A nova geração das mães não é tão nova assim.

A nova geração das mães não é tão nova assim. Se você colocou a universidade, a carreira, o regime e até o marido na frente da maternidade e depois teve que correr atrás do prejuízo, bem-vinda ao blog das novas mães maduras.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Surtei geral

Numa bela manhã, abri a janela e ouvi o canto dos pássaros chilrreando no jardim... Tá bom, eu estou exagerando: não tenho jardim. E quando eu abro a janela de manhã, o único barulho que ouço é o do ônibus subindo a rua e soltando fumaça. Mas de fora esse cenário bucólico, realmente eu acordei uma manhã com uma decisão na minha cabeça: não dava mais para continuar com aquela paranóia toda com a Laura! Eu estava perdendo o melhor da maternidade, a alegria dos pequenos e mágicos momentos de acompanhar o crescimento do bebê. A cada dia que passa, o bebê muda, aprende alguma coisa nova. Assim, do nada, ele aprende a fazer um barulhinho diferente com a boca, consegue se esticar um pouquinho mais no berço ou, a maior das delícias, acaricia o rosto da mãe com sua mãozinha rechonchuda! Mas eu estava gastando toda a minha energia tentando fazer tudo funcionar de forma perfeita para alcançar então a felicidade e com isso, acabava perdendo os pequenos e inesquecíveis momentos imperfeitos. São exatamente esses pequenos momentos reais e ao mesmo tempo tão mágicos que, ao final da jornada, enfileirados um ao lado do outro, formam o que a gente chama de felicidade. Quando você cria um bebê, seu dia fica repleto de instantes assim, que acontecem sem aviso, antes mesmo de você conserguir encontrar a câmera fotográfica. Decidi que era a hora de curtir minha filhotinha.
Sob o sol da manhã e no final da tarde, acomodava Laurinha no carrinho de bebê e saía pelo bairro. Nunca havia reparado como meu bairro é idiota! Não tem num uma única pracinha, uma padaria próxima e a única igreja estava em reforma. Tudo bem, aquela era também uma ótima oportunidade para eu andar um pouco e perder peso. Afinal, em breve eu teria que entrar em minhas antigas roupas, que não eram assim um 42, eram mais para 44. Mas isto seria melhor que os atuais 46, então subia e descia morros empurrando o carrinho e conversando com minha filha.
Com minha crescente religiosidade, rezando terços e acreditando em anjos, o CD do Padre Marcelo & Cia se tornou o sucesso número um do meu aparelho de som. Colocava as músicas religiosas na cozinha e saía com Laura para a área do apartamento, dançando com ela nos braços. Imagino a vizinha do andar de cima assistindo àquela cena: mãe recém parida, descabelada e de camisolão azul dançando em círculos com seu bebê ouvindo no último volume o refão "Nossa Senhora, me dê a mão, cuida do meu coração!" Eu juro que tenho CDs do Titãns, Skank e Paralamas. Sou até meio descolada a ponto de curtir Lou Reed e Tom Waits! Mas você há de concordar que aquela trilha sonora espiritual funcionava melhor para o meu final de dia como uma exausta mãe de 40. Claro que rolavam outras músicas também, mesmo as de gosto mais duvidoso. Uma vez Elberth participou do meu momento musical. Uma das filmagens mais deliciosas desse período mostra meu marido segurando uma Laurinha de 3 ou 4 meses e dançando "Volare" dos Gypsi Kings. Elberth dança tão bem quanto um cabo de vassoura mas com a filha nos braços ele arriscou vários passos, rebolou e fez uma cara de amante latino compondo uma cena digna de figurar no Youtube.
Era à noitinha que batia mais forte a solidão, depois de um dia inteiro de silêncio que eu tentava preencher com a música. Eu precisava conversar com alguém! Meu Deus, nunca pensei que eu fosse tão viciada em falar e ouvir o outro! Eu sou uma mulher cheia de palavras que me entopem o pensamento o dia inteiro e a única coisa que me alivia é fazê-las sair pela garganta a fora. Esse é o meu jeito poético de dizer que sou uma tagarela profissional, eu faço tudo falando, só sei trabalhar falando, caminhar falando, rezar falando. Falo até em cadeira de dentista, mesmo com a baba escorrendo pela boca e correndo o risco de cortar a língua fora com os objetos de tortura moderna da odontologia. Eu simplesmente não perco nunca a chance de uma boa conversa ou um ótimo monólogo. Por isso sempre esperava ansiosamente meu marido voltar do trabalho para disparar impiedosamente:
- Oi, amor! Que bom que você chegou! Sabe o que a Laura fez hoje? Bem, ela não faz realmente coisa alguma, mas tenho a impressão de que ela entendeu o que eu disse, juro! Contei para ela sobre como a gente se conheceu na igreja... Lógico que eu não disse toda a verdade, né? A gente se conheceu mesmo foi bebendo cerveja na feirinha ao lado do muro da igreja mas é quase a mesma coisa... Bom, o importante é que ela acompanhou a história como se estivesse entendendo e... Amor? O que foi? Que cara é essa?
