Numa bela manhã, abri a janela e ouvi o canto dos pássaros chilrreando no jardim... Tá bom, eu estou exagerando: não tenho jardim. E quando eu abro a janela de manhã, o único barulho que ouço é o do ônibus subindo a rua e soltando fumaça. Mas de fora esse cenário bucólico, realmente eu acordei uma manhã com uma decisão na minha cabeça: não dava mais para continuar com aquela paranóia toda com a Laura! Eu estava perdendo o melhor da maternidade, a alegria dos pequenos e mágicos momentos de acompanhar o crescimento do bebê. A cada dia que passa, o bebê muda, aprende alguma coisa nova. Assim, do nada, ele aprende a fazer um barulhinho diferente com a boca, consegue se esticar um pouquinho mais no berço ou, a maior das delícias, acaricia o rosto da mãe com sua mãozinha rechonchuda! Mas eu estava gastando toda a minha energia tentando fazer tudo funcionar de forma perfeita para alcançar então a felicidade e com isso, acabava perdendo os pequenos e inesquecíveis momentos imperfeitos. São exatamente esses pequenos momentos reais e ao mesmo tempo tão mágicos que, ao final da jornada, enfileirados um ao lado do outro, formam o que a gente chama de felicidade. Quando você cria um bebê, seu dia fica repleto de instantes assim, que acontecem sem aviso, antes mesmo de você conserguir encontrar a câmera fotográfica. Decidi que era a hora de curtir minha filhotinha.
Sob o sol da manhã e no final da tarde, acomodava Laurinha no carrinho de bebê e saía pelo bairro. Nunca havia reparado como meu bairro é idiota! Não tem num uma única pracinha, uma padaria próxima e a única igreja estava em reforma. Tudo bem, aquela era também uma ótima oportunidade para eu andar um pouco e perder peso. Afinal, em breve eu teria que entrar em minhas antigas roupas, que não eram assim um 42, eram mais para 44. Mas isto seria melhor que os atuais 46, então subia e descia morros empurrando o carrinho e conversando com minha filha.
Com minha crescente religiosidade, rezando terços e acreditando em anjos, o CD do Padre Marcelo & Cia se tornou o sucesso número um do meu aparelho de som. Colocava as músicas religiosas na cozinha e saía com Laura para a área do apartamento, dançando com ela nos braços. Imagino a vizinha do andar de cima assistindo àquela cena: mãe recém parida, descabelada e de camisolão azul dançando em círculos com seu bebê ouvindo no último volume o refão "Nossa Senhora, me dê a mão, cuida do meu coração!" Eu juro que tenho CDs do Titãns, Skank e Paralamas. Sou até meio descolada a ponto de curtir Lou Reed e Tom Waits! Mas você há de concordar que aquela trilha sonora espiritual funcionava melhor para o meu final de dia como uma exausta mãe de 40. Claro que rolavam outras músicas também, mesmo as de gosto mais duvidoso. Uma vez Elberth participou do meu momento musical. Uma das filmagens mais deliciosas desse período mostra meu marido segurando uma Laurinha de 3 ou 4 meses e dançando "Volare" dos Gypsi Kings. Elberth dança tão bem quanto um cabo de vassoura mas com a filha nos braços ele arriscou vários passos, rebolou e fez uma cara de amante latino compondo uma cena digna de figurar no Youtube.
Era à noitinha que batia mais forte a solidão, depois de um dia inteiro de silêncio que eu tentava preencher com a música. Eu precisava conversar com alguém! Meu Deus, nunca pensei que eu fosse tão viciada em falar e ouvir o outro! Eu sou uma mulher cheia de palavras que me entopem o pensamento o dia inteiro e a única coisa que me alivia é fazê-las sair pela garganta a fora. Esse é o meu jeito poético de dizer que sou uma tagarela profissional, eu faço tudo falando, só sei trabalhar falando, caminhar falando, rezar falando. Falo até em cadeira de dentista, mesmo com a baba escorrendo pela boca e correndo o risco de cortar a língua fora com os objetos de tortura moderna da odontologia. Eu simplesmente não perco nunca a chance de uma boa conversa ou um ótimo monólogo. Por isso sempre esperava ansiosamente meu marido voltar do trabalho para disparar impiedosamente:
- Oi, amor! Que bom que você chegou! Sabe o que a Laura fez hoje? Bem, ela não faz realmente coisa alguma, mas tenho a impressão de que ela entendeu o que eu disse, juro! Contei para ela sobre como a gente se conheceu na igreja... Lógico que eu não disse toda a verdade, né? A gente se conheceu mesmo foi bebendo cerveja na feirinha ao lado do muro da igreja mas é quase a mesma coisa... Bom, o importante é que ela acompanhou a história como se estivesse entendendo e... Amor? O que foi? Que cara é essa?
- Márcia, você se importaria de me deixar entrar no apartamento antes de continuar a me contar essa história? A sacola de compras está pesada...
