito menor que dá gargalhada! Gar-ga-lha-da! Mas ela não parece estar achando a menor graça em ser nossa filha. Alías - abaixei o tom de voz - para ser sincera, às vezes eu acho que ela está me julgando, sabe? Me analisando e concluíndo que não sou grande coisa como mãe, sei lá.


- Querida, você tomou seus remédios hoje?


Quando o assunto era Laura, Elberth jamais me levava a sério. Mas eu estava levando aquilo muito a sério e comecei a ler um livro que ensinava a desenvolver a mente de bebês. Então, se ela estava com tédio, quem sabe eu poderia finalmente fazê-la se divertir? Aprendi algumas coisas úteis como, por exemplo, que o bebê deve ser estimulado através da exposição de coisas interessantes à sua frente. É assim que um bebê aprende, com os sentidos visão, olfato, paladar, audição e tato. Não gaste seu latim, o bebê apenas apreende as coisas que é capaz de sentir em seu próprio rítimo. Pode-se fazer um móbile com coisas caseiras como pedaços de papel alumínio, papel colorido de presente ou mesmo pedaços de algodão, e amarrá-los no berço com um barbante de um lado ao outro das grades. Assim, você pode fazer sempre móbiles diferentes para estimular o bebê sem precisar gastar dinheiro comprando um novo por semana.


Outra lição boa do livro foi sobre a forma de mostrar um brinquedo a bebês com menos de 5 ou 4 meses. Não se deve balançar o brinquedo rapidamente (como todo mundo faz) na frente do coitado. Tudo o que o bebê verá será um borrão na frente dele, enquanto você fica lá, se achando o máximo, balançando rapidamente o boneco na cara da criança. O bebê se interessará muito mais se você mover o brinquedo bem devagarinho ao alcance de seus olhos. Outras formas de se distrair um recém nascido é com cores diferentes em lençóis e almofadas, texturas variadas de objetos e sons. Música, muita música! E nada superior à Mozart, certo? É vivaz, é brincalhão, é alto astral! Então, colocava sempre o CD "Mozart para bebês" da minha irmã Alessandra, com peças do grande compositor tocadas por um pianinho infantil. "Agora quero só ver se essa menina não vai me achar a mãe mais sofisticada do mundo! Ela não pode reclamar! Tem muita criança por aí ouvindo funk! Já pensou? Bonde do Tigrão, tô ficando atoladinha e coisas ainda mais subterrâneas. Mas ela tem a honra de ter uma mãe que assistiu ao filme Amadeus 6 vezes, então, dá-lhe Mozart!"


Mas nem isso suavizava a criaturinha. Laura estava decidida a mostrar sua personalidade forte com poucos meses de existência. Assim, quando eu estava na maior expectativa para ouvir os primeiros rudimentos de sua fala, quando esperava ser brindada com os fofíssimos "gugus dadás", ela começou a rosnar. Primeiro, achei que era impressão minha mas logo ficou claro: quando não estava satisfeita com alguma coisa, lá vinha o rosnado. Como ficávamos sozinhas o dia todo e eu mal podia esperar para meu marido voltar do trabalho e contar a novidade.


- Elberth, advinha só: sua filha rosna. Nada de gungunar, ela está rosnando! O que significa que, em breve, estará mordendo. Pode comprar uma coleira amanhã cedo porque eu não quero ela sendo capturada pela carrocinha.


- Eu joguei pedra na cruz... Meu amor, você está cansada, eu sei, sozinha o dia todo com a Lalá...


- Ah, você não acredita, né? Tanto faz, ela rosna, eu ouvi muito bem. E pensar que nós havíamos ficado tão preocupados com a possibilidade de ter nossa filha trocada na maternidade... Agora, olha só! O bebê foi trocado mesmo só que não foi na maternidade, foi num pet shop!


Minha filha foi brava desde o início. Rosnou e mordeu. Não sorria nunca até uns 6 meses de idade, brava como o diabo. E se era contrariada, sai de baixo! "A quem será que ela puxou, essa oncinha pintada, heim?" meu marido sempre me perguntava, olhando minhas sardas no rosto. A madrinha de Laura, minha irmã Cláudia, se encantava com os rosnados e com a cara de mini gangster da minha bebêzinha.