- Márcia, você se importaria de me deixar entrar no apartamento antes de continuar a me contar essa história? A sacola de compras está pesada...
Eu nunca me senti tão mulherzinha quanto nessa época. Eu fechada dentro de casa, cuidando da criança e do almoço e à noite o macho, que passou o dia todo fora caçando na floresta, finalmente retorna à caverna com a caça dentro da sacola do Carrefour.
A vida não parece real ao menos que você conte para alguém como foi o seu dia, a melhor fofoca do escritório, o capítulo do livro que você está lendo ou mesmo quando simplesmente quer dividir com alguém o plano sangrento que você elaborou para assasinar demoradamente o babaca do seu chefe. O que é a vida sem isso? A vontade de narrar cada emoção do dia era enorme então... eu falava! Falava com Laura, com as paredes, com a televisão... Tenho um amigo que diz que falar sozinho é totalmente normal, saudável até. Agora, se você ouvir uma voz respondendo, aí é melhor procurar um psiquiatra urgente! Por isso, eu seguia falando com qualquer coisa de se movesse ou não e, lógico, com Nossa Senhora o tempo todo.
- Deus meu, como eu estou cansada! Desculpe, Nossa Senhora, já estou reclamando de novo. Eu sei, eu sei... Não, está tudo bem, minha filha é saudável, eu tenho licença maternidade remunerada, um marido que me ama, blá, blá... Mas o que eu queria mesmo era dormir! É isso! O quê? Egoísta? Eu? Fala sério, Maria, vai me dizer que você não se cansava nem um pouquinho? O menino Jesus lá, chorando no meio da noite, a Senhora se levantando o tempo todo, o José, pelo que se conta dos homens daquela época, imagino que nem ajudava, e nada disso te deixava nem um pouco estressada? É... Imagino que não, afinal a Senhora é a Virgem Santíssima e eu estou mais para a Puta Chatíssima! Caralho! Falei a palavra "puta" em voz alta! Prometi para o Elberth não falar palavrão perto da Laura mas me esqueci de novo, merda! Será que ela ouviu?
Toda vez que eu reclamava do meu cançaso, imediatamente me sentia culpada. Será que é um tipo de efeito colateral da maternidade, a culpa? O bebê tem febre e a culpa é sua que deixou a janela aberta. O bebê não mama e a culpa é sua porque não teve mais leite. Mal sabia eu na época que aquilo ainda iria piorar muito! Quanto mais a criança cresce, mais tudo o que ela é e faz é sua culpa! Chorou e deu piti no supermercado? Que mãe é essa que não deu educação? Não comeu brócolis? Aposto que a mãe não oferece legumes no almoço. Cresceu, virou psicopata e assassinou vinte pessoas? Deve ter sido traumatizado na infância pela mãe castradora. É muita responsabilidade para uma simples mulher amedrontada, confusa e que não se lembra mais de como é fechar os olhos à noite e só acordar no dia seguinte. Não é possível, alguém tem que fazer alguma coisa! Não tem grupo de "Salvem as Baleias"? Então, vou fundar uma fundação (isso ficou esquisito, né?) com o nome "Salvem as Mães"! O objetivo será proteger o direito das mães de serem apenas humanas e erradas. Devemos ser protegidas e as pessoas devem fazer passeatas nas ruas com camisetas e faixas. A fundação irá defender nosso direito a respirar, vestir camisolões azuis horrorosos, ir ao banheiro sem crianças batendo na porta e gritando "Manhê, que cê tá fazeno aí?" e, principalmente, direito de sermos perdoadas por nossas barrigas flácidas! Afinal, não são só as baleias que precisam ser salvas, nós mães também. Podia-se até misturar os dois grupos tipo "Salvem as Mães Baleias", o que no meu caso, garantiria dupla proteção.
