- Eu não acredito que você não me ligou.
- Elberth, eu entendo que você esteja chateado comigo. No seu lugar eu também ficaria magoada por não estar por perto no momento em que minha filha mais precisou de mim. Mas de que iria adiantar ligar para você naquela confusão toda? Agora já passou, está tudo bem com a Laura. Podermos seguir com nossa vida normalmente.
Eu nem imaginava o quanto estava enganada. Depois daquele susto, eu nunca mais iria agir normalmente. Comecei a ficar obsecada com a segurança da minha filha toda vez que ela dormia. A primeira atitude não foi desequilibrada, foi na verdade uma orientação médica que praticamente todas as mães fazem com seus bebês: elevar a cabeceira do berço. Meu marido buscou cortes de mármore e nós empilhávamos três pedras em cada pé do berço. A explicação é que isso evita o refluxo e, na pior das hipóteses, se o bebê vomitar, há maior chance do líquido escorrer devido a inclinação. Sei lá, uma coisa assim! Se tivessem me dito que eu precisaria passar bosta de vaca no meu cabelo para minha filha dormir tranquila, eu teria passado. E como meu cabelo sempre foi uma bosta, talvez ninguém nem notasse.
A soneca da tarde era um pouco mais fácil de ser vigiada, pois eu nem sempre dormia junto com ela e enquanto eu estivesse acordada, me sentia segura. A babá eletrônica se tornou o equipamento mais importante da casa pois eu praticamente andava com ela pendurada na cintura. Se precisava ir ao banheiro, ligava a babá eletrônica na tomada da pia. Se ia estender roupa, colocava-a ligada no volume máximo no chão da cozinha. Passei a considerar aquele aparelho o máximo da evolução tecnológica. Que projeto da Nasa uma ova, nada superava em inteligência, modernidade e utilidade a babá eletrônica! A única maneira de me sentir em paz era ouvir a respiração dela constantemente.
Naqueles dias de calor, havia me acostumado a tomar uma chuveirada na soneca da tarde do bebê. Era o meu momento tomar aquele banho demorado e me lambuzar de creme depois. Mas depois da noite do pânico, eu não conseguia mais fazer isso. Ligava o chuveiro e Laura começava a chorar. Apavorada, desligava a água e corria pelada, pingando pelo corredor, até o quarto dela só para descobrir que a minha menina continuava dormindo como um anjo. Então, tinha que enxugar o chão e voltar ao chuveiro. Mas novamente, era só ligar a água e Laura começava a chorar de novo. Isso acontecia todas as vezes em que eu ficava um pouco longe dela. Se um caminhão passava na rua barulhento, eu ouvia o choro da Laura pedindo ajuda. Se eu demorasse um pouco mais no banheiro, o som do choro dela me atormentava cada segundo. Meu coração estava sempre aos pulos imaginando o pior: que dessa vez eu não chegaria a tempo, que não saberia fazê-la desengasgar novamente, que a ambulância não chegaria nunca.
Comecei a ter pensamentos mórbidos cada vez mais constantes. Me deitava na cama para uma soneca no mesmo horário que Laura, com a babá chiando ao lado do meu travesseiro, e aí começava a seção terror. Pensava em minha filha morta, asfixiada no berço e como eu explicaria aquilo para Elberth. Como diria para ele que não cuidei dela direito, que a deixei partir. Outras vezes via cenas do enterro, um caixãozinho branco e eu ao lado, desesperada. Por milésimos de segundos a dor era tão forte e tão real que entrava em um choro convulsivo que levava minutos para parar. Não sabia como contar isso para meu marido, aliás, para ninguém. Afinal, que tipo de pessoa fica horas chorando e sofrendo de verdade por uma tragédia que não havia acontecido na vida real? Todo mundo ia achar que eu estava ficando maluca. Então, me calava. Tentava agir normalmente quando Elberth chegava em casa, mas devia estava fazendo uma péssima atuação pois ele percebia claramente que eu não estava bem. Reclamava que eu estava agressiva o tempo todo. Olha que desaforo! Ele ficava por aí, trabalhando, andando de carro, vendo pessoas, fazendo coisas, vivendo! E eu, depois de passar o dia todo socada dentro de casa, cuidando da filha dele, ainda tinha que ouvir isso. Se eu tivesse um taco de golfe teria aberto o crânio dele. Ou talvez uma boa faca afiada para abrir a barriga dele e deixar o intestino cair pelo chão da sala. É ou não é um absurdo ele me chamar de agressiva? Só estava ligeiramente nervosa.