"Prefiro muito mais ela assim do que esses bebês bobos que riem à toa. Ela tem personalidade! Ela não é um bebê, é uma BEBÊZILLA!"


Sempre que Laura dava seus rosnadinhos atrás das grades do berço, eu ia correndo atender suas ordens, pensando na graciosidade daquele apelido. Ela era bem assim, a mistura certa entre a fofura do bebê e o mau humor do Godzilla.

domingo, 14 de novembro de 2010

Ninguém segura esse bebê

Acordei confusa e assustada. Eram 15 horas e o sol batia na cortina. O que estava acontecendo? Por que eu estava dormindo no meio da tarde? Ouvi de novo o som que me acordara, um choro de bebê. Ah, é mesmo! Vivia me esquecendo que era mãe. Eu acordava com a lembrança da vida que vivi por 40 anos e, de repente, estava naquele universo paralelo onde eu tinha virado outra pessoa. O chorinho era meigo, só mesmo querendo me chamar para alguma necessidade do momento tipo trocar fralda ou um leitinho. Senti aquela mistura de amor e cansaço e me dirigi ao quarto ao lado.
Lá estavam as perninhas chutando o ar. Olhei para a pessoinha lá dentro mas ela não pareceu impressionada com meu visual de recém acordada. Afinal, para ela eu era apenas a sua serva, não se importava se estava descabelada ou não, pensei rindo. Estiquei-me para pegá-la e foi então que aconteceu a primeira vez. Ela escapou das minhas mãos caindo de novo no berço. Nada dramático, uma queda pequena e inofensiva. Não entendi direito porque aconteceu, senti uma dor agura nos pulsos e uma fraqueza, quase como se minhas mãos tivessem desaparecido. Mas tudo só durou uns segundos, então não dei importância ao fato.

Não me lembro quando aconteceu a segunda ou a terceira vez, só sei que a coisa foi se tornando uma rotina. Eu estava tão absorvida por toda a reviravolta da maternidade que não fui me dando conta de que havia me acostumado a uma dor constante nos pulsos, que às vezes ficava aguda e não me permitia segurar Laura com firmeza. Apesar da preguiça que isto me causava, resolvi consultar um ortopedista. Explico: não acredito em médicos no geral. O problema é que consultei-os demais, fui a muitas emergências e esse contato muito próximo com médicos faz mal à saúde. Quando você fica perto demais, eles perdem aquela aura de deuses milagrosos e a gente acaba descobrindo que eles são apenas seres humanos. E cada engano que cometem custa a você muitos reais em exames, muitas horas em salas de espera, altas contas na farmácia e dores que continuam por anos. Tudo bem, admito, eu sofro de enxaqueca e, como todo ser humano que sofre de dor crônica, perdi minha fé na medicina ortodoxa há umas quarenta tomografias atrás.

Chamei Cláudia para me acompanhar ao médico pois precisava de alguém para segurar Laura durante a consulta. Era sempre incrível sair com um bebê pelas ruas. É como se você fosse uma celebridade, as pessoas param, querem ver o bebê de perto, gente que nunca te viu olha para você e seu pimpolho com adoração. Faltam tirar fotos e pedir autógrafo. Nessa fase você ainda pode aproveitar um pouco daquele tratamento especial que recebia quando estava grávida. As pessoas se preocupam onde você vai se sentar para ficar confortável carregando seu bebê.

No consultório, o médico, que tinha uns 100 anos de idade, nem sequer se levantou para examinar minhas mãos.

- Ah, você está amamentando, não é? Pronto, já sei qual é o seu problema. Essa dor nos pulso é um inchaço do túnel do carpo causado pelos hormônios da amamentação. Bom, também por causa a amamentação, não podemos dar um remédio forte, você vai ter que fazer o seguinte: compre talas que deixem suas mãos imóveis e... Bom, depois que parar de amamentar, a dor deve passar. A não ser que o inchaço não suma. Aí vai continuar doendo até desinchar. Pode levar meses, ou anos... pode não passar...