Os dias iam passando e eu estava começando a achar que podia ser mesmo uma mãe. Talvez não fosse impossível me adaptar, ver antes do cansaço, a imensa alegria de acompanhar aquele milagre de ver minha filha mostrar com o brilho dos olhos que reconhecia o pai. Ou, delícia das delícias, acariciar meu peito com sua mãozinha enquanto eu a amamentava. Parecia quando eu aprendi a andar de bicicleta. Lembro bem da sensação pois não foi uma experiência de infância, aprendi a pedalar quando tinha 24 anos. Nos primeiros momentos, você tem absoluta certeza de que o cara que inventou a bicicleta se equivocou. Não é possível para a raça humana se equilibrar naquela coisa, pedalar e olhar para onde está indo, tudo ao mesmo tempo. Virar mãe é bem parecido. Primeiro você vai se balançando de um lado para o outro, mal conseguindo se equilibrar. Quando, de repente, sai andando! Parece mágica! Você começa a gritar: "Consegui" e é o suficiente para perder o equilíbrio e se estatelar no chão. Aí, jura nunca mais montar naquele troço, mas não resiste. Porque é tão deliciosamente perigoso! E você tenta novamente. Eu estava assim, me equilibrando na corda bamba da maternidade, estava quase achando o meu ponto de equilíbrio quando...a tosse começou.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Mãe neurótica

- Eu não acredito que você não me ligou.
- Elberth, eu entendo que você esteja chateado comigo. No seu lugar eu também ficaria magoada por não estar por perto no momento em que minha filha mais precisou de mim. Mas de que iria adiantar ligar para você naquela confusão toda? Agora já passou, está tudo bem com a Laura. Podermos seguir com nossa vida normalmente.
Eu nem imaginava o quanto estava enganada. Depois daquele susto, eu nunca mais iria agir normalmente. Comecei a ficar obsecada com a segurança da minha filha toda vez que ela dormia. A primeira atitude não foi desequilibrada, foi na verdade uma orientação médica que praticamente todas as mães fazem com seus bebês: elevar a cabeceira do berço. Meu marido buscou cortes de mármore e nós empilhávamos três pedras em cada pé do berço. A explicação é que isso evita o refluxo e, na pior das hipóteses, se o bebê vomitar, há maior chance do líquido escorrer devido a inclinação. Sei lá, uma coisa assim! Se tivessem me dito que eu precisaria passar bosta de vaca no meu cabelo para minha filha dormir tranquila, eu teria passado. E como meu cabelo sempre foi uma bosta, talvez ninguém nem notasse.
A soneca da tarde era um pouco mais fácil de ser vigiada, pois eu nem sempre dormia junto com ela e enquanto eu estivesse acordada, me sentia segura. A babá eletrônica se tornou o equipamento mais importante da casa pois eu praticamente andava com ela pendurada na cintura. Se precisava ir ao banheiro, ligava a babá eletrônica na tomada da pia. Se ia estender roupa, colocava-a ligada no volume máximo no chão da cozinha. Passei a considerar aquele aparelho o máximo da evolução tecnológica. Que projeto da Nasa uma ova, nada superava em inteligência, modernidade e utilidade a babá eletrônica! A única maneira de me sentir em paz era ouvir a respiração dela constantemente.
Naqueles dias de calor, havia me acostumado a tomar uma chuveirada na soneca da tarde do bebê. Era o meu momento tomar aquele banho demorado e me lambuzar de creme depois. Mas depois da noite do pânico, eu não conseguia mais fazer isso. Ligava o chuveiro e Laura começava a chorar. Apavorada, desligava a água e corria pelada, pingando pelo corredor, até o quarto dela só para descobrir que a minha menina continuava dormindo como um anjo. Então, tinha que enxugar o chão e voltar ao chuveiro. Mas novamente, era só ligar a água e Laura começava a chorar de novo. Isso acontecia todas as vezes em que eu ficava um pouco longe dela. Se um caminhão passava na rua barulhento, eu ouvia o choro da Laura pedindo ajuda. Se eu demorasse um pouco mais no banheiro, o som do choro dela me atormentava cada segundo. Meu coração estava sempre aos pulos imaginando o pior: que dessa vez eu não chegaria a tempo, que não saberia fazê-la desengasgar novamente, que a ambulância não chegaria nunca.