Como sempre, os fantasmas da noite são os mais terríveis. Assim, o sono noturno de Laura me causava um temor ainda maior. Para resolver o problema, tirei meu marido da cama e coloquei Laura no lugar dele. Encostei a cama na parede e montei uma espécie de ninho de travesseiros e almofadas de forma a deixar Laura inclinada. O ninho era tão complexo, que eu parei definitivamente de arrumar a cama para não ter que fazê-lo de novo. Me deitava ao lado dela e então tinha início o ritual noturno dos desesperados. Por alguns momentos, eu contava a respiração dela. Inspirou, expirou, inspirou, expirou. Quando eu estava quase dormindo, algum mau pensamento me tomava de assalto e eu me erguia na cama assustada. Então, me inclinava sobre ela para sentir sua respiração e ver seu rostinho. Sempre fiz questão absoluta do escuro para dormir, mas com meu novo ritual, o banheiro tinha que ficar com a luz acessa para entrar uma luz no quarto. Só assim eu poderia avaliar as feições de Laura à noite. Quando percebia que estava tudo bem, deitava-me de novo e começava a contar a respiração.
“Graças a Deus, como estou cançada. Vamos dormir. Mas, espere um pouco. Será que eu chequei direito se ela estava respirando? Que bobagem, claro que eu chequei. Bom, vou dar mais uma olhadinha, só para ter certeza. Ótimo! Está respirando. Posso dormir. Será que eu olhei bem mesmo? Não, Márcia! Pare já com isso! Está parecendo o Roberto Carlos, isso parece TOC sua idiota. Você acabou de se inclinar sobre a coitada da menina e viu que ela estava respirando. Acabou! Pode ficar deitadinha aí.”
Os minutos iam passando e eu começava a me desesperar.
“Qual o problema em dar só mais uma olhadinha? Eu estou morta de cansaço, preciso dormir, Se não olhar agora, não vou dormir. Pronto, olhei! Ela está respirando. Que alívio, posso dormir. Porque ela está respirando, não está? Será que eu chequei direitinho?”
A rotina noturna se repetia por um longo tempo até eu finalmente ser vencida pelo sono. Mas por pouco tempo. Logo, Laura chorava precisando trocar as fraldas e mamar. Nessas horas eu me arrependia amargamente de ter desperdiçado tanto tempo na rotina do “ela está respirando?” mas aí já não tinha o que fazer. Eu dormia cada vez menos e me irritava cada vez mais facilmente. Preocupado, Elberth pediu novamente o apoio da minha irmã Simone e ela veio dormir comigo no final de semana. A idéia era que, quando Laura acordasse, eu dava o seio e depois voltava a dormir, deixando a tarefa de arrotar e trocar fraldas com minha irmã. Como Elberth estava no sofá da sala, e no quarto de Laura só havia o berço, Simone dormiu comigo na cama de casal e Laura ficou no carrinho de bebê, que tinha a vantagem de poder ser inclinado facilmente. Na hora de dormir, tentei disfarçar o meu ritual noturno. Então, ao invés de checar se Laura respirava umas 15 vezes, fiz só umas 7. Eu tinha certeza de que havia sido tão sutil que Simone não notara nadinha. Mas na manhã seguinte, ela me chamou para conversar.
- Márcia, você está obsecada!
- Espere aí, depois do susto que eu passei com a Laura, é totalmente normal que eu...
- Não! Minha irmã, eu sinto muito mas isso que você está fazendo não é normal, nem totalmente nem um pouquinho. Olha, essa noite vamos colocar a Laura no berço dela...
- Nem pensar! Simone, eu não estou preparada, eu não vou conseguir.
- Vai sim! Eu vou estar aqui com você. Sei que tem medo de dormir tão profundamente que você não irá ouvir o bebê, mas poderá dormir porque eu vou tomar conta dela.
- Você não é a mãe. Você sabe disso, com o Vítor, você era capaz de sentir a necessidade dele, mas com Laura, isso não vai acontecer, não existe uma ligação transcendental!
- É só um bebê dormindo no berço Márcia. Todos os bebês do planeta Terra, inclusive você, sobreviveram ao berço. Você tem que parar com essa paranoia agora, se não... Acho que pode piorar. Talvez você devesse ver um médico.