Ótimo! Gastei táxi e uma consulta para falar com um dinoussauro da ortopedia que sofria de esclerose múltipla! Olha só que idéia mais estapafúrdia, que amamentar tinha causado aquela dor terrível nos meus pulsos. Isso que dá marcar consulta com qualquer um. Se você liga para uma clínica e o médico tem consulta para o mesmo dia, só pode ser porque ele não deve ser grande coisa mesmo. Não tem nem lista de espera de pacientes! Médico bom é aquele que você liga e ele só tem horário vago para daqui a sete meses. Mesmo assim, você chega às 15h para a consulta de 15:45h e só é atendida às 19:20h. Isso sim é médico de verdade. Aqueles que você tem que tirar o dia inteiro de folga no serviço para ficar sentada na sala de espera folheando revistas de 1987 num consultório lotado de pacientes resignados. Afinal, sem resignação, como é que suportaríamos o comportamento compulsivo das secretárias que insistem em marcar consultas de 15 em 15 minutos mesmo sabendo que o chefe delas leva pelos menos uma hora e meia para atender cada paciente?

Decidida a encontrar um médico de verdade, marquei outra consulta. E depois mais outra e mais outra. No quarto ortopedista, tive que me render. Todos eles foram idênticos em seus diagnósticos. Havia uma estranha e rara ligação entre amamentar e ter os pulsos inchados e dolorosamente sensíveis a ponto de mal suportar o peso do bebê por muito tempo. Todos me mandaram ficar com os pulsos imobilizados em talas para melhorar a dor mas isso não funcionou. Deveria ser porque eu só conseguia imobilizar os pulsos durante uns 10 minutos, aí tinha que trocar as fraldas da Laura, então tirava as talas. Colocava as talas e, 20 minutos depois, tirava para amamentar. Colocava-as de novo e tirava logo depois para embalar Laura que começara a chorar. Colocava as talas quando Laura adormecia e tirava 10 minutos depois quando me lembrava de toda a roupinha para lavar, comida para fazer, louça para lavar, chão sujo para varrer, telefone para atender, novas fraldas para trocar e assim por diante. Acho que as talas acabaram me provocando mais dor de tanto esforço para colocá-las e tirá-las minutos depois.

A dor começou a minar minhas poucas energias. Os pulsos passaram a doer constantemente, quer eu ficasse parada ou não. Quando me deitava para dormir, ao invés de alívio, eles doíam ainda mais. Não conseguia entender porque isto estava acontecendo. As semanas foram passando e comecei a ter crises de choro a todo momento. Elberth estava transtornado e eu tinha medo que, na próxima vez que meus pulsos falhassem, Laura caísse no chão e se machucasse. Comecei a sonhar que isso acontecia, que ela se machucava por culpa da minhas mãos fracas, e acordava com o rosto molhado de lágrimas. Tudo me irritava. A dor era constante e quando Laura chorava no berço sentia a raiva crescendo em mim. De um lado, raiva por que aquilo me impedia de cuidar dela direito. Por outro lado, sentia também raiva porque, de alguma forma, fora ela quem causara aquela dor. Não ela própria, mas a necessidade que ela tinha do meu leite. Esse sentimento me enchia de vergonha e não tinha coragem de contar a ninguém meus pensamentos. À minha volta, as pessoas já estavam cansadas das minhas reclamações e pareciam me recriminar por meu mau humor num momento tão abençoado como este de receber uma criança perfeita e saudável. Parecia que eu era ingrata e não merecia tal benção. Resolvi então aceitar a sugestão da cirurgia.

- Doutor, mas o senhor vai operar as duas mãos ao mesmo tempo? Como é que eu vou cuidar da minha filha? Não tenho empregada nem ninguém da família que possa ficar comigo para me ajudar...

- Não se preocupe! A recuperação é de um dia para o outro. Você opera hoje e no dia seguinte já está cuidando de tudo normalmente.

Você acreditou nisso? Não? Bem, você é uma pessoa sensata e inteligente. Não posso dizer o mesmo a meu respeito. Eu acreditei e operei as duas mãos no mesmo dia achando mesmo que, no dia seguinte, eu estaria executando minhas tarefas normalmente. Quando me deitei na maca na sala de cirurgia, eu devia ter adivinhado ali mesmo que aquilo não tinha a menor chance de dar certo. A maca tinha duas talas laterais onde meus braços foram furiosamente amarrados. Pensei que a enfermeira estivesse cometendo um erro.

- Moça, espere aí, isso está muito apertado, está cortando a minha circulação!

- Calma, é assim mesmo. O doutor vai cortar os seus dois pulsos, temos que evitar muita perda de sangue.