Comecei a ter pensamentos mórbidos cada vez mais constantes. Me deitava na cama para uma soneca no mesmo horário que Laura, com a babá chiando ao lado do meu travesseiro, e aí começava a seção terror. Pensava em minha filha morta, asfixiada no berço e como eu explicaria aquilo para Elberth. Como diria para ele que não cuidei dela direito, que a deixei partir. Outras vezes via cenas do enterro, um caixãozinho branco e eu ao lado, desesperada. Por milésimos de segundos a dor era tão forte e tão real que entrava em um choro convulsivo que levava minutos para parar. Não sabia como contar isso para meu marido, aliás, para ninguém. Afinal, que tipo de pessoa fica horas chorando e sofrendo de verdade por uma tragédia que não havia acontecido na vida real? Todo mundo ia achar que eu estava ficando maluca. Então, me calava. Tentava agir normalmente quando Elberth chegava em casa, mas devia estava fazendo uma péssima atuação pois ele percebia claramente que eu não estava bem. Reclamava que eu estava agressiva o tempo todo. Olha que desaforo! Ele ficava por aí, trabalhando, andando de carro, vendo pessoas, fazendo coisas, vivendo! E eu, depois de passar o dia todo socada dentro de casa, cuidando da filha dele, ainda tinha que ouvir isso. Se eu tivesse um taco de golfe teria aberto o crânio dele. Ou talvez uma boa faca afiada para abrir a barriga dele e deixar o intestino cair pelo chão da sala. É ou não é um absurdo ele me chamar de agressiva? Só estava ligeiramente nervosa.
Como sempre, os fantasmas da noite são os mais terríveis. Assim, o sono noturno de Laura me causava um temor ainda maior. Para resolver o problema, tirei meu marido da cama e coloquei Laura no lugar dele. Encostei a cama na parede e montei uma espécie de ninho de travesseiros e almofadas de forma a deixar Laura inclinada. O ninho era tão complexo, que eu parei definitivamente de arrumar a cama para não ter que fazê-lo de novo. Me deitava ao lado dela e então tinha início o ritual noturno dos desesperados. Por alguns momentos, eu contava a respiração dela. Inspirou, expirou, inspirou, expirou. Quando eu estava quase dormindo, algum mau pensamento me tomava de assalto e eu me erguia na cama assustada. Então, me inclinava sobre ela para sentir sua respiração e ver seu rostinho. Sempre fiz questão absoluta do escuro para dormir, mas com meu novo ritual, o banheiro tinha que ficar com a luz acessa para entrar uma luz no quarto. Só assim eu poderia avaliar as feições de Laura à noite. Quando percebia que estava tudo bem, deitava-me de novo e começava a contar a respiração.
“Graças a Deus, como estou cançada. Vamos dormir. Mas, espere um pouco. Será que eu chequei direito se ela estava respirando? Que bobagem, claro que eu chequei. Bom, vou dar mais uma olhadinha, só para ter certeza. Ótimo! Está respirando. Posso dormir. Será que eu olhei bem mesmo? Não, Márcia! Pare já com isso! Está parecendo o Roberto Carlos, isso parece TOC sua idiota. Você acabou de se inclinar sobre a coitada da menina e viu que ela estava respirando. Acabou! Pode ficar deitadinha aí.”
Os minutos iam passando e eu começava a me desesperar.
“Qual o problema em dar só mais uma olhadinha? Eu estou morta de cansaço, preciso dormir, Se não olhar agora, não vou dormir. Pronto, olhei! Ela está respirando. Que alívio, posso dormir. Porque ela está respirando, não está? Será que eu chequei direitinho?”
A rotina noturna se repetia por um longo tempo até eu finalmente ser vencida pelo sono. Mas por pouco tempo. Logo, Laura chorava precisando trocar as fraldas e mamar. Nessas horas eu me arrependia amargamente de ter desperdiçado tanto tempo na rotina do “ela está respirando?” mas aí já não tinha o que fazer. Eu dormia cada vez menos e me irritava cada vez mais facilmente. Preocupado, Elberth pediu novamente o apoio da minha irmã Simone e ela veio dormir comigo no final de semana. A idéia era que, quando Laura acordasse, eu dava o seio e depois voltava a dormir, deixando a tarefa de arrotar e trocar fraldas com minha irmã. Como Elberth estava no sofá da sala, e no quarto de Laura só havia o berço, Simone dormiu comigo na cama de casal e Laura ficou no carrinho de bebê, que tinha a vantagem de poder ser inclinado facilmente. Na hora de dormir, tentei disfarçar o meu ritual noturno. Então, ao invés de checar se Laura respirava umas 15 vezes, fiz só umas 7. Eu tinha certeza de que havia sido tão sutil que Simone não notara nadinha. Mas na manhã seguinte, ela me chamou para conversar.