Eu nunca me senti tão mulherzinha quanto nessa época. Eu fechada dentro de casa, cuidando da criança e do almoço e à noite o macho, que passou o dia todo fora caçando na floresta, finalmente retorna à caverna com a caça dentro da sacola do Carrefour.
A vida não parece real ao menos que você conte para alguém como foi o seu dia, a melhor fofoca do escritório, o capítulo do livro que você está lendo ou mesmo quando simplesmente quer dividir com alguém o plano sangrento que você elaborou para assasinar demoradamente o babaca do seu chefe. O que é a vida sem isso? A vontade de narrar cada emoção do dia era enorme então... eu falava! Falava com Laura, com as paredes, com a televisão... Tenho um amigo que diz que falar sozinho é totalmente normal, saudável até. Agora, se você ouvir uma voz respondendo, aí é melhor procurar um psiquiatra urgente! Por isso, eu seguia falando com qualquer coisa de se movesse ou não e, lógico, com Nossa Senhora o tempo todo.
- Deus meu, como eu estou cansada! Desculpe, Nossa Senhora, já estou reclamando de novo. Eu sei, eu sei... Não, está tudo bem, minha filha é saudável, eu tenho licença maternidade remunerada, um marido que me ama, blá, blá... Mas o que eu queria mesmo era dormir! É isso! O quê? Egoísta? Eu? Fala sério, Maria, vai me dizer que você não se cansava nem um pouquinho? O menino Jesus lá, chorando no meio da noite, a Senhora se levantando o tempo todo, o José, pelo que se conta dos homens daquela época, imagino que nem ajudava, e nada disso te deixava nem um pouco estressada? É... Imagino que não, afinal a Senhora é a Virgem Santíssima e eu estou mais para a Puta Chatíssima! Caralho! Falei a palavra "puta" em voz alta! Prometi para o Elberth não falar palavrão perto da Laura mas me esqueci de novo, merda! Será que ela ouviu?
Toda vez que eu reclamava do meu cançaso, imediatamente me sentia culpada. Será que é um tipo de efeito colateral da maternidade, a culpa? O bebê tem febre e a culpa é sua que deixou a janela aberta. O bebê não mama e a culpa é sua porque não teve mais leite. Mal sabia eu na época que aquilo ainda iria piorar muito! Quanto mais a criança cresce, mais tudo o que ela é e faz é sua culpa! Chorou e deu piti no supermercado? Que mãe é essa que não deu educação? Não comeu brócolis? Aposto que a mãe não oferece legumes no almoço. Cresceu, virou psicopata e assassinou vinte pessoas? Deve ter sido traumatizado na infância pela mãe castradora. É muita responsabilidade para uma simples mulher amedrontada, confusa e que não se lembra mais de como é fechar os olhos à noite e só acordar no dia seguinte. Não é possível, alguém tem que fazer alguma coisa! Não tem grupo de "Salvem as Baleias"? Então, vou fundar uma fundação (isso ficou esquisito, né?) com o nome "Salvem as Mães"! O objetivo será proteger o direito das mães de serem apenas humanas e erradas. Devemos ser protegidas e as pessoas devem fazer passeatas nas ruas com camisetas e faixas. A fundação irá defender nosso direito a respirar, vestir camisolões azuis horrorosos, ir ao banheiro sem crianças batendo na porta e gritando "Manhê, que cê tá fazeno aí?" e, principalmente, direito de sermos perdoadas por nossas barrigas flácidas! Afinal, não são só as baleias que precisam ser salvas, nós mães também. Podia-se até misturar os dois grupos tipo "Salvem as Mães Baleias", o que no meu caso, garantiria dupla proteção.
Os dias iam passando e eu estava começando a achar que podia ser mesmo uma mãe. Talvez não fosse impossível me adaptar, ver antes do cansaço, a imensa alegria de acompanhar aquele milagre de ver minha filha mostrar com o brilho dos olhos que reconhecia o pai. Ou, delícia das delícias, acariciar meu peito com sua mãozinha enquanto eu a amamentava. Parecia quando eu aprendi a andar de bicicleta. Lembro bem da sensação pois não foi uma experiência de infância, aprendi a pedalar quando tinha 24 anos. Nos primeiros momentos, você tem absoluta certeza de que o cara que inventou a bicicleta se equivocou. Não é possível para a raça humana se equilibrar naquela coisa, pedalar e olhar para onde está indo, tudo ao mesmo tempo. Virar mãe é bem parecido. Primeiro você vai se balançando de um lado para o outro, mal conseguindo se equilibrar. Quando, de repente, sai andando! Parece mágica! Você começa a gritar: "Consegui" e é o suficiente para perder o equilíbrio e se estatelar no chão. Aí, jura nunca mais montar naquele troço, mas não resiste. Porque é tão deliciosamente perigoso! E você tenta novamente. Eu estava assim, me equilibrando na corda bamba da maternidade, estava quase achando o meu ponto de equilíbrio quando...a tosse começou.