Meu Deus, no que foi que eu me meti! Agora estou amarrada aqui com os braços abertos, cruscificada nesta maca! Nem se eu quisesse fugir, não vou conseguiria. Espere aí! Quem é que está mexendo no meu pé? Eu vou operar os pulsos, o que esse cara está fazendo aí em baixo mexendo no meu pé?

- Oi, Márcia! Eu sou o seu anestesista. Bom, o doutor amarrou seus dois braços, então, só me sobrou o seu pé, he, he, he! Vou tentar pegar a veia aqui mesmo.

Nesse momento, senti uma das dores mais inesquecíveis da minha vida. E olha que eu entendo de dor em mesas de cirurgia. É que, além desse inchaço raro nos pusos, eu também fui um caso raríssimo de paciente que acordou antes de uma cirurgia terminar, com a médica fechando meu abdomem. Parece que tenho talento para viver momentos raros de dor intensa. E essa dor foi bem intensa. Imagine seu pé gelado, duro com o frio do ar-condicionado, levando uma fincada de agulha de anestesia. A agulha não é como essas de injeção comum, é muito mais grossa. Tentei manter minha imagem de mulher adulta, mas não foi possível. Gritei e comecie a chorar.
- Calma, é assim mesmo. No pé dói muito mais. E o seu pé está gelado, isso não ajuda em nada. Olha aí, perdi a veia. Sinto muito mais vou ter que te espetar de novo.
Ele espetou mais uma vez, mais duas vezes, mais três vezes. Eu não gritava mais, tinha ficado catatônica. O próprio anestesista já estava nervoso. Mas, ao invés de mostrar simpatia pelo meu sofrimento, ele ficou irritado, como que envergonhado de não conseguir pegar a veia, e expodiu:
- Olha, vou tentar só mais uma vez! Se não conseguir, o jeito vai ser pegar a veia no seu pescoço...
Onde é que esses médicos fazem treinamento? Num campo de concentração nazista? Graças a Jesus Cristo, ele acertou a veia na última dolorosa picada. O soro entrou queimando e eu comecei a ansiar pela anestesia. Como sempre, minha memória fica confusa e só me lembro de algumas partes, o ortopedista chegando, acariciando meu ombro, dizendo para eu ficar tranquila. Queria ver se ele ficaria tranquilo ali, pelado naquela sala congelante, cruscificado naquela maca, com o anestesista Menguele torturando seu pé com agulhas. Pelo menos todo aquele sofrimento acabaria com minha dor nos pulsos. Era o que eu pensava... Acordei sendo colocada na cama da enfermaria, com a infeliz da agulha fincada no pé gelado.
- Por favor, enfermeira, dá para tirar essa agulha do meu pé? Está me matando de dor.
- Os médicos não gostam que se tire a agulha. Pode ser preciso aplicar algum remédio e aí, teríamos que achar outra veia...
- Só que agora meus braços não estão mais no torniquete, podem aplicar a medicação no braço mesmo.
- Ah, mas dá um trabalho achar a veia...
Será que isso é uma pegadinha? Tem câmera escondida neste quarto? Como assim, a enfermeira estava com preguiça de ter que achar outra veia? A profissão dela não é essa mesmo? Isso só pode ser piada. Elberth entrou no quarto todo animado.
- O doutor disse que você já vai ter alta...
- Eu quero que tire a porra dessa agulha do meu pé agora!
Sem dizer palavra, meu marido deu meia volta e foi procurar a enfermeira. Ele sabe quando eu estou num estado de espírito em que o diálogo não faz parte das opções disponíveis. Em segundos ele voltou.
- Ela disse que se tirar, perde a veia e se precisar aplicar um remédio...
- Chame esse médico filho da puta aqui agora se não eu quebro tudo nessa bosta de quarto. Minhas mãos estão enfaixadas, mas eu juro que arranco essa merda de agulha e enfio ela no cú da enfermeira.
E por aí vai. Meu repertório de palavrões é mesmo respeitável, você ficaria encantada de ouvir. A outra paciente da enfermaria sentou-se na cama assustada, olhando em volta parecendo avaliar como fugiria dali viva. Minha mãe entrou no quarto e tudo começou a piorar ainda mais.
- Minha filha, você tem que ficar calma...