- Claro, eu vou marcar um médico...
Quando a noite chegou, eu estava ainda mais ansiosa. Simone chamou meu marido na sala e anunciou a grande novidade: Laura iria dormir sozinha no berço!
- Que ótimo amor! Você precisa dormir direito, com a Lalá na cama isso era impossível. Agora você vai descansar melhor, seu humor vai melhorar e eu vou poder dormir com você de novo!
Imediatamente, eu abri a boca a chorar. Não um chorinho não, um choro infantil, de soluçar, de escorrer o nariz e balançar todinha.
- Por favor, amor! Não me faça tirar a Laurinha da cama. Por favor, eu não consigo! Eu estou com medo. Ela é tão pequenininha, tão indefesa. Não, não, não...
Ele me abraçou. Naquela noite, novamente Simone e eu dividimos o quarto com Laura e eu dormi muito mal erguendo-me a todo instante para checar a respiração dela. Essa rotina prosseguiu por um bom tempo até a consulta com a pediatra. Quando a médica ficou sabendo que eu dormia com Laura na cama, não teve a menor piedade.
- Márcia, você não é uma mãe adolescente, é uma mãe de quarenta anos, tenha dó. Não tem o menor cabimento você tirar seu marido da cama para o bebê dormir com você. Hoje à noite ela vai para o berço e fim de conversa.
- Mas doutora...
- Você acha que está ajudando a sua filha? Na verdade, não é só você que está dormindo mal, ela também está. Quando ela se mexe na cama, te incomoda. E quando você mexe, deve parecer um terremoto para ela. Ou pior, quando você ronca! Ela também está dormindo mal. A criança tem que acostumar com a própria cama, aquele lugar tem que ser o cantinho dela, ter o cheirinho dela. Se você está paranoica com o engasgo da Laura, coloque a babá eletrônica no seu ouvido e pronto, qualquer barulhinho você vai acordar.
- Mas é exatamente disso que eu tenho medo, doutora. Estou tão exausta que tenho medo de não acordar quando ela mais precisar de mim.
- Seu marido vai estar ao seu lado, se um não acordar, o outro acorda. Mas bebê na cama, nunca mais, ouviu?
Naquela noite, arrumei bem o berço da Laura, chequei as pedras de mármore, a inclinação da cabeceira, a babá eletrônica, tudo certinho. Coloquei minha menina de costas com os rolinhos do lado impedindo que ela se virasse de lado. Essa mudança ainda me deixava confusa. Senti um pouco de agitação em meu peito e então resolvi rezar uma Ave Maria e um Pai Nosso. Depois, chamei por ele.
- Gabriel, anjo da guarda de Laura. Desculpe a intimidade, te batizando com esse nome meio pretencioso... Acho que o anjo da Maria se chamava Gabriel, né? Bom, eu não mereço o mesmo anjo da Nossa Senhora, mas tem muitos Gabrieis pelo mundo, um podia ser meu, né? Quer dizer, da Laura. Enfim, eu te peço que me ajude a zelar pelo sono da minha filha. Você sabe que eu estou com medo, mas confio em você. Se ela precisar de mim, me acorde por favor.
Gabriel não me chamou. Não foi preciso. Essa noite, juntos em nossa cama, eu e Elberth dormimos com os anjos. Ou pelo menos com um anjo no quarto ao lado.
Oi Marcia! Nos conhecemos agorinha no shopping, precisamente no HotZone ... eu te falei do clube dos autores lembra? Adorei seu blog, meu Manual da Cegonha (blog) nao existe mais há menos de um mês eu quis fazer um "blog terapia" diferente, sem margens que me limitassem no quesito mãe.
ResponderExcluirAgora que o Manual Cegonha virou livro, me libertei do blog! rsrs
A laura é linda!!!
Os meus meninos são Sávio e o Heitor, mas qdo eu fizer 40 anos (hehehe) eu vou tentar ter uma menina, será??? Que Deus diga sim. Fui mãe aos 28 e aos 30 ... mas ver vc assim, tão jovem e cheia de vida me faz ter coragem pra ser mãe aos 40 tbm! Na verdade, cá pra nós ... mãe nasce mãe e depois que o filho nasce, a mãe nunca mais faz aniversário né???!!!! Deus abençoe vcs.
Com amor,
Ana