- Márcia, você está obsecada!
- Espere aí, depois do susto que eu passei com a Laura, é totalmente normal que eu...
- Não! Minha irmã, eu sinto muito mas isso que você está fazendo não é normal, nem totalmente nem um pouquinho. Olha, essa noite vamos colocar a Laura no berço dela...
- Nem pensar! Simone, eu não estou preparada, eu não vou conseguir.
- Vai sim! Eu vou estar aqui com você. Sei que tem medo de dormir tão profundamente que você não irá ouvir o bebê, mas poderá dormir porque eu vou tomar conta dela.
- Você não é a mãe. Você sabe disso, com o Vítor, você era capaz de sentir a necessidade dele, mas com Laura, isso não vai acontecer, não existe uma ligação transcendental!
- É só um bebê dormindo no berço Márcia. Todos os bebês do planeta Terra, inclusive você, sobreviveram ao berço. Você tem que parar com essa paranoia agora, se não... Acho que pode piorar. Talvez você devesse ver um médico.
- Claro, eu vou marcar um médico...
Quando a noite chegou, eu estava ainda mais ansiosa. Simone chamou meu marido na sala e anunciou a grande novidade: Laura iria dormir sozinha no berço!
- Que ótimo amor! Você precisa dormir direito, com a Lalá na cama isso era impossível. Agora você vai descansar melhor, seu humor vai melhorar e eu vou poder dormir com você de novo!
Imediatamente, eu abri a boca a chorar. Não um chorinho não, um choro infantil, de soluçar, de escorrer o nariz e balançar todinha.
- Por favor, amor! Não me faça tirar a Laurinha da cama. Por favor, eu não consigo! Eu estou com medo. Ela é tão pequenininha, tão indefesa. Não, não, não...
Ele me abraçou. Naquela noite, novamente Simone e eu dividimos o quarto com Laura e eu dormi muito mal erguendo-me a todo instante para checar a respiração dela. Essa rotina prosseguiu por um bom tempo até a consulta com a pediatra. Quando a médica ficou sabendo que eu dormia com Laura na cama, não teve a menor piedade.
- Márcia, você não é uma mãe adolescente, é uma mãe de quarenta anos, tenha dó. Não tem o menor cabimento você tirar seu marido da cama para o bebê dormir com você. Hoje à noite ela vai para o berço e fim de conversa.
- Mas doutora...
- Você acha que está ajudando a sua filha? Na verdade, não é só você que está dormindo mal, ela também está. Quando ela se mexe na cama, te incomoda. E quando você mexe, deve parecer um terremoto para ela. Ou pior, quando você ronca! Ela também está dormindo mal. A criança tem que acostumar com a própria cama, aquele lugar tem que ser o cantinho dela, ter o cheirinho dela. Se você está paranoica com o engasgo da Laura, coloque a babá eletrônica no seu ouvido e pronto, qualquer barulhinho você vai acordar.
- Mas é exatamente disso que eu tenho medo, doutora. Estou tão exausta que tenho medo de não acordar quando ela mais precisar de mim.
- Seu marido vai estar ao seu lado, se um não acordar, o outro acorda. Mas bebê na cama, nunca mais, ouviu?
Naquela noite, arrumei bem o berço da Laura, chequei as pedras de mármore, a inclinação da cabeceira, a babá eletrônica, tudo certinho. Coloquei minha menina de costas com os rolinhos do lado impedindo que ela se virasse de lado. Essa mudança ainda me deixava confusa. Senti um pouco de agitação em meu peito e então resolvi rezar uma Ave Maria e um Pai Nosso. Depois, chamei por ele.
- Gabriel, anjo da guarda de Laura. Desculpe a intimidade, te batizando com esse nome meio pretencioso... Acho que o anjo da Maria se chamava Gabriel, né? Bom, eu não mereço o mesmo anjo da Nossa Senhora, mas tem muitos Gabrieis pelo mundo, um podia ser meu, né? Quer dizer, da Laura. Enfim, eu te peço que me ajude a zelar pelo sono da minha filha. Você sabe que eu estou com medo, mas confio em você. Se ela precisar de mim, me acorde por favor.
Gabriel não me chamou. Não foi preciso. Essa noite, juntos em nossa cama, eu e Elberth dormimos com os anjos. Ou pelo menos com um anjo no quarto ao lado.