Gente, pode bater na minha cara, me cuspir todinha, mas não me peça para ficar calma no momento em que eu estiver babando e espumando pela boca como um pitbull. Em situações normais da vida, isso já seria suicídio. Mas ali, depois de semanas de dor, sentimentos de culpa e raiva, uma cirurgia e, para completar, aquela agulha enfiada no meu pé, eu só pensava em uma coisa: matar alguém! Nem me lembro do que falei só sei que pulei da cama e comecei a tentar tirar a agulha, as mãos enfaixadas. A agulha não saiu mas parece ter se movido e o pé começou a sangrar. Elberth e mamãe não conseguiam me conter, eu experimentava uma fúria descontrolada e logo havia rebuliço no corredor. As enfermeiras estavam putas da vida com aquela mulherzinha histérica dando trabalho depois de uma simples cirurgia nos pulsos. Tinha gente morrendo de verdade e eu alí dando uma de diva. Na época não pensei, mas esse talvez tenha sido o primeiro sinal de que eu iria pirar. Muito em breve, eu iria ficar ainda pior, mas naquele dia nem sonhava que ainda seria capaz de atitudes mais desequilibradas que aquela.
Não sei se foi para se livrar de mim, mas finalmente as enfermeiras aplicaram um suposto calmante na veia (sim, através da infame agulha espetada no pé, retirada em seguida) e me deixaram sair imediatamente, sem nem averiguar os efeitos do remédio. Foi a alta mais rápida do meu histórico hospitalar. Cheguei em casa fula da vida! Calmante o caralho, acho que eles aplicaram foi Red Bull na minha veia porque eu cheguei pronta para arrancar a orelha do Mike Tyson. Minha irmã estava com Laura em casa mas eu nem queria ver minha filha. Mais uma vez a raiva se insinuava em minha mente dizendo que tudo aquilo acontecera por causa dela. Fui para o quarto com a desculpa de que precisava descansar e chorei de remorso afundando o rosto no travesseiro para ninguém ouvir meus soluços.
Acordei depois sentindo dores nos pulsos e no pé. Mas a dor pior era no coração. Remorso. Corri para o berço para ver minha menininha. Ela dormia com aquela carinha mais fofa, aquele cabelinho preto na cabecinha morena, emanando o seu perfume de carro zero km. Só vê-la não bastava, queria segurá-la nos braços, embalar, pedir desculpas. Estiquei os braços mas as faixas não permitiam que eu a pegasse. Fiquei lá, dependurada na grade do berço com as lágrimas caindo no cobertorzinho dela, me sentindo a mais miserável das mães. Temia pelo dia seguinte quando ficaria sozinha com Laura. Será que minhas mãos iriam funcionar tão bem quanto o médico prometera?
No dia seguinte, tirei as ataduras. Os cortes nos pulsos pareciam uma tentativa de suicídio mal feita. A dor continuava intensa mas não havia o que fazer. Estava sozinha de novo, para cuidar de Laura da melhor forma que eu pudesse. Pelo menos agora eu estava em convalescença, à medida que os pulsos fossem cicatrizando, ficariam fortes de novo e a dor pararia. Então, toda aquela loucura na minha cabeça passaria e ficaria tudo bem. Iria ficar tudo bem.
Só que não ficou nada bem. A dor continuou como seu eu não tivesse feito nada. Na verdade, por algum tempo acho que ficou pior. Depois diminuiu mas não parou por completo e os pulsos falhavam de vez em quando. Os meses foram passando e me acostumei a sentir a dor, às vezes menos, às vezes mais. Quando parei de amamentar, tive a esperança de que sumisse, mas isso não aconteceu também. Aquele velho médico dinossauro tinha razão, pode ser que não passe nunca. Até hoje eu não sei se será assim; já fazem dois anos e os pulsos ainda doem todos os dias. Falharam várias vezes segurando Laura, mas o anjo da guarda dela sempre ajudou na aterrisagem e, no final das contas, ela nunca se machucou seriamente por isto, como acontecia nos meus pesadelos. Como eu disse antes, nada muito dramático. Muitas mães enfrentam coisas piores, eu sei. Não sou grande coisa como pessoa, não sou aquele modelo de mãe coragem e tudo mais. Não tenho desculpas pela fraqueza nos meus pulsos nem pela fraqueza no meu caráter. Eu não queria ser uma pessoa complicada. Só queria segurar meu bebê.